"Estou convencido de que há provas esmagadoras [da existência] das fadas."
Sir Arthur Conan Doyle - romancista1
"Há muitos casos de escritores que criam versões românticas de si mesmos, ... Personagens que podem se entregar a fantasias, enquanto seu criador cuida de manter o controle e a sensatez. Conan Doyle fez o contrário. Criou a sua versão sensata em Sherlock Holmes, um mestre da dedução lógica que não fazia qualquer concessão à metafísica, enquanto ele se entregava às especulações mais alucinadas e acreditava até em fadas."
Luis Fernando Verissimo - humorista2
"Elementar [meu caro Watson]."
Sherlock Holmes - personagem de Arthur Conan Doyle
M. Lamar Keene, após atuar por longo tempo como falso médium, resolveu se regenerar e passou a combater o charlatanismo. Cunhou o termo síndrome do crente para descrever o comportamento de pessoas que continuam a acreditar numa farsa mesmo após esta ter sido claramente desmascarada. O termo vem da comparação da crença em coisas improváveis, para as quais faltam provas, ou mesmo abundam provas em contrário, mas em que a pessoa quer ou precisa acreditar, a uma fé quase religiosa. Embora isso possa parecer absurdo, infelizmente é mais comum do que se possa imaginar. Basta vermos exemplos recentes, como o do reverendo Peter Poppof, que foi desmascarado num caso escandaloso nos EUA quando James Randi mostrou como ele utilizava transmissores de rádio para receber instruções dos bastidores e "diagnosticar" doenças de membros da platéia. Randi, entre outras coisas, conseguiu que ele emitisse um diagnóstico de câncer uterino para um falso paciente vestido de mulher. No entanto, algum tempo depois, Poppof voltou a fazer suas sessões de "cura". Em outro caso, o mesmo Randi pessoalmente criou um personagem chamado Carlos, que instruído para apresentar-se como paranormal, conseguiu facilmente espaço na televisão australiana. Mesmo após se declarar um farsante, muitas pessoas ainda se recusavam a acreditar que Carlos não tivesse mesmo poderes paranormais. Casos semelhantes pudemos ver bem mais de perto, como o médium Rubens de Faria Jr., que dizia incorporar o Dr. Fritz foi denunciado pela ex-esposa, indiciado e teve o estabelecimento fechado pela polícia, mas logo depois já era novamente procurado por doentes. O falso monge Omar Kayam, pouco tempo depois de desmascarado, num caso bastante embaraçoso para a imprensa, já estava novamente sendo procurado por clientes ávidos por conselhos.
A lição que deveríamos tirar dos exemplos citados é que, mesmo entre cientistas renomados e pessoas de grande cultura, é comum encontrarmos casos em que as crenças pessoais interferem fortemente no raciocínio crítico. Exemplos não faltam de cientistas cometendo enganos, obcecados por uma crença pessoal que resistia mesmo diante das provas em contrário e do caráter absurdo da idéia. Se no passado tivemos Sir Oliver Lodge e William Crookes, mais recentemente tivemos Linus Pauling e sua defesa dos superpoderes da vitamina C, ou Peter Duesberg e Kary Mullis defendendo que o vírus HIV não causa a AIDS. Mas será que esse tipo de engano poderia acontecer coletivamente, ou seja, ser confirmado por várias pessoas mesmo sendo falso? Um exemplo clássico de engano cometido por cientistas e confirmado por outros é citado por James Randi em "Um Relatório das Trincheiras da Ciência". Logo após a descoberta dos Raios X, um cientista francês de nome René Prosper Blondlot anunciou ter descoberto os Raios N. "Seis a oito meses depois da anunciada descoberta dos raios N, 30 ensaios de toda a Europa confirmavam a existência dos raios N." Os Raios não existiam, mas alguns cientistas, vítimas da predisposição para a confirmação, os enxergavam. "Como isso aconteceu? Como mais de 30 ensaios foram publicados? Não porque os cientistas que os escreveram eram estúpidos. Não porque estavam mentindo. Mas porque estavam se iludindo."3
Diante disso, basta examinarmos o que os defensores da hipótese da vida após a morte nos oferecem. Experiências realizadas no século 19 ou no início do século 20, usando métodos questionáveis e com controles pobres. E que, principalmente, não tiveram continuidade até os dias atuais. Não sei quem é o Jorge A. B. Soares a quem você perguntou a respeito das pesquisas dos cientistas do passado, mas o que ele diz é correto. Ciência não é uma coisa em que se pode basear em pesquisas que alguém fez em 1920 ou 1930, por coincidência exatamente na época em que o espiritualismo estava na moda, e quando abundavam os farsantes que forjavam fenômenos mediúnicos, e que pelas quais a comunidade científica não mais se interessou. Pesquisas científicas são dinâmicas e precisam evoluir e trazer novos conhecimentos. Se não podem mais ser reproduzidas hoje em dia, ou é porque os pesquisadores do passado se deixaram enganar, ou os supostos fenômenos que ocorriam antigamente são tímidos diante das câmeras e hoje em dia não acontecem mais.
