Debate Publicado: 03/11/2001
Atualizado: 03/11/2001
VIDA APÓS MORTE: INTRODUÇÃO

de Marcos Arduin


A fim de facilitar o retorno ao que já foi dito, os parágrafos estão numerados.

  1. O tema de qual seja o nosso destino após a morte do corpo físico é algo que de muito tem preocupado o homem. É muito debatido nos templos religiosos de todo o mundo, mas considerando que o trabalho feito aqui neste site trata do lado científico da questão, então na medida do possível, vou me restringir a ele.

  2. Dessa forma, é inevitável tratar do Espiritismo, uma vez que as igrejas cristãs estão proibidas pela Bíblia de se envolver experimentalmente na investigação da questão de haver sobrevivência após a morte. Também pretendo ater-me apenas à realidade brasileira, pelo menos a da situação atual. O Espiritismo é uma doutrina que tem um aspecto científico, outro filosófico e outro ainda religioso. No Brasil, predomina o aspecto religioso e, ligeiramente, o filosófico. O lado científico é pouco conhecido dos espíritas brasileiros, talvez devido ao fato de que, estando bem satisfeitos com a filosofia e religião espíritas, não se sinta necessidade de sua comprovação científica. Já na França, nos anos 1920 e 1930, buscou-se praticamente o lado científico apenas, deixando-se de lado os aspectos religioso e filosófico. O resultado é que, como o lado científico já estava com o tema esgotado, o Espiritismo na França decaiu e, em comparação, no Brasil havia 7.000.000 de espíritas; na França, 1000 até algum tempo atrás.

  3. O ponto de partida para uma investigação científica dentro do Espiritismo é a MEDIUNIDADE. Entende-se por esse termo a capacidade que certas pessoas possuem de perceber ou serem veículos para certos eventos, os quais são atribuídos à manifestação de seres não-corpóreos. Há eventos semelhantes, mas não de causa não-corpórea: a própria pessoa é o agente dele, mas à primeira vista é difícil distinguir um caso do outro.

  4. Embora a mediunidade seja algo que existia já nos homens das cavernas, ela só chamou a atenção da sociedade industrial no século XIX. O ponto de partida foi com as irmãs Fox. A família Fox, pai, mãe e as duas filhas mais novas, Margarida e Catarina (os outros filhos não moravam com os pais), era de origem canadense e emigrou para os Estados Unidos, passando a residir em Hydesville, um vilarejo do condado de Rochester. A casa que alugaram, já era tida como mal assombrada antes de eles irem morar lá. Barulhos estranhos foram relatados pelos antigos moradores, mas ninguém conseguia descobrir a origem deles e com a família Fox não foi diferente. A certa altura, Catarina Fox desafiou a entidade (que supunha ser um diabo) a reproduzir os sons que ela fazia _estalar dedos _ e foi correspondida. Esta entidade, através do código letras x número de pancadas, disse ser o espírito de um homem que fora assassinado naquela casa. Os barulhos, que em 31 de março de 1848 atingiram notória intensidade, chamaram a atenção da vizinhança e continuaram sendo produzidos, mesmo depois que a mãe e as meninas saíram e foram dormir na casa de Léia Fox, a filha mais velha, casada.

  5. O espírito disse chamar-se Charles Rosma (Charles Rayn, segundo outros), um mascate, que foi assassinado pelo Sr Bell, para roubar-lhe 500 dólares e seu corpo enterrado na adega. Foi feita uma escavação, mas do lugar verteu muita água. Encontraram-se fios de cabelo e apenas um osso humano. Nada conclusivo, portanto. Em 1904, 56 anos depois desse episódio, quando as irmãs Fox já haviam falecido e o caso caíra no esquecimento, ruiu uma parede da adega e entre o chão e a parede foi encontrado um esqueleto humano quase completo e a caixa de mascate. De qualquer forma, esse episódio causou uma celeuma e foi o ponto de partida para o surgimento do Modern Spiritualism ou New Spiritualism. Outras pessoas também manifestaram a mesma capacidade das Fox e assim o fenômeno foi se propagando em diversos países. Na França, o pedagogo Hypolite L. D. Rivail também passou a estudá-lo junto com alguns companheiros e, sob o pseudônimo de Allan Kardec, publicou livros e editou a Revista Espírita. À doutrina que codificou (ele não se considerava autor dela, mas que era proveniente dos espíritos) ele chamou Espiritismo, pois considerava inadequado o termo Espiritualismo, usado na escola anglo-saxônica.

