Publicado: 28/06/2002
de Huáscar do Valle
Huáscar: “Entretanto, a principal diferença de abordagem é que penso que a atitude mais científica consiste em dizer NÃO SEI. Só as religiões e as ideologias têm certezas. A ciência sempre tem dúvidas. A verdade de ontem pode ser uma bobagem hoje, como a famosa teoria flogística do passado. Se me permitem entrar no terreno da futurologia, eu diria que daqui há algumas décadas estaremos rindo de muitas teorias hoje consideradas verdades científicas.”Mantenho minha opinião. A ciência nunca diz a última palavra— um apanágio das religiões—por isso elas falam tantas besteiras. Naturalmente discordo que a teoria do BB seja correta. É um mito religioso, do qual caíram vítimas luminares da ciência, inclusive Einstein, Gammow, Hawking e... Sandro! Não creio que a teoria seja poderosa. Acho-a ridícula, uma questão de fé. Não concordo que as observações de hoje corroborem eventos mágicos ocorridos há bilhões de anos. Não quero alegar argumento de autoridade, mas existem muitas pessoas, além de mim, que não aceitam o BB. Além disso, eu penso que, em nossa insignificância humana, estamos limitados um universo visível, de talvez uns 30 bilhões de anos-luz de diâmetro. Além deste universo visível devem existir zilhões de galáxias, baseado na teoria do universo isotrópico. Apenas especulação, naturalmente, pois além do limite do universo visível, não podemos saber o que exisste. Desde as primitivas idéias sobre a terra plana o universo tem se expandido em tamanho dentro de nossa mente. Como imaginar que, depois do fim do universo visível não tem nada?O espaço acaba? Como não consigo responder a esta pergunta, trabalho com a hipótese de que o universo é infinito em tempo e espaço. Aliás, penso que o tempo e o espaço não são coisas. Existem apenas em nossa imaginação (Umwelt). Aliás, quando penso nestes assuntos, sou tentado a concluir que o universo não existe. Socorre-me o pensamento de Descartes: “Cogito, ergo sunt”. Huáscar: “Há pouco tempo cientistas pouco honestos, com a preocupação de serem os primeiros, anunciaram que descobriram como fazer a fusão nuclear a frio. Foi um blefe monumental. A lamentável história do homem de Piltdown também mostra que há fraudes vergonhosas.”Pretendo mostrar mais que isso. A ciência não é infalível. Um respeitado cientista de hoje, amanhã pode ser desmascarado como um farsante. Há relativamente pouco tempo, nos anos vinte, antes de Hubble, os maiores cientistas do mundo ainda achavam que as galáxias eram nebulosas dentro da Via Láctea. De uma tacada Hubble aumentou o tamanho do universo de maneira assustadora. Para mim a teoria do BB, no que ela tem de criacionismo, é uma farsa colossal, uma arapuca extremamente ardilosa, preparada por um monge, sob ordens de um papa, para dar credibilidade científica ao criacionismo bíblico. Huáscar: “Para mim o criacionismo implícito na teoria do big bang é outra fraude (ou mitologia, como colocou Silk), para tentar convalidar a cosmologia bíblica, e não tenho motivos para mudar de idéia.”Estas tais observações nem de longe me convencem. São totalmente distorcidas para sustentar o criacionismo bíblico. A teoria do átomo primordial que explodiu e se transformou em um universo em expansão de 30 ou mais bilhões de anos-luz de diâmetro é mais fantasiosa que a história da Branca de Neve. Pessoas que dominam a matemática são capazes de provar qualquer coisa por meio de esotéricas equações. Lembro-me de um professor, quando estava na faculdade, que escreveu um livro: “Prova matemática da existência de Deus”. Huáscar: “Ultimamente tem surgido idéias tão esdrúxulas como buracos de minhoca, super-cordas e não sei o que mais. É a competição para aparecer. Cientistas também são humanos, com as mesmas fraquezas que nós, leigos.”São apenas duas teorias esdrúxulas, dentre muitas que pipocam por