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de Ronaldo Cordeiro
cientificamente esclarecida que não temos nenhuma necessidade de um fantasma dentro da máquina." Steven Pinker - neurocientista1
"Todos odeiam a morte, temem a morte. Mas só aqueles, os crentes que sabem que há Existe vida após a morte? Os antigos egípcios acreditavam ter a resposta para essa pergunta. Em seu peculiar conjunto de crenças, acreditavam que o ser humano possuía um espírito dividido entre duas partes, Ba e Ka. Era preciso preservar o corpo do morto para que o Ka, ou energia vital, sobrevivesse. Veio daí a tradição de embalsamarem os mortos, criando o que conhecemos como múmias. O processo era bastante elaborado, resultado de séculos de aperfeiçoamento, e envolvia o uso de várias substâncias e a retirada de órgãos internos: cérebro, fígado, pulmões, intestinos e estômago. O coração, considerado a sede de todos os sentimentos, raciocínio, emoções, por ser o órgão mais importante, era mantido dentro do corpo. Fígado, pulmões, intestinos e estômago eram tratados com substâncias químicas e guardados cada qual no seu vaso específico chamado de Canopo. Conforme se acreditava, esses órgãos tinham que ser preservados, mesmo fora do corpo, para que o Ka pudesse sobreviver. E o cérebro... ora o cérebro! Acreditavam que este não servia mesmo para nada. Era destruído e removido engenhosamente através das narinas com o auxílio de ganchos.3 A tradição dos embalsamamentos egípcios nos lembra de que nem sempre foi banal o conhecimento de que é o cérebro, e não o coração, o órgão responsável pelo raciocínio, pelos sentimentos, pela memória, pela consciência. Nos dias de hoje, quando são comuns os transplantes de coração e quando pessoas sobrevivem com corações arficiais, só o que resta da associação desse órgão com os sentimentos ou com a bravura são as alegorias literárias dos poetas e as marcas que ficaram na linguagem, na raiz de palavras como coragem (do latim cor: coração) e em expressões como saber de cor. Hoje sabemos que o cérebro é a sede do nosso raciocínio, da consciência, do eu ou self, ou denominações semelhantes. Quando este órgão sofre uma lesão, memórias ou capacidades podem ser afetadas, e a personalidade da pessoa pode mudar. O mesmo pode ocorrer como resultado de doenças ou sob o efeito de drogas, muitas vezes irreversivelmente. Steven Pinker, no célebre debate com Richard Dawkins com o título de Is Science Killing the Soul? (Estará a Ciência Matando a Alma?)1 apresenta vários exemplos dessa associação cérebro-mente. A compreensão de que o eu é inseparavelmente dependente do cérebro parece bastante óbvia, assim como a dedução de que, se a personalidade sofre quando partes do cérebro são lesadas, não há por que se pensar que a única forma de lesão que não causaria danos à personalidade seria a morte do cérebro inteiro! Por que então ainda hoje existiria a crença na imortalidade da alma, na continuidade das lembranças, dos sentimentos e da consciência após a morte do órgão que é responsável por tudo isso? As possíveis respostas são complexas. Em primeiro lugar, a noção da imortalidade da alma é a base de muitas das religiões mais populares do mundo. A idéia da morte após uma vida breve num mundo repleto de injustiças, violência, miséria e desgraças desigualmente distribuídas, parece ser bastante angustiante para a maioria das pessoas. Sem a doutrina da vida após a morte, em que haveria a vida eterna e em que os bons seriam recompensados e os maus punidos, dificilmente as religiões conseguiriam ser tão influentes sobre seus adeptos como o são hoje e sempre foram. É inevitável mencionar os recentes atentados suicidas de 11 de setembro nos EUA, cometidos por homens convencidos de que seriam recompensados com o paraíso. Antes que alguém pense que isso só acontece com terroristas fanáticos, que tal o caso do suicídio coletivo