  6. Os fenômenos mediúnicos são variados, indo desde a produção de sons diversos, inclusive fenômeno de voz direta; produção de fenômenos luminosos; deslocamento de objetos; fantasmogeneses, ou seja, formação de figuras em graus diversos de densidade; moldes de partes do corpo humano ou outros objetos em parafina, que depois podem ser preenchidos com gesso; levitações, etc. Estes são chamados fenômenos objetivos. Há também os fenômenos subjetivos, quando sob ação de espíritos, um médium fala, escreve (em seu idioma ou em outro que lhe é desconhecido), desenha ou pode ver ou ouvir coisas que não são percebidas em condições normais. Várias pessoas que testemunharam, principalmente os fenômenos objetivos, ficaram bem impressionadas e aderiram ao "Spiritualism". Em 1853 Robert Hare, professor de Química da Universidade da Pensilvânia, anunciou que sentiu-se "chamado por um ato de dever para com a humanidade, a trazer toda a influência que possuía no sentido de estacar a maré de loucura popular que, desafiando a razão e a ciência, estava se alastrando rapidamente em favor da grande ilusão chamada Espiritualismo". Uma carta denunciadora sua, publicada nos jornais da Filadélfia, foi transcrita em vários outros jornais e foi tema de muitos sermões. Hare começou então a investigar, fazendo experimentos bem controlados. Citando um deles: foi adaptado um disco num eixo, que atravessava o tampo de uma mesa, o médium podia girar o disco, mas neste nada havia indicado. Outro disco com letras fora de ordem alfabética ficava na outra extremidade do eixo. Ao suposto espírito incorporado no médium era pedido que colocasse as letras em ordem. E foi feito. Da mesma forma saíram frases inteligíveis, que o médium não tinha como saber, pois não via o disco com as letras. Honestamente Hare rendeu-se à evidência: o Espiritualismo não era a fraude que ele pensava ser. Hare compilou suas experiência num livro "Experimental Investigations of the Spirit Manifestations". Pra quê! Os professores da Universidade de Harvard tomaram a resolução de o denunciar e a sua "insana adesão à gigantesca manifestação". Hare só não foi expulso da Universidade da Pensilvânia pois já renunciara ao cargo, mas sofreu muito em sua reputação. (retirado do livro História do Espiritismo, de Arthur Conan-Doyle, Editora Pensamento, 1995).

  7. Até os anos 1930, diversos outros pesquisadores investigaram os fenômenos mediúnicos. Podem ser citados Cesare Lombroso, William James, William Crookes, Cronwell Varley, Charles Richet, Gabriel Delanne entre outros. Também houve outras pessoas, que não eram necessariamente pesquisadoras, mas que atuaram como testemunhas e deixaram registrados os eventos que observaram. Entre estas podem ser citados Alexander Aksacof e Florence Marryat. Os pesquisadores fizeram vários estudos e demoraram anos para se pronunciarem sobre a validade dos fenômenos. Nem todos adotaram a hipótese espírita, a de causa espiritual para a origem dos fenômenos, mas todos autenticaram que há fenômenos, bem como médiuns autênticos. Também prestaram ótimos serviços quando desmascararam diversos fraudadores e farsantes. Pode-se dizer que os trabalhos desses pesquisadores são o que há de mais sólido na base científica do Espiritismo. Pode-se dizer que, principalmente a pesquisa feita por William Crookes com Florence Cook é um dos melhores a respeito. Não vi até hoje argumentos convincentes que mostrem onde e como eles erraram em suas pesquisas sobre a mediunidade. Ao aceitar o convite para esse debate, o meu maior interesse é tomar conhecimento de que tais demonstrações existem e quais são elas. Feito isso, muito do que se considera ser a base científica do Espiritismo, senão toda ela, será eliminada.

