"Acredito que seja hora de revelar a verdade sobre esse infeliz assunto chamado "Espiritualismo". Ele hoje está amplamente difundido por todo o mundo e se não for contido rapidamente causará muito mal."
Margaret Fox - Co-fundadora do Espiritualismo1
Enquanto aguardamos ansiosamente que o debatedor Marcos apresente estudos mais recentes de fenômenos espirituais, publicados em periódicos científicos confiáveis (obviamente que isso não inclui casos publicados na revista O Cruzeiro em 1964), podemos tecer algumas observações sobre os casos de Crookes e das irmãs Fox. Talvez fosse importante lembrar que o "Quarterly Journal of Science" era de propriedade do próprio Crookes, e que os estudos saíram lá porque os outros periódicos científicos se recusaram a publicá-los2 (a propósito, cometi um engano com relação ao autor do The Sorcerer of Kings, que é Gordon Stein, e não Stenger). Isso acontece ainda nos dias de hoje. Como os periódicos de respeito geralmente se recusam a publicar pseudociência, temendo pela reputação, os defensores desses assuntos criam seus próprios periódicos especializados. Daí as revistas de astrologia, OVNIs, simpatias, medicina alternativa, etc. Até os que defendem que o HIV não causa a AIDS têm uma.
Quanto às irmãs Fox, não só confessaram como também mostraram como faziam o truque, e como frustraram todas as tentativas das tais comissões criadas para desvendar o mistério. Margaret Fox mencionou também que o caso do suposto assassinato era uma farsa: "finalmente encontraram um homem com o nome de Bell, e disseram que esse pobre homem inocente tinha cometido um assassinato".1 Pode ser até que tenham se arrependido da confissão depois, talvez com saudades do sucesso e do dinheiro fácil, embora eu não tenha encontrado nenhuma referência a esse arrependimento, nem muito menos à suposta descoberta do cadáver na adega em 1904 (talvez o debatedor Marcos possa nos informar onde isso foi publicado). De qualquer forma, vale a velha máxima do ceticismo, de que alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Existem mil razões possíveis para que alguém se arrependa de ter se exposto como farsante e perder uma boa fonte de renda. As irmãs Fox morreram pobres. É muito mais provável que tenham sido sinceras na confissão do que num eventual desmentido. Mas ainda pode ser até que, apesar de terem mostrado como eram capazes de produzir elas mesmas os estalos, as irmãs Fox não fizessem isso nas sessões, e sim canalizassem mesmo os espíritos para que estes produzissem os ruídos. Mas como diriam os mágicos Penn & Teller (críticos de Uri Geller), se elas faziam isso assim, faziam do jeito mais difícil.
Steven Weinberg, prêmio Nobel de física, escreveu um livro chamado "Os Primeiros Três Minutos", dedicado a explicar a origem do universo à luz dos conhecimentos da ciência. Inicia o primeiro capítulo contando uma lenda nórdica sobre a origem do universo. Segundo a lenda, "no princípio... não havia nada ... Ao norte e ao sul do nada, situavam-se as regiões do gelo e do fogo, Niflheim e Muspelheim. O calor de Muspelheim derretia parte do gelo de Niflheim, e das gotas do líquido surgiu um gigante, chamado Ymer. Mas o que Ymer comia? Parece que havia também uma vaca, Audhumla. E o que ela comia? Bem, existia um pouco de sal. E assim por diante."3 Weinberg usou essa lenda como um exemplo de explicação insatisfatória, que levanta mais problemas do que resolve, e em que cada resposta exige uma nova complicação das condições iniciais. A hipótese dos espíritos, no desenrolar do debate, vem revelando ser exatamente uma dessas explicações. Quanto mais se questiona, mais problemas aparecem e mais inaceitável se torna a teoria.
Observo que não estou insistindo em que o espírito sofra conseqüências do que sofre o corpo. Na verdade, se os argumentos forem lidos com cuidado, ficará claro que apresentei as duas possibilidades, a de que sofra e a de que não sofra, e mostrei que ambas são igualmente problemáticas. Não é preciso que saibamos detalhadamente como todo o processo funciona ou que conheçamos todo o mapeamento genético para percebermos que a hipótese dos espíritos, atuando como fantasmas dentro da máquina, é absurda.
