Publicado: 04/05/2003
de Farrel Till
O Que Essa Singularidade Prova? Nada. Se alguém quisesse ser antipático argumentaria que todos os livros são únicos já que são diferentes uns dos outros, mas a antipatia não leva a nada, portanto vamos direto ao cerne do que McDowell quer dizer quando fala dessa “singularidade bíblica”. Ele quer dizer que o enredo, a sobrevivência, a circulação, a influência, etc. da Bíblia a tornam radicalmente diferente de todos os outros livros. McDowell faz longos argumentos desse tipo (Com a ajuda de “estudiosos” cuidadosamente selecionados que, naturalmente, só tecem elogios a Bíblia) somente para chegar a uma conclusão desapontadora. "Tudo que foi dito não prova que a Bíblia é a Palavra de Deus," ele declara no final do capitulo, "mas para mim, isso prova que ela é única (diferente de todos os outros livros, ou seja, sem igual)." Portanto toda a “evidência que exige um veredicto” neste ponto especifico leva McDowell a conclusão que nenhuma evidência da singularidade da Bíblia prova que ela é a Palavra de Deus, mas certamente prova que ela é única. Sua conclusão circular nem valeu o esforço. Embora eu certamente não considere Josh McDowell um profundo cultor da Bíblia, esse capítulo demonstra mais sagacidade do que aparenta. Ele certamente conhecia os princípios da persuasão. Sabia que nada que havia dito em todo o capítulo de modo alguma provava sua origem divina, mas ele conhecia a natureza humana e sabia que leitores não críticos com certeza ficariam impressionados com o desfile de “estudiosos” dando testemunho da sua singularidade. Podemos comparar sua estratégia com a de um advogado que faz uma declaração no tribunal ciente que o juiz não permitirá que o júri a leve em consideração, mas sabendo que não importa o quanto o juiz diga aos membros do júri que a afirmativa é inadmissível como prova, mesmo assim ela será levada a sério. Portanto o que McDowell muito provavelmente queria que seus leitores fizessem era ler EEV com uma noção preconcebida que a suposta singularidade da Bíblia já havia estabelecido sua origem divina antes que qualquer outro tipo de evidência tivesse sido apresentada. O exame detalhado de todos os "testemunhos eruditos“ sobre a singularidade da Bíblia que McDowell apresentou nesse capítulo requereria a escrita de um volume inteiro, portanto terei que me limitar a refutações gerais do que ele aparentemente esperava sugerir com os seus grandes exemplos de singularidade. Depois examinaremos algumas características únicas da Bíblia que McDowell convenientemente omitiu do seu desfile de ”Evidências que exigem um veredicto.” A Bíblia: Única Na Sua Continuidade (Ausência de Discrepâncias) Nesta parte do capítulo, McDowell apela para um lugar-comum que foi elevado quase a condição de credo em muitas denominações fundamentalistas. A Bíblia foi escrita num período de 1500 anos (assim começa o apelo) por 40 autores diferentes, morando em lugares distintos, mesmo em continentes diferentes, com línguas diferentes, exercendo ocupações diferentes, etc., etc., etc., entretanto, a despeito de toda essa diversidade, a Bíblia apresenta um tema unificado do começo ao fim. A conclusão, naturalmente, é que essa continuidade maravilhosa não poderia ter sido realizada sem um direcionamento divino. O ponto central da afirmação de McDowell é sem dúvida falso. Sem mesmo atacar a tradição superenfatizada das circunstâncias em que a Bíblia foi escrita, é fácil mostrar que ela não é coerente na sua temática. Em 1C.9, McDowell afirmou que a Bíblia "contem centenas de assuntos controversos" e explicou que "(a) assuntos controversos são aqueles que criariam opiniões diversas quando mencionados ou discutidos." McDowell afirma que opiniões em oposição sobre assuntos controversos não constam na Bíblia", ele diz que, “Os autores bíblicos falaram sobre centenas de assuntos controversos com harmonia e continuidade de Gênesis ao Apocalipse." Eu poderia citar dezenas de exemplos que contrariariam a afirmação de McDowell de que a bíblia tem um tema completamente unificado, mas por falta de espaço tenho que me limitar só a alguns exemplos de desarmonia e descontinuidade na Bíblia. Em primeiro lugar, há o fato óbvio que os profetas dos tempos bíblicos discordavam um do outro. Jeremias(23), particularmente, se queixou dos profetas que não concordavam com ele em assuntos contemporâneos: “9 Quanto aos profetas. O meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem; sou como um homem embriagado, e como um homem vencido do vinho, por causa do Senhor, e por causa das suas santas palavras.10 Pois a terra está cheia de adúlteros; por causa da maldição a terra chora, e os pastos do deserto se secam. A sua carreira é má, e a sua força não é reta.11 Porque tanto o profeta como o sacerdote são profanos; até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor.12 Portanto o seu caminho lhes será como veredas escorregadias na escuridão; serão empurrados e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, o ano mesmo da sua punição, diz o Senhor.13 Nos profetas de Samária bem vi eu insensatez; profetizavam da parte de Baal, e faziam errar o meu povo Israel.14 Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, de sorte que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os moradores dela como Gomorra.15 Portanto assim diz o Senhor dos exércitos acerca dos profetas: Eis que lhes darei a comer losna, e lhes farei beber águas de fel; porque dos profetas de Jerusalém saiu a contaminação sobre toda a terra.16 Assim diz o Senhor dos exércitos: Não deis ouvidos as palavras dos profetas, que vos profetizam a vós, ensinando-vos vaidades; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor.17 Dizem continuamente aos que desprezam a palavra do Senhor: Paz tereis; e a todo o que anda na teimosia do seu coração, dizem: Não virá mal sobre vós.18 Pois quem dentre eles esteve no concílio do Senhor, para que percebesse e ouvisse a sua palavra, ou quem esteve atento e escutou a sua palavra?19 Eis a tempestade do Senhor! A sua indignação, qual tempestade devastadora, já saiu; descarregar-se-á sobre a cabeça dos ímpios.20 Não retrocederá a ira do Senhor, até que ele tenha executado e cumprido os seus desígnios. Nos últimos dias entendereis isso claramente.21 Não mandei esses profetas, contudo eles foram correndo; não lhes falei a eles, todavia eles profetizaram.22 Mas se tivessem assistido ao meu concílio, então teriam feito o meu povo ouvir as minhas palavras, e o teriam desviado do seu mau caminho, e da maldade das suas ações.23 Sou eu apenas Deus de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe?24 Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? diz o Senhor. Porventura não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor.25 Tenho ouvido o que dizem esses profetas que profetizam mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei, sonhei.26 Até quando se achará isso no coração dos profetas que profetizam mentiras, e que profetizam do engano do seu próprio coração?27 Os quais cuidam fazer com que o meu povo se esqueça do meu nome pelos seus sonhos que cada um conta ao seu próximo, assim como seus pais se esqueceram do meu nome por causa de Baal.28 O profeta que tem um sonho conte o sonho; e aquele que tem a minha palavra, fale fielmente a minha palavra. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor.29 Não é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?30 Portanto, eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que furtam as minhas palavras, cada um ao seu próximo.31 Eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que usam de sua própria linguagem, e dizem: Ele disse.32 Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, e os contam, e fazem errar o meu povo com as suas mentiras e com a sua vã jactância; pois eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e eles não trazem proveito algum a este povo, diz o Senhor.33 Quando pois te perguntar este povo, ou um profeta, ou um sacerdote, dizendo: Qual é a profecia do Senhor? Então lhes dirás: Qual a profecia! que eu vos arrojarei, diz o Senhor.34 E, quanto ao profeta, e ao sacerdote, e ao povo, que disser: A profecia do Senhor; eu castigarei aquele homem e a sua casa.35 Assim direis, cada um ao seu próximo, e cada um ao seu irmão: Que respondeu o Senhor? e: Que falou o Senhor?36 Mas nunca mais fareis menção da profecia do Senhor, porque a cada um lhe servirá de profecia a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do Senhor dos exércitos, o nosso Deus.37 Assim dirás ao profeta: Que te respondeu o Senhor? e: Que falou o Senhor?38 Se, porém, disserdes: A profecia do Senhor; assim diz o Senhor: Porque dizeis esta palavra: A profecia do Senhor, quando eu mandei dizer-vos: Não direis: A profecia do Senhor;39 por isso, eis que