  8. Com relação à questão de sobrevivência após a morte em si, as provas vêm a partir do estudo de fenômenos mediúnicos. Muitas pessoas que têm contato com médiuns obtêm provas suficientes para si de que realmente falaram com um parente ou amigo falecidos. Esses testemunhos são freqüentemente de natureza pessoal, particular, de forma que não podem ser verificados independentemente. Embora seja um lugar comum dizer que as pessoas nessas situações estavam fragilizadas pela perda da pessoa querida e, portanto, dispostas a aceitar qualquer coisa, nem sempre é o caso. A título de exemplo, segue o depoimento abaixo:

    1. "O comandante Darget faz o seguinte relato, que saiu publicado na Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, 1907, pág. 121: Apresso-me a narrar um caso de identidade espírita que se produziu em minha família e contra o qual se poderão formular dificilmente objeções sérias.

    2. A 16 de maio último, minha mulher e minha filha foram a uma médium muito conhecida, a Sra Bonnard, e lhe pediram uma sessão. Desde que a médium caiu em transe, disse ter visto a mãe de minha mulher, morta um ano antes. Revelou esta, depois, pormenores característicos, rigorosamente exatos, concernentes à minha família, de maneira, enfim, a identificar a personalidade comunicante. Pediu então a minha filha: _ Prova-me que és verdadeiramente a avozinha, revelando algum incidente ou segredo que só me diga respeito e que venha dissipar todas as dúvidas.

    3. Devo declarar que, no ano passado, minha filha tinha estado nos banhos de Biarritz com sua avó e ela esperava ouvir a revelação de fatos advindos durante esse período.

    4. Disse então a médium: _ Sua avó faz-me ver um ramalhete de flores todas brancas, e confessa que teve grande contentamento quando as depositaram em seu túmulo.

    5. A essas palavras, minha mulher e minha filha ficaram inteiramente desconcertadas e desiludidas, porque nada haviam depositado sobre o túmulo da velha. Nessa perplexidade, minha filha lembrou-se de escrever a uma prima de Bordéus, a qual, tendo feito recente viagem com a família, havia visitado o cemitério de Poitiers onde a avó comum havia sido enterrada. Minha filha perguntava, na carta, se ela havia deposto flores na sepultura da avó e de que cor eram elas.

    6. A prima respondeu que, passando em Poitiers, havia colocado na lápide da velha avozinha um ramalhete de flores todas brancas.

    7. Ora _ pergunta o comandante Darget _, onde a médium poderia ter colhido esse pormenor? Nem a transmissão do pensamento, nem a hipótese da subconsciência, nem outras fantasias semelhantes podem explicar o fato. A explicação mais racional, diz ainda o comandante, consiste em supor que o espírito da avó, a título de prova de identidade, fez lembrar à médium um incidente que ela sabia ignorado por minha mulher e minha filha. (Retirado do livro À Margem do Espiritismo, de Carlos Imbassahy, FEB, 3ª Edição, 1951).

  9. Como se vê, este foi um caso ocorrido um ano após a morte da pessoa, quando os parentes já tiveram condições de ser refazer da perda e serem capazes de exigir provas de identificação. Mas uma experimentação científica não poderia se limitar apenas a isso. Cabe ressaltar que nem sempre as coisas podem ser replicadas à vontade. Os fenômenos mediúnicos, principalmente os mais evidentes, são como cometas: podem ser estudados cientificamente, mas tem que se esperar o momento em que um aparece. E quando isso acontece, é preciso que no fenômeno ocorra algo que vá além da capacidade do médium ou de seus assistentes. É como no exemplo acima, onde nem a médium, nem as consulentes sabiam do episódio das flores. Um exemplo foi a pesquisa feita com Leonore Piper. Essa médium foi estudada durante 15 anos e os pesquisadores _ Willian James, Sir Oliver Lodge, Richard Hodgson e Frederico Myers _ fizeram mais de 500 sessões, registrando as atas em cinco grossos volumes. Leonore foi inclusive seguida por detetives para se verificar se não obtinha suas informações "normalmente". O caso abaixo foi verificado sob investigação dos pesquisadores.