Você pergunta como os pesquisadores psíquicos poderiam ter sido ludibriados. Sobre William Crookes, por exemplo, sugiro ler "The Sorcerer of Kings - The Case of Daniel Dunglas Home and William Crookes", de Victor Stenger. É realmente difícil provar que alguém foi tapeado ou que trapaceou nas experiências, principalmente depois de muitos anos e quando o pesquisador e toda a sua equipe já estão mortos. Em alguns casos, como nas pesquisas de S.G. Soal em 1940 sobre paranormalidade, foi possível desmascarar a farsa em 1979, quando encontraram as tabelas que ele teria usado para gerar números aleatórios, e descobriram que ele deixava intencionalmente espaços em branco para preencher com falsos acertos4. Coisa semelhante foi a descoberta a respeito do Efeito Marte, quando uma análise recente das fontes utilizadas por Michel Gauquelin em 1954 mostrou que ele poderia ter escolhido intencionalmente indivíduos que trouxessem mais acertos. No caso de Crookes, o que se pode fazer é sugerir maneiras pelas quais ele poderia ter sido iludido, ou mesmo interferido propositalmente. Mas por que não dar a ele o benefício da dúvida? Por que se suspeitar mais de fraude de que de um fenômeno legítimo? Entre os céticos existe uma máxima que diz que "alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias". Os fenômenos alegados pelos médiuns são suficientemente absurdos para que se exija deles bem mais do que estudos feitos num passado distante por alguns indivíduos isolados. Um caso extraordinário como esse deveria ter tumultuado a comunidade científica e gerado inúmeras replicações independentes dos experimentos. No entanto, não só não gerou como as pesquisas nesse campo degeneraram e hoje não merecem crédito por parte da comunidade científica séria.