certamente eu vos levantarei, e vos lançarei fora da minha presença, a vós e a cidade que vos dei a vós e a vossos pais;40 e porei sobre vós perpétuo opróbrio, e eterna vergonha, que não será esquecida" (23:9-40, NRSV with Yahweh substituted for "the LORD").Esta citação foi longa, no entanto necessária para mostrar que mesmo a própria Bíblia reconhece que querelas e discordâncias eram comuns entre profetas nos tempos bíblicos. Se Jeremias está realmente falando a verdade sobre os assuntos contemporâneos, Judá na sua época estava apinhada de profetas mentirosos. Essas queixas foram repetidas no seu livro (27:09-10; 29:08-09), e nos capítulos 28 e 29:21-32, ele até mesmo mencionou indivíduos por nome e os acusou de fazer falsas profecias. Os que defendem que a Bíblia nunca erra, como McDowell, naturalmente argumentarão que os outros eram falsos profetas, e, portanto o que eles profetizaram não pode ser comparado ao que foi dito e escrito pelos “verdadeiros” profetas de Jeová (YHWH). Este, entretanto, seria um ponto de vista ingenuamente simplista que ignora as próprias referências bíblicas a enorme quantidade de profetas em tempos bíblicos. Profecia era um tipo de instituição nacional, havia mesmo escolas para isso onde os alunos eram conhecidos como “filhos dos profetas” (2Reis 02:03; 04:01; 09:01). Os profetas eram tão comuns que reis podiam convocá-los as centenas para lhes dar conselhos em situações de emergência nacional, e 1Reis 22:1-28 relata um incidente envolvendo as opiniões de 400 profetas, cujo conselho o rei Acabe havia pedido antes de um ataque a Ramote-Gileade, que discordavam de Micaías, um profeta a quem Acabe desprezava por sempre “falar mal” dele. Diante desta cena, seria ingenuidade achar que não havia diferenças de opiniões no texto bíblico. Assim como os vencedores escrevem as histórias das nações, podemos ter certeza que o mesmo principio prevaleceu quando os livros “inspirados” foram arbitrariamente selecionados por aqueles cujos pontos de vista teológicos haviam triunfado, e isso bastaria para explicar qualquer grau de unidade ou coerência encontrado no cânone bíblico. Este processo, no entanto, não foi bem sucedido porque alguns pontos de vista desarmônicos conseguiram sobreviver à editoração. Em 2Reis 09 e 10, por exemplo, a história do massacre da família real de Israel cometido por Jeú em Jizreel foi relatado com a aprovação óbvia de quem quer que a tenha escrito. No final do relato, o autor declarou que Jeová aprovou a ação de Jeú: "Ora, disse o Senhor a Jeú: Porquanto executaste bem o que é reto aos meus olhos, e fizeste à casa de Acabe conforme tudo quanto eu tinha no meu coração, teus filhos até a quarta geração se assentarão no trono de Israel."(10:30). Os capítulos seguintes falam sobre os reinos dos filhos de Jeú, descritos como reis que “fizeram o que era mau aos olhos do Senhor”, entretanto, o autor afirmou que Jeová os deixou reinar até a quarta geração para cumprir a promessa feita a Jeú. Quando Zacarias, o descendente da quarta geração de Jeú foi assassinado na Samária depois de um reino de somente seis meses, o autor disse ao resumir o fim da dinastia que havia começado com Jeú, "Salum, filho de Jabes, conspirou contra ele; feriu-o diante do povo, matou-o e reinou em seu lugar.11 Ora o restante dos atos de Zacarias está escrito no livro das crônicas dos reis de Israel.12 Esta foi a palavra do Senhor, que ele falara a Jeú, dizendo: Teus filhos, até a quarta geração, se assentarão sobre o trono de Israel. E assim foi." (2 Reis 15:1-12). Quem quer que tenha escrito a história de Jeú e seus descendentes obviamente achou que Jeú havia agradado ao Senhor ao massacrar a família real de Israel a fim de usurpar o trono. Vários anos mais tarde, no entanto, o profeta Oséias expressou uma opinião totalmente diferente. Quando sua esposa Gomer teve um filho, Oséias disse que Jeová lhe comunicou o seguinte, “E disse-lhe o Senhor: Põe-lhe o nome de Jizreel; porque daqui a pouco visitarei o sangue de Jizreel sobre a casa de Jeú, e farei cessar o reino da casa de Israel " (Oséias 01:04). Portanto o autor de 2Reis encheu Jeú de elogios pelo massacre da família real, mas anos mais tarde o profeta Oséias aparentemente disse que Jeová vingaria o sangue de Jizreel e terminaria o reino de casa de Jeú. Isso foi uma profecia depois do fato para explicar o assassinato de Zacarias, o último rei israelita da casa