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Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 08/09/2000
Atualizado: 08/09/2000
   
                     
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HOMEOPATIA: INTRODUÇÃO
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de Renato Sabbatini


A homeopatia, ou medicina homeopática, como querem seus seguidores da classe médica, detém um lugar importante no "establishment" médico brasileiro.

Por aqui, ao contrário do que acontece na América do Norte, onde é restrita a "terapeutas" não formados, a homeopatia conta com amplo reconhecimento, tanto do público, quanto oficial. Existem sociedade médicas homeopáticas afiliadas à Associação Médica Brasileira, a qual incorporou oficialmente a homeopatia como especialidade médica, ao par de todas as outras. O Conselho Federal de Medicina também reconhece a especialidade, por motivos provavelmente corporativistas (afinal, é difícil ignorar 6 mil médicos brasileiros, um dos maiores contingentes especializados — para comparar, existem 15.000 cardiologistas), embora tenha recentemente ameaçado de punição os médicos que usam métodos não comprovados científicamente. Existem cursos de especialização, de residência médica e até de pós-graduação em homeopatia, assim como muitas revistas ditas cientificas sobre a área. A maioria das farmácias vende produtos homeopáticos e existem milhares de farmácias exclusivamente homeopáticas ou com uma forte dedicação à venda desses produtos, como as farmácias de manipulação e as farmácias "naturais".

Portanto, trata-se aqui de um movimento seguido por muita gente. Aliás, é cada vez maior o número de médicos que, desencantados com a agressividade da medicina alopática, estão praticando homeopatia. O mesmo acontece com os pacientes: estima-se que cerca de 60% dos brasileiros já recorreram à essa prática alternativa.

A homeopatia têm muitas coisas curiosas. Por exemplo, a glorificação do Dr. Samuel Hahnemann e de seus escritos, que foram feitos há mais de 200 anos atrás. A Medicina evoluiu consideravelmente depois de tanto tempo, e um médico alopata seria crucificado pelos pacientes, pagadores de serviços médicos e o Conselho Regional de Medicina, se voltasse a usar sangrias, sanguessugas, cirurgias sem anestesia e cauterizações com ferro em brasa, como era moda médica na época do Dr. Hahnemann (e contra tais práticas bárbaras ele muito justamente se rebelou, propondo alternativas mais gentis).No entanto, os homeopatas não hesitam em adotar seus ensinamentos.

Aliás, como professor de medicina que sou, se ousasse indicar como livro didático para meus alunos um texto de 200 anos atrás, e tentar convencê-los de que trata-se de "doutrina", que deve ser seguida obrigatoriamente pelos meus alunos (termo usado pelos próprios homeopatas) e não de ciência, seria demitido imediatamente pela direção do meu departamento. Os homeopatas passam incólumes por esses pequenos detalhes, muitas vezes convivendo como colegas na mesma faculdade, sujeitos a critérios muito mais rigorosos!

Na época do bom Dr. Hahnemann era praticamente nulo o conhecimento sobre as causas celulares das doenças, que é a base científica principal e irrefutável da medicina moderna. Não se sabia diagnosticar a maior parte das doenças, e não se conheciam os microorganismos patogênicos, nem a causa de doenças comuns como a hipertensão, o diabetes, e tantas outras. Com tanta ignorância, não é de se admirar que 90% da "teoria" por trás da homeopatia se baseia em princípios que desafiam totalmente o que a ciência moderna sabe sobre a ação dos medicamentos, como "a cura pelo semelhante", "o princípio das diluições", etc. Mas que continuam a ser estudados e "justificados" pelos homeopatas, por meio de teorias ainda mais estranhas e não substanciadas, como a de que o principio ativo transfere sua energia para a água.

Convenientemente, os homeopatas se "esquecem" que a base principal da ridícula teoria médica do Dr. Hahnemann era que todas as doenças da humanidade começavam na pele, e eram geradas por um misterioso "princípio energético da coceira"... Porque que só a homeopatia tem o direito de recorrer a alfarrábios totalmente desatualizados e não sofrer nenhuma sanção ética e legal?