A analogia com hardware-software na verdade também apresenta problemas para hipótese espiritual. Sem um hardware, o software também não tem como sobreviver. Danificando-se um disco rígido, o software armazenado nele se perde irremediavelmente. Destruído o hardware, perde-se também o software. Essa explicação do cérebro como "instrumento" é bastante problemática. Como disse Corliss Lamont, "Se o corpo humano corresponde a um vidro colorido... então a personalidade viva corresponde a uma luz colorida que é o resultado do vidro... Já que embora a luz em geral continuará a existir sem o vidro colorido... os raios específicos vermelho ou azul ou amarelo que o vidro produz... certamente não persistirão se o vidro [é] destruído"4. Isso pode ser exemplificado com os casos em que uma lesão cerebral faz com que algum aspecto da personalidade se altere. Defensores ferrenhos da "teoria do instrumento" poderiam insistir em que na verdade o espírito continua o mesmo, mas não pode se expressar adequadamente em virtude do dano no cérebro. Eles não podem provar isso, mas como poderíamos refutar? Da mesma forma que nos casos em que se perde a memória, é difícil provarmos que ela se perdeu realmente, já que em alguns casos lembranças perdidas podem ser recuperadas. Por esse motivo, o caso da divisão do cérebro é particularmente interessante. Neste caso, não se pode recorrer à desculpa de que o instrumento está danificado, já que continuamos a ter acesso a ambos os hemisférios após a cirurgia, e assim temos como saber se existe algum eventual "fantasma na máquina", intacto ou não.
O debatedor Marcos parece não ter percebido o absurdo que se apresenta quando ele próprio admite capacidades específicas para cada hemisfério cerebral. Sem entrar no mérito de se a lista das funções que ele relaciona a cada lado do cérebro é atual, cientificamente aceita ou não, podemos com base nela observar imediatamente uma conclusão óbvia. Nas experiências com pessoas com cérebros divididos apresenta-se, por exemplo, uma informação visual a um dos hemisférios, e observa-se que o outro lado não recebe essa informação. Ora, se o espírito se comunica com ambos os lados, não há como explicar por que ele não transmitiria a informação ao outro hemisfério para que este pudesse responder. Se apenas o hemisfério esquerdo é capaz de reconhecer a linguagem, e o direito não, podemos concluir que o espírito também não é capaz de reconhecê-la. Se fosse, ao ser feita uma pergunta verbal ao hemisfério que não tem capacidade verbal, o espírito não teria qualquer dificuldade de compreendê-la, e mesmo de passar a informação ao lado que não a recebeu, para que este pudesse responder às perguntas.
Uma possível solução para escapar desse problema seria afirmar-se que o espírito se conecta apenas a um dos lados, e quando se secciona o corpo caloso o outro hemisfério fica isolado. Isso dificilmente seria admitido pelos espíritas, que acreditam que os espíritos são capazes de se comunicar até com cérebros de outras pessoas, quando estas os incorporam, ou que são capazes de se comunicar até através de rádios, gravadores e telefones. Seria difícil esperar que pudessem se comunicar com um hemisfério cerebral e não com o outro, não é mesmo? Mas mesmo admitindo que isso acontecesse, não resolveria o problema, já que neste caso seria preciso admitir que o espírito não é capaz de executar as funções que o outro lado do cérebro executa. Seja qual for o lado "escolhido", implica em que o espírito não é capaz de executar várias funções.
Mas, claro, também existe outra explicação possível. O espírito, por preguiça ou algum outro capricho qualquer, sempre se recusaria a dar uma mãozinha ao lado do cérebro que não pudesse desempenhar uma determinada função, coincidentemente quando fosse exigido desse lado algo que ele não pudesse fazer. Em resumo, o espírito se comportaria exatamente como se não existisse, como os miasmas que mencionei na abertura do debate. Tudo isso pode parecer ridículo, mas assim como a lenda nórdica do gigante e da vaca deve ter tido seus seguidores, não devemos duvidar que defensores da hipótese dos espíritos acreditem nisso.
Referências