    1. James Hervy Hyslop, professor da Universidade de Colúmbia, declarou em uma obra de 650 páginas a respeito das manifestações espirituais através de Piper: "Foi meu pai, foram meus irmãos, foram meus tios com quem conversei."

    2. Quando o espírito Robert Hyslop, pai de James, se manifestava, tinha toda a gesticulação e trejeitos típicos de quando ainda era vivo. James então pediu a Richard Hodgson que procure, numa sessão, saber o que o espírito do pai pensava do Sr. Cooper. Esse Sr. Samuel Cooper era vizinho de Robert Hyslop e aconteceu de um dia os perdigueiros daquele pularem a cerca e matarem alguns carneiros de R. Hyslop, surgindo daí uma desavença entre ambos. Hodgson o fez e Robert Hyslop, espírito, discorreu sobre a longa amizade entre eles, que Cooper era um grande filósofo a quem muito admirava e respeitava, que ambos tiveram discussões amigáveis e trocaram cartas... Nunca existira nada disso.

    3. Noutra sessão, James está presente e questiona a tal amizade, mas o espírito do pai insiste: _ Pensa que eu já não era amigo dele? Tinha até as cartas... Desapontado, o filho nada percebia do Cooper da matilha e então resolve entrar direto no assunto: _ Queria que me falasse dos cães que mataram seus carneiros. _ O espírito então caiu em si, como aconteceria com qualquer um de nós: _ Ah, sim, eu tinha esquecido... Não pensei absolutamente nele, que não era parente, nem amigo, o Samuel... _ James Hyslop pensara nesse Cooper, mas quando perguntado a respeito, _ que pensava do Sr Cooper _ o espírito Robert Hylsop declarou então que pensara no Dr. Joseph Cooper, seu amigo e intelectual. James Hyslop desconhecia essa amizade e nunca pensara nele. Informando-se com sua mãe, James obteve confirmação de tudo. (Retirado do livro A Farsa Escura da Mente, de Carlos Imbassahy, EDICEL, 1965).

      Esse episódio ocorreu quando pesquisadores estavam anotando e comparando os dados. Não foi um caso de consulta particular onde apenas havia consulentes interessados. O fenômeno foi além da médium e das pessoas presentes. E como já foi dito, diversos pesquisadores trabalharam anos seguidos antes de se pronunciarem favoravelmente pela realidade do fenômeno mediúnico. Difícil imaginar que tenham sido ludibriados facilmente por tanto tempo. Perguntei a Jorge A. B. Soares: "O que há de errado com fontes como William Crookes, Charles Richet, Lombroso e outros na mesma linha?". Gentilmente ele me respondeu: "Você sabe, são cientistas que foram famosos em sua época, pioneiros na investigação científica do paranormal. Porém há fortes evidências de que alguns foram enganados pelos médiuns que investigaram; e por essa razão, outras inconsistências, falhas metodológicas, etc., as conclusões a que eles chegaram não são aceitas pela comunidade científica atual. Pois bem, eu desejo saber quais são as fortes evidências que apontam para esses enganos, inconsistências e falhas metodológicas e assim, se realmente forem consistentes, passar a pensar como pensa a comunidade científica atual.

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Introdução do debatedor A 03/11/2001
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1a Resposta do debatedor A para a Introdução do debatedor B 07/11/2001
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2a Resposta do debatedor A para a 1a Resposta do debatedor B 17/11/2001
2a Resposta do debatedor B para a 2a Resposta do debatedor A 22/11/2001
Conclusão do debatedor A 29/11/2001
Conclusão do debatedor B 29/11/2001
Comentários do Presidente, dos Editores e dos leitores 02/12/2001