de Jeú, mas, no entanto, ao fazer essa “profecia inversa”, Oséias se colocou em desacordo com o autor de 2Reis. É difícil achar alguma coerência nesses dois pontos de vista sobre o mesmo acontecimento. Eu teria que escrever um livro inteiro a fim de discutir em detalhes mesmo uma minúscula fração de todas as inconsistências e pontos de vistas teológicos conflitantes encontrados na Bíblia, entretanto apenas mais alguns exemplos brevemente analisados devem bastar para demonstrar o absurdo da declaração de McDowell de que a Bíblia é perfeitamente harmônica. Em todo o Velho Testamento, há histórias de sacrifícios animais ordenados e desfrutados pelo Senhor. O Levítico, de fato, é em grande parte uma lista dos vários sacrifícios que O Senhor exigia de seu “povo escolhido.” Aqui e ali, todavia, vemos indicações que alguns autores bíblicos não concordavam com essa prática. O profeta Jeremias chegou a ponto de dizer, “Pois não falei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios." (Jeremias 07:22). Essa declaração contradiz frontalmente o que os últimos quatro livros do Pentateuco dizem em tantas partes que fica difícil listar mesmo uma pequena fração contida neles. Fundamentalistas bíblicos dão tratos a bola para explicar essa discrepância alegando que o que Jeremias realmente queria dizer era que Jeová desejava sinceridade, honestidade, e misericórdia em acompanhamento as manifestações externas de obediência às exigências de oferendas dadas em holocausto, mas não é isso que o texto diz. A passagem deixa claro que Jeová não mencionou aos israelitas ou exigiu oferendas em holocausto ou sacrifícios. Se Jeremias tencionava dizer somente que Jeová queria que certos tipos de atitudes interiores acompanhassem as ofertas e sacrifícios, ele poderia ter dito exatamente isso, mas não disse. Se Jeremias tivesse sido o único autor bíblico a expressar tal opinião, talvez pudéssemos nos convencer que interpretamos mal a passagem, mas o mesmo ponto de vista aparece em outras partes. No Salmo 40:06, diz o autor, “Sacrifício e oferta não desejas; abriste-me os ouvidos; holocausto e oferta de expiação pelo pecado não reclamaste." Isaias 11:10,11; o Salmo 51:16; Jeremias 06:20; e Amós 05:22 são outras passagens que mostram que alguns autores não dão a sacrifícios e ofertas a suprema importância expressada em Levítico (indubitavelmente escrito por um sacerdote aarônico com o propósito de garantir seu meio de vida, que seria muito ruim sem uma bela quantidade de animais sacrificado no altar). A Bíblia também afirma que Deus não favorece ninguém (Atos 10:34; Deuteronômio 10:17; Romanos 02:11; Gálatas 02:06: Efésios 06:09; Colossenses 03:25; 1Pedro 01:17), mas também diz que Deus favoreceu um povo Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo, acima de todos os povos que há sobre a terra. (Deuteronômio 07:06). De forma alguma isso mostra harmonia e uniformidade. A Bíblia alega em tantas passagens que fica difícil lista-las todas que Deus é amor, e que é misericordioso e benévolo, mas o Velho Testamento está cheio de atrocidades que Jeová presumivelmente ordenou que seu povo escolhido cometesse contra outros. Em Deuteronômio 07:02, ele ordenou que os israelitas invadissem e destruíssem as nações em Canaã “e quando o Senhor teu Deus as tiver entregue, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas." Josué 10:40 e 11:11 relata que os israelitas obedeceram essas ordens prontamente não deixando ninguém com o fôlego da vida. Josué 11:15 e 20 declara que ao fazer isso, estavam simplesmente obedecendo às ordens de Jeová dadas a Moisés Há muitas contradições e inconsistências na Bíblia, mas mesmo essas poucas mencionadas entre centenas das existentes bastam para mostrar que não se pode dizer que a Bíblia é “única na sua continuidade.” A Bíblia: Singular Na Sua Circulação, Tradução e Sobrevivência Nestas três partes, McDowell parece argumentar que números de alguma forma bastam para estabelecer a verdade. Sua alegação é que a Bíblia tem sido mais circulada, traduzida em mais línguas, e sobrevivido a mais ataques e críticas que qualquer outro livro; portanto, ela deve ser a palavra de Deus. Qualquer aluno iniciante de lógica sabe que a verdade não é determinada pelo número de pessoas que crê numa premissa ou afirmação, portanto não há nada em nenhum desses pontos que nem ao menos chegue perto de estabelecer a verdade da Bíblia. A maior