do Templo do Povo, em 1978, quando morreram 912 seguidores de Jim Jones? E os 39 da seita Heaven's Gate? Ou os mais de 700 mortos do Movimento da Restauração dos Dez Mandamentos em Uganda? Como disse Richard Dawkins em Os Mísseis Desgovernados da Religião, "Não há dúvida de que o cérebro suicida e obcecado pela vida após a morte é uma arma poderosa e perigosíssima".4 É pouco provável que as religiões venham a abrir mão de uma arma formidável como essa em nome de simples, meras constatações científicas. Religiões são dogmáticas por natureza, presas a tradições e a escrituras sagradas, muitas vezes feitas há milênios por povos primitivos, com o nível rudimentar de conhecimento que possuíam na época. Só em último caso, quando não há mais nada a fazer, aceitam mudar suas crenças em função de alguma nova descoberta. Foi assim quando se descobriu que a Terra era redonda. Foi assim quando Copérnico demonstrou que ela não era o centro do universo. Foi assim quando Darwin descobriu que o homem era parente, e bem próximo, dos macacos. Na maioria das vezes, após um longo período de recusa, em lugar de finalmente consagrarem às escrituras sua devida classificação de mitologia, acabam apenas criando para elas uma nova interpretação que as torne compatíveis com o novo conhecimento. Esse tipo de atitude, nos tempos atuais, às vezes costuma receber o apelido generoso de "reconciliação entre ciência e fé". Em alguns casos, no entanto, religiões chegam mesmo ao ponto de ignorar as descobertas. Carl Sagan, por exemplo, relata o caso do Sheik Abdel-Aziz Ibn Baaz, emitindo um decreto religioso em 1993, declarando que a Terra é plana, baseando-se na autoridade da Bíblia e do Corão.5 Grupos criacionistas nos EUA ainda hoje atuam politicamente para criar leis como a do Kansas, que chegou a retirar a obrigatoriedade do ensino da evolução dos currículos escolares em 1999. Se alguém irá levantar a questão da incompatibilidade de uma alma imortal com o conhecimento científico, certamente não serão as religiões que o farão. Em segundo lugar, existe a questão da dificuldade de se provar uma negativa. A ciência pode ter avançado muito no estudo do cérebro, a ponto de determinar que áreas específicas executam determinadas funções, descobrir drogas que provoquem alterações mentais ou genes ligados à personalidade ou a capacidades especiais. Se ainda não conhecemos detalhadamente como e por que o processo inteiro do que chamamos de consciência ocorre, estamos a caminho. No entanto, alguém poderia sempre questionar que, mesmo que conheçamos completamente como a mente funciona, isso não eliminará a possibilidade de que um espírito ou alma também exista. Pode existir. Assim como poderia existir qualquer outra entidade metafísica como o chi ou o prana, os chakras e meridianos, ou qualquer outra coisa que a fértil criatividade humana seja capaz de imaginar. A ciência não pode provar que essas coisas não existem. O que ela faz é descobrir soluções mais simples para problemas que anteriormente eram explicados por entidades misteriosas, como aconteceu no passado com o calórico, o flogisto ou o éter. Na construção do canal do Panamá, acreditava-se que a malária e a febre amarela eram causadas pelos miasmas, e mais de 30.000 trabalhadores morreram por não se saber combater corretamente esses males.6 A hipótese da transmissão pelos mosquitos só foi aceita depois, quando então se fez o combate aos insetos e obteve-se êxito na erradicação das doenças. Seria possível que os miasmas, mesmo assim, existissem? A descoberta da transmissão pelos mosquitos provou a inexistência dos miasmas? A resposta é não. Apenas deduziu-se que não havia por que se acreditar mais neles, já que a explicação do contágio pelas picadas de mosquitos funcionava tão bem, era testável e capaz de boas predições (mais mosquitos - mais malária; sem mosquitos - sem malária). Se