Outra coisa que é importante ressaltar. Como você já deve ter percebido, o nome do mágico James Randi é citado freqüentemente por mim. Isso não é por acaso. Repetidos casos de pesquisadores ludibriados por falsos paranormais confirmam a idéia de que as pessoais mais indicadas para investigar esse tipo de alegação não são os cientistas, e sim os mágicos. Cientistas estão habituados a estudar a natureza, que não se dedica a criar formas de enganar pessoas. Mágicos, por outro lado, se dedicam exatamente à arte de enganar, a criar ilusões que sejam difíceis de se descobrir. Quem nunca ficou impressionado ao descobrir como era feito algum truque de mágica, aparentemente desconcertante, mas surpreendentemente simples quando revelado? É por isso que, como você próprio exemplificou, é comum que farsantes iludam cientistas. Também não sei qual foi o centro de pesquisas que testou Roberto Lengruber, mas poderia muito bem ser a conceituada universidade de Stanford, de onde saiu um estudo publicado na Nature em 1974 creditando poderes paranormais a Uri Geller(!).5
É por esse motivo que Geller costuma se apresentar sem problemas para platéias de cientistas, mas se recusa a se apresentar a platéias de mágicos. Falando em mágicos, talvez o "Robert Houdini" de que você fala seja Robert Houdin (sem o 'i' no final), um mágico francês cujo nome foi exatamente usado como inspiração para o Houdini famoso, com 'i'. Este último, rei das fugas impossíveis e desmascarador de médiuns, é mesmo Harry Houdini. Ele dificilmente poderia ser espírita como você afirma, já que se dedicava exatamente a desmascarar supostos paranormais e combater o "Espiritualismo". Ofereceu 10.000 dólares para qualquer um que provasse ser um médium legítimo 6 7, e divulgava cartazes onde se lia "Será que os espíritos voltam? Houdini diz que não, e prova".8
Neste ponto, fico curioso para saber quais as suas fontes, já que todas essas informações são bastante conhecidas. Até que posso entender sua falta de maior curiosidade de investigar a respeito de Houdini, mas o fato de você ter citado as irmãs Fox me espanta. Achei que seria conhecimento básico saber que elas próprias, em 1888, confessaram a fraude e explicaram como produziam os "estalos" com as juntas dos dedos dos pés, 9 mas a essa altura muita gente tinha acreditado nelas e declarado-as como autênticas. O escritor Conan Doyle, que você mencionou como referência, passou por uma situação semelhante no caso das fadas de Cottingley 4 10, em que foi enganado por duas adolescentes inglesas que fizeram falsas fotos de fadas(!). Foi por isso que eu o citei logo no início do texto. Recomendo a leitura de "Borboletas", de Luís Fernando Verissimo. Descreve bem a personalidade de Doyle.
Assim como você, também tenho imensa curiosidade para entender os mecanismos cerebrais que levam pessoas a ter sentimentos e tomar decisões. Sua curiosidade a respeito da escolha da carreira, por exemplo, me lembra os estudos feitos com gêmeos idênticos criados separadamente. Steven Pinker menciona que numerosos estudos descobriram semelhanças assombrosas. São semelhantes "não só em medidas grosseiras como QI em traços de personalidade como neuroticismo e introversão. Eles são semelhantes em talentos como soletração e matemática, nas opiniões sobre questões sobre apartheid, pena de morte e mães que trabalham fora, na escolha da carreira, nos hobbies, vícios, devoções religiosas e gosto para namoradas... entrar na água de costas e só até os joelhos, abster-se de votar nas eleições ... contar obsessivamente tudo o que está à vista, tornar-se capitão da brigada voluntária de incêndio e deixar pela casa bilhetinhos carinhosos para a esposa... dar descarga antes e depois de usar o vaso sanitário ou a espirrar por brincadeira em elevadores apinhados"11 As semelhanças entre gêmeos idênticos são ainda mais um forte indício da dependência mente-cérebro, e colocam mais uma dificuldade para os que defendem a hipótese de que a personalidade é definida por alguma entidade imaterial. Os estudos com os gêmeos sugerem que uma boa parte da personalidade (Pinker fala em 50%) é definida pelos genes. O restante deve ser definido pelas experiências vividas, mas suponhamos que esse restante fosse inteiramente definido pelo espírito. Com a morte do cérebro, o espírito que sobreviveu teria apenas os 50% restantes da pessoa?