parte do que McDowell disse nessas seções pode ser explicada pelo zelo pessoal e fanatismo daqueles que tem crido na Bíblia no decorrer dos séculos. Por causa do seu empenho, estes cristãos circularam, traduziram e protegeram a Bíblia mais do que é normal para qualquer outro livro. Ninguém nega que um empenho ferrenho tem sempre sido uma característica dos crentes na Bíblia, mas é necessário muito mais que isso para estabelecer a verdade de qualquer crença filosófica. Sendo cristão McDowell diria que, ainda que o judaísmo tenha sido originariamente instituído por Jeová, ele não é mais a verdadeira religião, mas foi a dedicação dos judeus que fez com que ele sobrevivesse apesar de séculos e séculos de perseguições e tribulações que muito excederam as que os cristãos tiveram que suportar. Além do mais, a circulação e sobrevivência de quase dois terços dos livros da Bíblia se devem a dedicação dos aderentes do judaísmo, mas McDowell não interpretaria isso como indicação de que o judaísmo é a religião que Deus quer que as pessoas sigam. A maior parte do que McDowell interpreta como “singularidade” bíblica é na realidade produto de acaso político e social e circunstâncias favoráveis. O cristianismo se enraizou e prosperou numa região que se tornou tecnologicamente mais avançada que outras partes do mundo, e também gozou do favoritismo de instituições governamentais que suprimiram oposição a ele. Diante disso, não é de admirar que os aderentes dessa religião se aproveitariam do favoritismo para propagá-la o máximo possível. O crescimento e prosperidade de qualquer instituição sempre dependem de muitos fatores, portanto é muita ingenuidade o simplismo cristão de acreditar que sua religião prosperou somente porque é a “verdadeira”. Quanto à sobrevivência da Bíblia a mais críticas e ataques que qualquer outro livro, McDowell certamente sabe que a crítica pública da Bíblia só se tornou possível muito recentemente apesar do cristianismo ter sido a religião dominante por séculos. Somente com a evolução de idéias democráticas nos dois últimos séculos – e até mais recentemente que isso em alguns lugares—a crítica pública da Bíblia era punida com a prisão, e em alguns casos, com a morte. Mesmo no século XIX, o reverendo Robert Taylor, um clérigo que passou a criticar a Bíblia, foi condenado à prisão na Inglaterra por blasfêmia devido a ter publicado material considerado ofensivo para cristãos. Nesse tipo de ambiente, a crítica da Bíblia não pode ter sido generalizada como McDowell aparentemente quer que seus leitores creiam. Agora que a liberdade de expressão é outorgada pela maioria das sociedades democráticas onde o cristianismo é a religião dominante, não é de admirar que a Bíblia tenha se tornado alvo de análises críticas por todo lado. Existe muito nela que precisa ser criticado. Enquanto que sociedades ocidentais passaram a dar liberdade para criticar religiões, isso não ocorreu em outras sociedades em que cristãos são minoria. Um crítico do islamismo numa sociedade muçulmana se arrisca muito e sabe que pode ser preso ou mesmo executado por blasfêmia. Nesse tipo de ambiente, os ataques ao Corão são muito raros. Se, entretanto a liberdade de expressão for adotada em sociedades islâmicas, McDowell duvida por um segundo que a critica ao Corão aumentará substancialmente? Quanto à sobrevivência da Bíblia, ela não é tão antiga quanto alguns livros religiosos. Partes do Avesta Zoroástrico são muito mais antigas que mesmo os mais antigos do Velho Testamento e o mesmo pode ser dito dos Vedas hindus. Argumentar que o tempo de duração de uma religião a torna verdadeira tornaria muitas religiões “verdadeiras”. A história das religiões mostra que aparecem por causa de circunstâncias políticas e sociais, prosperam, declinam, e finalmente morrem. Não há nenhuma razão para duvidar que o mesmo acontecerá ao cristianismo e outras religiões antigas que sobreviveram por séculos. A informação é a maior inimiga da religião, e numa era em que ela pode ser adquirida facilmente através de um computador, a religião está em maior perigo que jamais esteve em toda sua existência. A Bíblia: Única Nos Seus Ensinamentos. De todos os atributos listados por McDowell nos capítulos iniciais da EEV, este provavelmente é o segundo em absurdidade perdendo somente para sua alegação de que a Bíblia é perfeita em continuidade e harmonia. Um estudo sério da História das