Publicado: 17/06/2002
de Sandro Rembold
“Entretanto, a principal diferença de abordagem é que penso que a atitude mais científica consiste em dizer NÃO SEI. Só as religiões e as ideologias têm certezas. A ciência sempre tem dúvidas. A verdade de ontem pode ser uma bobagem hoje, como a famosa teoria flogística do passado. Se me permitem entrar no terreno da futurologia, eu diria que daqui há algumas décadas estaremos rindo de muitas teorias hoje consideradas verdades científicas.”Concordo. Muitas teorias incorretas surgirão, como tem acontecido sempre na história da ciência. Mas pelo que me lembre, jamais disse que a teoria do Big Bang é, definitivamente, correta. O que não podemos fazer é descartar essa teoria pelo fato de ela ofender aquilo que afaga nossas crenças pessoais. A teoria é poderosa, e não se baseia em fé. As observações corroboram suas previsões. É por isso que a consideramos. “Há pouco tempo cientistas pouco honestos, com a preocupação de serem os primeiros, anunciaram que descobriram como fazer a fusão nuclear a frio. Foi um blefe monumental. A lamentável história do homem de Piltdown também mostra que há fraudes vergonhosas.”Sim, foram um blefe e uma fraude, respectivamente. Você só está mostrando que existem cientistas inescrupulosos. “Para mim o criacionismo implícito na teoria do big bang é outra fraude (ou mitologia, como colocou Silk), para tentar convalidar a cosmologia bíblica, e não tenho motivos para mudar de idéia.”Eu repito: não importa qual tenha sido a intenção de Lemaître, são as observações que devem dar o veredicto. E até agora este tem sido bastante favorável. “Ultimamente tem surgido idéias tão esdrúxulas como buracos de minhoca, super-cordas e não sei o que mais. É a competição para aparecer. Cientistas também são humanos, com as mesmas fraquezas que nós, leigos.”A teoria das Supercordas é tão esdrúxula quanto a Relatividade Geral, pois se baseia na mesma idéia de um universo multidimensional. Os buracos de minhoca são construtos matemáticos plenamente coerentes com esta. A qualquer pessoa que pretende fazer críticas a essas idéias, aconselho um pouco de estudo prévio. “Não penso que a matéria de que são feitas as estrelas tenham uma idade associada.”O que é um problema sério. Vamos ver algumas informações que estão cientificamente bem estabelecidas:
Os corpos celestes têm uma idade associada, e o mesmo vale para sua composição química. Se o Big Bang não ocorreu, alguma coisa deve ter ocorrido no universo há cerca de 15 bilhões de anos. As estrelas mais velhas conhecidas não são mais velhas do que essa idade, e portanto a) as estrelas deveriam estar impedidas de se formar, ou b) as gerações anteriores desapareceram. Se estas gerações desapareceram, não levaram junto o gás interestelar, e curiosamente não o enriqueceram durante toda sua (infinita) história. Bem, essas indicações montam um quadro no qual a matéria só se tornou disponível no universo em um tempo específico no passado. Podemos estar errados, claro. De qualquer forma, precisaríamos elaborar um cenário no qual o universo esperou um tempo infinito para que suas primeiras estruturas tenham se formado. Ou então, imaginar que alguma catástrofe tenha acontecido com as estruturas antigas, e dado forma àquilo que observamos. E esse cenário também deve conter, sabe-se lá como, uma explicação para a radiação de fundo e a expansão do universo. Tudo isso para tentarmos fugir – sem sucesso – daquela “fraude” que é um universo limitado no tempo. “Admito que este universo observável (que pode ser apenas um dos universos existentes) pode ter sido menor, antes da fase de expansão, mas não posso aceitar que as 10 a 50 bilhões de galáxias (cada uma com bilhões de estrelas e trilhões de outros astros) calculadas pelo observatório Hubble tenham estado concentradas em um objeto menor que um átomo. Entender como pessoas inteligentes podem acreditar nesta irracionalidade é um dos mistérios que procuro decifrar.”Você acredita que