Uma pergunta: se a homeopatia realmente funciona, quantos diabéticos ela salvou antes da descoberta da insulina? Quantos sifilíticos ela curou antes da descoberta do salvarsan? Quantas crianças com meningite ela poupou da morte, antes da penicilina? Para mim é evidente que, antes dessas descobertas tecnológicas de enorme impacto, que aumentaram a vida média da população dos países desenvolvidos, apenas neste século, em mais de 20 anos, a homeopatia era totalmente impotente contra essas doenças. Se ela funcionasse mesmo, a humanidade teria sofrido muito menos, há muito tempo... Mas a resposta, que os homeopatas convenientemente tentam ignorar, é que ela nunca pode fazer nada por essas doenças, quase que freqüentemente fatais. Como não pode fazer nada pela AIDS, hoje, ou pelo câncer.

Os homeopatas, inocentemente ou não, usam muitas terapias em paralelo à homeopatia, e depois afirmam que foi esse medicamento que funcionou. Por exemplo, em um dos trabalhos que li recentemente, os autores adicionaram, segundo suas próprias palavras, "alguns sais minerais e toxinas animais" ao mesmo. Não é de se espantar que tenha tido efeito... Existe até uma tendência recente dos homeopatas de violar os preceitos do Dr. Hahnemann, deixando de realizar diluições tão grandes. Ora.... Aí é que vai ficar perigoso tomar homeopatia, pois alguns dos princípios ativos são bastante tóxicos (beladona, por exemplo, que pode matar, se forem ingeridos poucos centenas de miligramas).

Os homeopatas ficam bastante indignados quando ouvem críticas ao fato de que sua abordagem não tem base científica. Argumentam que existem milhares de trabalhos que demonstram que a homeopatia funciona em centenas de doenças diferentes, em seres humanos de todas as idades (inclusive recém-nascidos) e até em animais.

O fato é que muitos desses trabalhos não apresentam de forma convincente evidências científicamente válidas da eficácia de medicamentos. Geralmente eles são feitos assim: o médico relata um grupo de pacientes com doença X, que tratou com o medicamento Y, e que obteve uma porcentagem Z de cura ou melhora. Esses resultados, embora possam indicar um efeito válido, são anticientíficos, porque não se tomou o necessário cuidado de comparar com pacientes que nada tomaram, ou foram submetidos a um outro tratamento. Alguns pacientes podem ter melhorado espontaneamente, por exemplo. Ou o efeito placebo pode ter sido o responsável pela melhora (um efeito muito importante, por sinal, até mesmo na medicina convencional). Ou então, foram realizados outros tratamentos simultaneamente, o que torna impossível determinar qual foi a contribuição real de cada um no sucesso terapêutico.

Para caracterizar esse defeito do raciocínio cientifico existe um ditado latino: "Post hoc, ergo propter hoc". Ou seja: se acontece depois daquilo, então é devido àquilo. Explicando de uma outra maneira: um resfriado tratado com homeopatia dura 7 dias. Se não for tratado, dura uma semana... Esse defeito engana facilmente pesquisadores (até mesmo a medicina convencional está cheia de trabalhos falhos baseados apenas no "post hoc") e seus leitores, principalmente se eles quiserem acreditar firmemente no que tentam comprovar, e não apenas entre os homeopatas!

Em resumo (e porque essa é apenas uma apresentação para o debate que se seguirá), a homeopatia se expõe a acusações sérias ao receitar preparações nas quais afirma existir um "quantum" de substância ativa, mas que pelo nosso conhecimento de química nada contém. Se uma empresa farmacêutica que vende medicamentos alopáticos fizesse isso, ia todo mundo para a cadeia, não é verdade? (e o médico homeopata, que por vezes têm que recorrer a um antibiótico forte ou um carcinostático para debelar coisas mais sérias e potencialmente letais, seria o primeiro a denunciar a companhia farmacêutica se perdesse um paciente por causa duma coisa dessas, tenho a certeza).

A população precisa ser esclarecida com relação a real eficácia de sua abordagem, e sobre as visões contrárias à mesma. Isso é o que eu (e muita gente no meio médico) penso.

Como você vê a homeopatia?

Medicina Enganação Nenhum dos dois / Outro
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Veja como foi o debate:

Etapa
Data
Introdução do debatedor A 08/09/2000
Introdução do debatedor B 08/09/2000
1a Resposta do debatedor A para a Introdução do debatedor B 12/09/2000
1a Resposta do debatedor B para a 1a Resposta do debatedor A 17/09/2000
2a Resposta do debatedor A para a 1a Resposta do debatedor B 22/09/2000
2a Resposta do debatedor B para a 2a Resposta do debatedor A 27/09/2000
Conclusão do debatedor A 05/10/2000
Conclusão do debatedor B 05/10/2000
Comentários do Presidente, dos Editores e dos leitores 09/10/2000


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