religiões deixa claro que não há nada de único nos ensinos bíblicos. Os primeiros onze capítulos do Gênesis foram tirados da mitologia babilônica, como todos os estudiosos da Bíblia sabem. Os hebreus achavam que podiam apaziguar seu deus incinerando animais para honrá-lo e todas as sociedades a sua volta faziam o mesmo. Os hebreus construíram um templo para seu deus, os outros povos a seu redor também. Os hebreus acreditavam que seu deus os recompensava quando agiam corretamente e os punia quando faziam algo “mal aos olhos do Senhor,” mas registros contemporâneos como a Rocha Moabita e inscrições nos templos pagãos mostram que as nações a sua volta acreditavam nas mesmas coisas. Nem ao menos o tão aclamado “monoteísmo” dos hebreus foi inventado por eles pois documentos egípcios mostram que o monoteísmo foi introduzido no Egito pelo faraó Akhenaton (Amenhotep IV) antes de surgir entre os hebreus A história do Novo Testamento sobre um deus Salvador milagreiro que nasceu de uma virgem e ressuscitou não foi inventado pelo cristianismo. Tais personagens abundavam nas religiões pagãs anteriores a ele. Mesmo a famosa regra áurea (faça aos outros o que quer que façam com você) fazia parte dos ensinos éticos de outras religiões. Quase toda essa parte sobre a “singularidade” foi devotada a falar de profecias, o pior tópico que ele poderia ter escolhido para mostrar que a Bíblia foi “inspirada”. McDowell citou Wilbur Smith, que disse, "A Bíblia é o único volume já produzido pelo homem, ou grupo de homens, contendo um grande número de profecias a respeito de nações individuais, Israel, todos os povos da terra, certas cidades, e a chegada de um Messias." Não tenho condições de falar se outros livros sagrados apresentaram o mesmo número de profecias, mas tenho mais que condições de dizer que pelo menos dois problemas se vislumbram na exposição de Wilbur: (1) muitas das profecias apontadas pelos autores do Novo Testamento e apologistas cristãos o são somente nas imaginações férteis dos seus proponentes, e (2) muitas das profecias cujo objetivo era realmente ser entendidas como profecias de fato pelos seus autores nunca foram cumpridas. As profecias do Velho Testamento contra Tiro e o Egito são excelentes exemplos de fracassos. Ezequiel profetizou que Nabucodonozor destruiria Tiro e que ela nunca seria reconstruída (26:07-14, 21; 27:36 e 28:19). Sabemos através de registros históricos, entretanto, que a invasão de Nabucodonozor destruiu somente as vilas do lado continental, mas seu cerco à resistência na ilha foi um fracasso. O próprio Ezequiel reconheceu mais tarde em seu livro que sua profecia contra Tiro havia falhado, sendo assim O Senhor, como forma de compensação pelos esforços frustrados, ia dar o Egito a Nabucodonozor . Essa profecia também falhou completamente, como veremos mais tarde, mas primeiro temos a questão da contradição entre a profecia de Ezequiel contra Tiro e a de Isaías. Como Ezequiel, Isaías proferiu profecias da destruição de nações que circundavam Israel, e uma delas foi contra Tiro. Em 23:01, ele disse, "Oráculo acerca de Tiro. Uivai, navios de Társis, porque ela está desolada, a ponto de não haver nela casa nem abrigo; desde a terra de Quitim lhes foi isso revelado." A profecia continua de modo típico pelo capitulo, predizendo devastação e aniquilamento, e começando no versículo 13, Isaías claramente indica que a destruição de Tiro seria apenas temporária e não permanente:
>13 Eis a terra dos caldeus! Este é o povo, não foi a Assíria. Destinou a Tiro para as feras do deserto; levantaram as suas torres de sítio; derrubaram os palácios dela; a ruínas a reduziu. Assim vemos que Isaías tinha uma opinião bem diferente do destino de Tiro. Ele disse que ela seria destruída e esquecida por 70 anos, mas que no final desse período, Jeová a visitaria e ela seria restaurada. Claro que essa profecia seria mais fácil de defender que a de Ezequiel. No entanto, a profecia de Isaías contra Tiro traz um grande problema para apologistas bíblicos. Eles são forçados a explicar porque a profecia de Isaías previu somente uma destruição temporária enquanto que a de Ezequiel profetizou uma eterna. Isso nos leva a promessa de Ezequiel que Jeová daria o Egito a Nabucodonozor como compensação pelo fracasso diante de Tiro. A profecia contra o Egito foi bem especifica. O Egito seria completamente desolado e permaneceria assim por 40 anos.