os miasmas existem, então devem se comportar exatamente como se não existissem, causando a doença exatamente nas pessoas picadas pelos insetos. Com relação a espíritos, o raciocínio é o mesmo. Se o cérebro é capaz de realizar todas as tarefas valendo-se apenas de reações químicas e impulsos elétricos, sem o auxílio de nenhuma energia ou princípio vital, por que pensar-se que existiria um espírito fazendo as mesmas coisas em paralelo? Algumas correntes acreditam que o espírito sofreria conseqüências do que acontece com o corpo, e isso explicaria por que a personalidade, as memórias ou o humor se alteram como efeito de drogas ou de lesões no cérebro. Mas por que imaginar que a morte do cérebro não causaria também a morte desse espírito, tão redundante e tão sensível? Não seria muito mais óbvio deduzir-se que o espírito morreria com o cérebro? Por outro lado, se esse espírito é capaz de sobreviver sem o cérebro, por que então precisaríamos de um cérebro tão complexo? Não seria tão mais prático se tivéssemos cérebros bem menores, apenas para controlar as funções vitais e os movimentos? Certamente consumiria muito menos energia, seríamos mais leves, as grávidas teriam bebês menores e sofreriam menos nos partos, não teríamos problemas com os dentes sisos, que perderam espaço na mandíbula com a evolução à medida em que o homem se tornava mais inteligente e o cérebro proporcionalmente crescia. Com o crescente conhecimento do funcionamento do cérebro, que o coloca como explicação necessária e suficiente para a consciência, torna-se cada vez mais redundante e contraditório o caráter da alma ou espírito como explicações alternativas (e/ou complementares). Se a ciência não pode, nem jamais poderá, provar a inexistência dessas entidades, pode descartá-las pela navalha de Occam. Esta regra, atribuída a William de Occam, sugere que, entre duas explicações possíveis para um mesmo fenômeno, escolha-se a mais simples e descartem-se elementos desnecessários e supérfluos. Voltando ao exemplo da malária, se os mosquitos explicam satisfatoriamente a transmissão, por que precisamos dos miasmas? Resta então aos proponentes da hipótese do espírito o ônus da prova. Se eles acreditam existir um espírito imaterial, cabe a eles demonstrar essa existência. Infelizmente, tudo o que apresentam como "prova" são experiências pessoais, testemunhos e as pesquisas de parapsicólogos em coisas como Experiências de Quase-Morte, Experiências Extracorpóreas, Transcomunicação Instrumental, etc. Quanto aos relatos pessoais e testemunhos de fenômenos há pouco o que se dizer além de que não servem como prova para a ciência. Os mesmos tipos de relatos, com o mesmo grau de convicção, são apresentados por adeptos de todo tipo de seita religiosa, arte adivinhatória, charlatanismo e pseudociência. E quanto à parapsicologia, envolta em fraudes e falhas metodológicas desde o início, ainda não conseguiu apresentar nenhum resultado conclusivo, apesar de décadas e décadas de pesquisas e do número de pessoas interessadas. Um resumo do que é a parapsicologia pode ser deduzido a partir das palavras de Susan Blackmore, que se envolveu com esse tipo de pesquisa durante 15 anos: "após cem anos [de existência] a única coisa que chama a atenção na parapsicologia é o quão pouco progresso tivemos. Com respeito ao Psi temos apenas uma descoberta reprodutível - sua irreprodutibilidade". Entre as descobertas concretas e inequívocas da neurociência e as afirmações duvidosas da parapsicologia, não é difícil decidir em quais delas confiar. Referências
2 - Guia prático dos terroristas promete o "paraíso infinito" Voltar
4 - Richard Dawkins - "Os Mísseis Desgovernados da Religião" Voltar
5 - Carl Sagan - "O Mundo Assombrado Pelos Demônios" Voltar
7 - Susan Blackmore - "Unrepeatability: Parapsychology's only finding" Voltar
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