Eu não chamaria estes quatro pontos – tomados aleatoriamente – de obviedades, nem mesmo diria que são fáceis de visualizar, ou que não pareçam completos absurdos. Mas não são. Todas essas “irracionalidades” são observadas na natureza. Independentemente de o Vaticano gostar disso ou não, independentemente de o debatedor B achar isso racional ou não. O universo não se reduz ao que depreendemos de nossas sensações cotidianas. Uma limitação pessoal na compreensão de algo não pode ser confundida com a impossibilidade desse algo: os fenômenos citados acima são conhecidos graças à observação experimental. “Sem dúvida a teoria do big bang é uma adequação (apressada, em minha opinião) de uma teoria às observações.”Acho estranho uma teoria ser uma adequação de uma teoria a alguma coisa. E não vejo porque seria apressada, uma vez que está cheia de evidências que a suportam. “Logo, não é uma ciência. É uma adequação, em minha opinião, uma adequação fantasiosa, mais para Arthur Clark que para Einstein.”Não é uma ciência, é uma teoria física, e esta sim é uma ciência. E devo lembrar que “fantasiosa” é um termo que bem poderia ser empregado aos fenômenos a-d que descrevi acima, e que de fato ocorrem na natureza. “O fato de que está em expansão certamente nos dá o direito de rodar o filme de diante para trás e concluir que tantos zilhões de anos atrás ele estava mais concentrado. Mas não nos dá o direito de supor que, por uma singularidade (denominação modernosa para "milagre") ele estivesse concentrado em uma partícula menor que um átomo, ou mesmo do tamanho de uma bola de tênis.”Por que não? O que não podemos fazer é supor e simplesmente supor. As condições iniciais descritas pelo Big Bang geram previsões poderosas para o universo atual, e a comparação destas com o que observamos é plenamente factível. E é isso que irá dizer se a teoria é válida ou não. E repito, tudo está mostrando que sim. “Além disto as últimas observações sugerem que o universo estaria em expansão acelerada, o que não facilita em nada a teoria do big bang.” Não facilita, e também não atrapalha. É absoluta e completamente irrelevante. “Suponhamos que o universo começou de uma explosão de um "átomo primordial", como sugeriu Lemaître. Imaginemos que este átomo primordial estivesse flutuando em um espaço infinito e vazio [...].”Bem, este trecho não se refere ao Big Bang, pois implica em um espaço desligado do evento. A seqüência de seu argumento não faz sentido, portanto. Repito aquilo que disse na primeira resposta: existe uma falha grave na compreensão da teoria. “Como disse Joseph Silk, é uma questão de fé, da qual não compartilho. O começo do universo é um falso problema. Por que ele haveria de ter um começo?”E por que ele não pode ter tido um começo, como o debatedor B insiste em afirmar? Ninguém disse que o universo é obrigado a ter um começo, mas sim que as observações indicam que ele teve um começo. “Prefiro nenhuma teoria que uma teoria irracional.” Traduzo livremente isso (com o risco de cometer um erro, já que estou emitindo uma mera opinião pessoal) para “prefiro nenhuma teoria a uma teoria científica que ameace as especulações preconcebidas que tenho”. “Usando uma expressão jurídica (do CPC): "da narração dos fatos não decorre a conclusão". O fato é o universo em expansão. Podemos concluir que ele era menor. Concluir que o universo cabia em um átomo primordial revela a intenção de adaptar um fato a uma crença criacionista, incompatível com uma ciência séria, data venia.”Não se “conclui que o universo cabia num átomo primordial”. E como já narrei acima, não é uma mera evidência solta – a expansão do universo – que suporta a teoria. “Você me perdoa? O que é isto?” “Que me perdoem os cientistas. Isto me parece um concurso de doidos.” Esta frase foi escrita pelo debatedor B na sua Introdução. Como se vê, foi feito um pedido de perdão não aos padres – coisa que não sou –, mas aos cientistas. Educadamente, consenti. Ora, é evidente que entendi esse pedido como uma sátira. Respondi à altura, e não entendo por que recebi uma