>Ezequiel 29:1 No décimo ano, no décimo mês, no dia doze do mês, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Notem que a profecia foi bem especifica ao afirmar “e tornarei a terra do Egito em desertas e assoladas solidões, desde Migdol de Sevené até os confins da Etiópia." A Etiópia ficava na fronteira sul do Egito e Migdol no delta norte do Rio Nilo. Assim, a profecia afirmava que o Egito seria desolado de norte a sul. O próximo versículo diz que “Não passará por ela pé de homem, nem pé de animal passará por ela, nem será habitada durante quarenta anos.” Não existe nenhuma evidência histórica ou de nenhuma outra espécie que sugira que o Egito foi desolado e que ficou desabitado por quarenta anos. Portanto, a profecia obviamente fracassou. Alguns apologistas tentam alegar que ela será cumprida em alguma data futura, só que ela foi endereçada ao faraó rei do Egito, e o reino dos faraós terminou há muito tempo atrás. Ademais, como os versículos abaixo mostram, a profecia faz de Nabucodonozor o instrumento de vingança do Senhor contra o Egito, e ele já está morto há 25 séculos.
>Ezequiel 29:12 Assim tornarei a terra do Egito em desolação no meio das terras assoladas, e as suas cidades no meio das cidades assoladas ficarão desertas por quarenta anos; e espalharei os egípcios entre as nações, e os dispersarei pelos países. A tirada contra o Egito continua até o capitulo seguinte. Uma análise do mesmo mostraria outros detalhes específicos que nunca foram cumpridos, mas já ficou demonstrado que ela fracassou, portanto não é necessário me estender no assunto. Defensores da Bíblia como Josh McDowell, que gabam as profecias cumpridas, dependem da ignorância dos leitores que não se dão ao trabalho de verificar, já que sabem que suas alegações são obviamente falsas. A Bíblia: Única Na Sua Influência McDowell repetiu a velha ladainha cristã que se a Bíblia fosse destruída, ela poderia ser reproduzida completamente através de citações bíblicas encontradas em livros nas bibliotecas. Isso pode ser verdade, mas duvido seriamente que essa alegação seria pertinente somente em relação à Bíblia. Será que McDowell duvida que o Corão, se destruído, poderia ser reproduzido pelas citações encontradas em livros nas prateleiras de bibliotecas islâmicas? Há mesmo fanáticos islâmicos que memorizaram o Corão a tal ponto que poderiam reproduzi-lo inteiramente caso fosse destruído. Essencialmente McDowell, nesse capitulo, se concentrou apenas em fatores resultantes do fanatismo religioso, mas a maior parte do que disse seria verdadeiro em relação a outras religiões. Isso não é tão obvio para ele quanto à “singularidade da Bíblia” porque mora numa sociedade envolvida e dominada pelo pensamento cristão. Em muitos aspectos, entretanto, tendo a concordar com a afirmativa de McDowell de que a Bíblia foi única na sua influência. De todos os livros sagrados que estudei nenhum foi tão negativo e nocivo a sociedade. Não conheço nenhum que seja páreo para a Bíblia e seu deus “criador do universo” que se mostra extremamente bárbaro e cruel e depois tem a audácia de dizer que é “amor”. Nesse aspecto ela é única, mas essa singularidade nenhum apologista bíblico quer discutir, principalmente McDowell. Eles preferem não mencionar a doutrina da punição eterna no fogo do inferno para aqueles que não obedecem mesmo os decretos mais insignificantes do deus da Bíblia. Eles preferem não mencionar a singularidade das perseguições, inquisições, intolerância, e ignorância que seguem a Bíblia por onde passa. A abordagem tendenciosa de McDowell que selecionou com cuidado somente as características favoráveis à Bíblia e às vezes recorreu mesmo a falsificação clara dos fatos como sua alegação de “continuidade perfeita” faz com que sua obra não mereça ser chamado de séria “academicamente” falando. A única afirmativa verdadeira de todo o capítulo foi a de que a “singularidade” da Bíblia “não prova [que ela] seja a Palavra de Deus.”
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