Quanto à sua pergunta a respeito das lesões cerebrais, também não sou neurologista, mas lembro que elas muitas vezes causam sim o mesmo efeito em pessoas diferentes. Afinal de contas, antes dos adventos recentes da tomografia computadorizada e da ressonância magnética, não havia muito mais recursos para se determinar que área correspondia a que função além da análise de casos de lesões semelhantes. Como costuma brincar Steven Pinker, as pesquisas progridem devagar porque existe uma escassez de pessoas dispostas a oferecer seus cérebros para experimentos. Antes de existirem instrumentos para se monitorar a atividade do cérebro, não seria lá muito ético abrir a cabeça de um sujeito vivo para fazer pesquisas do tipo "vamos mexer aqui para ver o que acontece". Por isso, fico curioso a respeito do caso que você relata, de 1938 (será que não acontecem mais? que pena!), afinal só notaram a falta do cérebro no momento da autópsia. Como saber se ele não estava lá enquanto o sujeito ainda estava vivo? E como saber se afinal a coisa não foi bem assim? Como dizia o filósofo David Hume, o que é mais provável? Um milagre acontecer ou um homem estar mentindo? Pena que hoje em dia isso não aconteça mais, não é mesmo? Talvez esses fenômenos também sejam tímidos diante de tomógrafos.
E com relação aos danos causados no cérebro resultarem em danos à alma ou ao espírito, acho que você não percebeu a profundidade da questão. Numa coisa você está certo: também não me consta que isso já tenha sido verificado, já que afinal de contas nem mesmo a existência de almas ou espíritos jamais foi verificada. O que eu quis dizer é que aquilo que as pessoas comumente associam ao espírito é a própria personalidade, ou aquilo que chamam de "eu". Dependendo do tipo de dano ao cérebro, lembranças podem se perder, pessoas calmas podem se tornar agressivas ou vice-versa, gostos e vontades podem mudar. Há vários exemplos disso na literatura. Veja por exemplo o que acontece com pessoas acometidas do mal de Alzheimer. "A Sra. D. era uma mulher próspera de Virgínia, viúva de um banqueiro. Antes da doença de Alzheimer, era uma pessoa cortês e bem comportada... Dividia o quarto com uma mulher mais velha que era paralítica. Pelo primeiro ano ou perto disso, a Sra. D. não se tornou violenta. Então, começou a bater nas enfermeiras. Quando passou a não mais reconhecer a filha, bateu na mulher paralítica em duas ocasiões."12 Se o espírito não sofreu as conseqüências da doença, então quem, ou o que, se tornou violento?
Se a alma existe e sofre conseqüências do que sofre o cérebro, nada mais natural deduzir-se que sofra um dano tanto maior quanto for o dano infligido ao cérebro, desde a morte de poucas células até a morte do cérebro inteiro. Isso já era notado por David Hume em 1755: "Quando quaisquer dois objetos são tão intimamente conectados que toda alteração que observamos em um deles é correspondida por alterações proporcionais no outro, devemos concluir, pelas regras da analogia, que quando alterações ainda maiores são produzidas no primeiro e este é totalmente dissolvido, segue-se uma total dissolução do último"13. E se não sofrer essas conseqüências, a situação contraditória também não melhora em nada, já que aí fica difícil explicar as mudanças de personalidade exemplificadas acima. Se sofre, deveria também morrer. Se não sofre, não deveria mudar em virtude de lesões no cérebro. Um exemplo ainda mais radical é o do que acontece com a personalidade de uma pessoa quando se secciona o Corpus Callosum, que une os dois hemisférios cerebrais. Nesse tipo de cirurgia, chamado de split brain, a pessoa passa a apresentar duas consciências, cada qual com vontades próprias. É possível perguntar a uma pessoa que sofreu a operação "o que você gostaria de ser?". Com uma das mãos, o paciente responde "piloto de corridas". Com a outra mão, "desenhista"14. Será que a alma pode ser dividida em duas?
Para finalizar, é sempre bom ler textos de pessoas dos dois lados de uma discussão para se ter maiores elementos para decidir. Pena que, quando você leu as 48 obras anti-espíritas, tenha lido apenas as escritas por cristãos, que por serem religiosos ficam limitados a tentar refutar o espiritismo com argumentos bíblicos, outros testemunhos e afirmações igualmente sem valor científico. É como tentar combater charlatães usando os argumentos do Padre Quevedo! Se tivesse lido obras escritas por céticos seculares certamente teria tido esclarecimentos de muito melhor qualidade.
Referências