aí, lançadas por cientistas que querem aparecer. Depois que Einstein derrubou aquele mundo certinho de Newton, a ciência ortodoxa enveredou por caminhos inacessíveis aos leigos, a partir da mecânica quântica que, segundo Feynman, ninguém entende. Mas funciona! Huáscar: “Não penso que a matéria de que são feitas as estrelas tenham uma idade associada.”Em princípio, não acredito em verdades bem estabelecidas. Isto seria religião. Sandro: A evolução das estrelas, desde sua formação até seus estágios “finais” (no sentido de cessarem suas reações nucleares e deixarem de emitir luz) é algo bastante conhecido. Uma estrela se forma da condensação de uma nuvem de gás e poeira. Quando se torna densa e quente o suficiente, têm início as reações de fusão termonuclear, que consomem o hidrogênio e enriquecem a estrela de hélio (dependendo da massa da estrela, pode-se seguir a fusão do hélio em elementos mais pesados). A estrela, em um determinado período, pode sofrer perda de massa (de maneira lenta e contínua ou rápida e explosiva), liberando gás e poeira enriquecidos quimicamente (contendo mais elementos pesados do que o material que formou a estrela). A próxima geração de estrelas nascerá com mais elementos pesados do que a geração anterior, ou mais metálica. Problema: num universo sem o Big Bang, como explicar o fato de que a metalicidade das populações estelares mais jovens conhecidas não é infinita?Não vejo porque deveria ser infinita. Sandro: Pela mesma explicação acima, num universo sem o Big Bang, como explicar que ainda existem regiões ricas em gás, que somente nos últimos milhões de anos começaram a formar estrelas?No universo existem todos os estágios de formação de estrelas e galáxias. Não há mistério nisso nem autoriza a dedução de que tudo isso veio de uma explosão de um átomo primordial. Sandro: Chamamos “anã branca” o estágio final de estrelas de baixa massa. Nesse estágio, tudo o que a estrela pode fazer, uma vez que não mais ocorrem reações termonucleares, é esfriar e emitir cada vez menos radiação. Num universo infinito no tempo, observaríamos estrelas anãs brancas arbitrariamente frias e velhas. Problema: as anãs brancas mais frias e velhas conhecidas possuem idade de aproximadamente... 15 bilhões de anos.Isto tudo pode, no máximo, sugerir que há quinze bilhões de anos, iniciou-se um estágio de expansão deste universo que conhecemos. Talvez o início de um universo “sanfona”, se posso chamá-lo assim (pouco provável, pela descoberta do universo em expansão acelerada). Nada a objetar. Apenas não aceito: 1) Este estágio ter-se-ia iniciado de uma partícula infinitesimal (isso me parece uma grande bobagem); 2)Este estágio tenha sido a criação do universo (o Fiat Lux)—ele já existia, não sabemos como; 3) Este universo que conhecemos é o único. Deve haver outros, embora não podemos ter certeza disso. Huáscar: “Admito que este universo observável (que pode ser apenas um dos universos existentes) pode ter sido menor, antes da fase de expansão, mas não posso aceitar que as 10 a 50 bilhões de galáxias (cada uma com bilhões de estrelas e trilhões de outros astros) calculadas pelo observatório Hubble tenham estado concentradas em um objeto menor que um átomo. Entender como pessoas inteligentes podem acreditar nesta irracionalidade é um dos mistérios que procuro decifrar.”Nada tenho a objetar contra estas observações. Huáscar: “Sem dúvida a teoria do big bang é uma adequação (apressada, em minha opinião) de uma teoria às observações.”Mantenho minha opinião. Huáscar: “Logo, não é uma ciência. É uma adequação, em minha opinião, uma adequação fantasiosa, mais para Arthur Clark que para Einstein.”Continuo achando que em ciência nenhuma explicação é definitiva. Huáscar: “O fato de que está em expansão certamente nos dá o direito de rodar o filme de diante para trás e concluir que tantos