reação tão negativa. Mas vou parar por aqui, já que este tipo de discussão não deve ser de interesse do leitor. “Somos insignificantes demais para responder a esta pergunta, no entanto eu trabalho com a hipótese que o universo sempre existiu, pois não consigo sequer imaginar limites, nem para o tempo nem para o espaço.”Bem, parece que concordamos, então, que a causação não é exclusividade da teoria do Big Bang. Fico feliz com essa (primeira) convergência. Portanto, os argumentos anteriores, baseados nessa premissa, parecem definitivamente sepultados. Mas vejo que, de qualquer forma, o senhor se abstém de dizer “não sei”; afinal, trabalha com a hipótese de que o “universo sempre existiu”. “A singularidade é uma explicação modernosa para milagre, obviamente. Veja o que Aurélio diz sobre "milagre" [...]:”Os buracos negros são estruturas coerentes na Relatividade Geral. São singularidades, uma vez que se consistem de uma determinada quantidade de massa com densidade infinita. Eles 1) são frutos (teóricos) da descrição da gravidade em termos de deformações locais no espaço-tempo; 2) possuem propriedades externas definidas, como massa, horizonte de eventos e carga elétrica; 3) na teoria de evolução estelar, resultam da explosão de estrelas de alta massa, e portanto sabemos muito bem quais sistemas darão origem a singularidades; e 4) evoluem no tempo, diminuindo gradativamente sua massa por tunelamento quântico até seu desaparecimento. Não são, portanto, “acontecimentos extraordinários”, e seu surgimento e desaparecimento são explicados pelas leis da natureza, embora para um ponto interior ao horizonte de eventos, não possamos aplicar as leis que conhecemos. Não me parece a descrição adequada para um milagre. “Da mesma maneira que desprezo enxurradas de palavras dos Upanishades, do Bhagvad Gita, do Zend Avesta, da Bíblia, do Corão, e agarro-me em meu ateísmo e meu materialismo.”Confesso-me, pela primeira vez nesse debate, decepcionado. Então o debatedor B compara dados astrofísicos com as palavras dos Upanishades, do Bhagvad Gita, do Zend Avesta, da Bíblia. Isso foi um erro tremendo, e tenho receio do efeito de uma frase como essa perante os leitores. Se dados científicos são arbitrários e subjetivos como as escrituras, então o que estamos fazendo aqui? Encerra-se o debate. Se o debatedor B ignora dados científicos para debater sobre uma teoria científica, como se propor a debater? “[...] Ninguém observou o big bang. É uma das poucas coisas das quais tenho certeza. A essência desta teoria são ilações de observações.”Jamais observamos o núcleo do Sol. Mas o conhecemos melhor do que o centro da Terra, por observações indiretas. A essência do que sabemos sobre o núcleo das estrelas vem de observações, não diretamente do núcleo, mas da atmosfera das estrelas. Não é preciso uma observação direta de algo para que possamos deduzir suas propriedades, baseando-se no seu efeito sobre coisas que podemos observar diretamente. De qualquer forma, concordo com a última frase acima, uma vez que ilação, pelo dicionário Aurélio, é “aquilo que se conclui de certos fatos; dedução, conclusão”. Além disso, será que uma observação científica direta do Big Bang convenceria o debatedor B? Ele não iria “desprezar” esse dado, como faz com as palavras do Corão (!), e prosseguir em seu combate contra a teoria? Mais uma vez, permeiam os argumentos do debatedor B uma falta de compreensão da teoria do Big Bang, uma tentativa recorrente de derrubar esta teoria por meio de alegações de “irracionalidade” da mesma – coisa que combati por meio de exemplos de fenômenos aparentemente absurdos e que de fato ocorrem na natureza – e, o que muito me chocou, uma rejeição das observações experimentais que corroboram a teoria – até mesmo uma absurda comparação entre medições astrofísicas e livros sagrados. Vejamos se teremos mais pérolas como essa enfeitando a argumentação do debatedor B em sua segunda resposta.
para explicar a origem e a evolução do Universo?
Sim
Não
Nenhum dos dois / Outro |