zilhões de anos atrás ele estava mais concentrado. Mas não nos dá o direito de supor que, por uma singularidade (denominação modernosa para "milagre") ele estivesse concentrado em uma partícula menor que um átomo, ou mesmo do tamanho de uma bola de tênis.”Já comentei este assunto. Huáscar: “Além disto as últimas observações sugerem que o universo estaria em expansão acelerada, o que não facilita em nada a teoria do big bang.”Eu acho que atrapalha. Se o universo está em expansão acelerada, ou não houve uma explosão inicial ou existe uma outra força em ação, talvez a constante cosmológica de Einstein ou, quem sabe, uma inversão da gravidade, a grandes distância (já que parece não atuar dentro das galáxias—apenas especulações). Huáscar: “Suponhamos que o universo começou de uma explosão de um "átomo primordial", como sugeriu Lemaître. Imaginemos que este átomo primordial estivesse flutuando em um espaço infinito e vazio [...].”A teoria que o espaço nasceu com o BB é mística. Foge ao meu escopo. Huáscar: “Como disse Joseph Silk, é uma questão de fé, da qual não compartilho. O começo do universo é um falso problema. Por que ele haveria de ter um começo?”Não consigo renunciar à teoria da causa e efeito. Se teve um começo, teve a causa primeira, como quer Santo Agostinho e vários adeptos do BB: DEUS! Estou fora desta. Prefiro achar que não houve começo, embora não possa garantir nada. Ninguém pode, a meu ver. Huáscar: “Prefiro nenhuma teoria que uma teoria irracional.”Especulações preconcebidas? É uma acusação ambivalente. Repilo-a. Huáscar: “Usando uma expressão jurídica (do CPC): "da narração dos fatos não decorre a conclusão". O fato é o universo em expansão. Podemos concluir que ele era menor. Concluir que o universo cabia em um átomo primordial revela a intenção de adaptar um fato a uma crença criacionista, incompatível com uma ciência séria, data venia.”Mantenho a opinião que da narração dos fatos não decorre a conclusão. Huáscar: “Você me perdoa? O que é isto?”Sem dúvida. Huáscar: “Somos insignificantes demais para responder a esta pergunta, no entanto eu trabalho com a hipótese que o universo sempre existiu, pois não consigo sequer imaginar limites, nem para o tempo nem para o espaço.”“trabalhar com a hipótese”é sinônimo de “não saber’. Acho extremamente temerário tentar explicar algo que teria acontecido há tanto tempo. Como não consigo imaginar um início, nem para o tempo nem para o espaço, imagino que eles sejam infinitos, embora a infinitude também seja inimaginável. Como poderia um peixe das profundezas abissais do Oceano Pacífico imaginar a majestade do Everest? Huáscar: “A singularidade é uma explicação modernosa para milagre, obviamente. Veja o que Aurélio diz sobre "milagre" [...]:”A teoria da singularidade veio a calhar para apoiar o criacionismo bíblico. Mereceu até uma medalha do papa. É, sem dúvida, uma explicação modernosa para milagre. Huáscar: “Da mesma maneira que desprezo enxurradas de palavras dos Upanishades, do Bhagvad Gita, do Zend Avesta, da Bíblia, do Corão, e agarro-me em meu ateísmo e meu materialismo.”Honestamente, acho a comparação válida. A teoria criacionista do BB é digna de figurar nos Upanishades ou na Bíblia, talvez no mesmo capítulo em que Josué conseguiu parar o sol (uma singularidade). A Bíblia é cheia de singularidades, principalmente o Novo Testamento. Não acho que o BB é arbitrário e subjetivo. Muito pior. Acho que ele é uma armadilha para se chegar à crença em um Deus criador dos céus e da terra, que depois ficou pairando sobre as águas. Huáscar: “[...] Ninguém observou o big bang. É uma das poucas coisas das quais tenho certeza. A essência desta teoria são ilações de observações.”ratifico os argumentos anteriores, haja vista que não houve argumentos novos.
para explicar a origem e a evolução do Universo?
Sim
Não
Nenhum dos dois / Outro |