Atheos Publicado: 04/05/2000
Atualizado: 26/01/2002
ATEÍSMO, LIBERDADE E RESPONSABILIDADE

de Daniel D. Cunha


"A grande coragem é, ainda, a de manter os olhos abertos, tanto sobre a luz quanto sobre a morte"

Albert Camus, em 'O Avesso e o Direito'

Este texto não tem como objetivo discutir as falácias da religião, nem tampouco as razões para o ateísmo ou as origens das crenças. Ao contrário, seu escopo principal será uma breve discussão sobre as conseqüências do ateísmo, no que concerne ao individual e ao coletivo.

Ao longo da existência de nossa espécie, devido à exigência de explicação inerente à condição humana, criaram-se numerosas religiões, ou seja, ontogenias metafísicas destinadas a explicar a origem e o destino do homem. É interessante notar que todas elas colocam o homem como o "senhor" e centro do universo, como o herdeiro legítimo e incontestável de uma criação divina. Aparentemente teocentristas, na verdade as religiões são antropocentristas, são "explicações" destinadas unicamente a dar sentido e conforto à nossa existência.

Surgiu, entrementes, a ciência, com o seu postulado de objetividade, ou seja, a "recusa sistemática em considerar como capaz de conduzir a um conhecimento 'verdadeiro' toda interpretação dos fenômenos dada em termos de causas finais, ou melhor, de 'projeto' (Nota 1)". A ciência desvinculou-se da metafísica, o conhecimento divorciou-se da teologia.

Apoiada no postulado da objetividade, a ciência pôs um fim à ilusão antropocentrista. Sabemos hoje que a Terra não é o centro do sistema solar, que o sistema solar não é o centro da Via Láctea, que a Via Láctea não é o centro do universo. Sabemos que não somos superiores aos animais; que compartilhamos cerca de 99% de nossos genes com os chimpanzés; que a evolução não tinha o homem como objetivo final desde o princípio, ao contrário, as mutações genéticas ocorreram aleatoriamente e não tinham a espécie humana como produto necessário. Sabemos que é possível que em outros planetas existam espécies mais inteligentes e capazes do que a nossa. Sabemos, pelo segundo princípio da termodinâmica, que o universo está condenado a degradar-se.

Fomos definitivamente destronados. Hoje sabemos que estamos sozinhos neste mundo, abandonados a nós mesmos. Somos macacos sem pêlos atirados em um canto periférico do universo. Sabemos que as "explicações" não passam de falácias e auto-enganos. Sabemos que não somos especiais. Sabemos que o universo nos prescinde.

As conseqüências disto são devastadoras. Se estamos sós, qual o sentido da existência? Como definiremos nossas regras de conduta? Quem dirá o que é certo e o que é errado? Se estamos sós, a primeira grande conseqüência disto é que somos livres. Livres para definir o certo e o errado, para definir nossas regras morais, para definir o que nos é caro e o que nos é supérfluo, enfim, livres para ditar nosso próprio destino tendo nós mesmos como único fim, livres para nos definirmos. Sartre afirmou que "o homem está condenado a ser livre". Esta expressão é, aparentemente, paradoxal. Afinal, a "liberdade" é um dos valores mais caros à humanidade; por que, então, estamos "condenados"? A questão é que esta liberdade vem acompanhada de uma responsabilidade. A mais radical das liberdades, a liberdade de definir a si mesmo, é ao mesmo tempo a mais radical das responsabilidades: somos os únicos responsáveis por nossos próprios sucessos e fracassos.

Mas será que estamos assumindo esta liberdade e esta responsabilidade? Se a religião fornece uma "explicação" confortadora, uma "Verdade metafísica" onde apoiar-nos, por que deveríamos abandoná-la? Não seria mais lógico fomentá-la cada vez mais, acabando assim com nossas angústias e incertezas? Certamente é esta a atitude da maior parte da população mundial; parte desta população o faz por ignorância, é verdade, mas parte o faz pela mais absoluta covardia. Têm os fatos à frente dos olhos e recusam-se a vê-los.

O preço a pagar, entretanto, seria muito alto. A religião deve ser abandonada porque é alienante: "por que devo melhorar este mundo, se na 'outra vida' nada me faltará?". Porque promove preconceitos: os índios e negros não tinham alma (é interessante notar que este pensamento na verdade é correto, o preconceito vinha a ser o fato de que os europeus, estes sim, tinham alma) e mulheres são tratadas como seres inferiores (por mais sofismas que nos apresentem, a Igreja Católica é, sim, machista, pois não permite às mulheres a celebração de missas; fatos semelhantes acontecem em quase todas as religiões). Porque é causa de inúmeras guerras e conflitos. Porque se opõe ao desenvolvimento científico quando este vai de encontro aos seus dogmas: Galileu Galilei foi ameaçado de tortura porque cometeu a "heresia" de afirmar que a Terra era redonda. Porque comete crimes inomináveis na defesa de seus dogmas, vide Inquisição. As razões são inúmeras, a lista se prolongaria ad infinitum.

Em uma sociedade ateísta não existiriam dogmas, nem tampouco "Verdades". A tolerância com a diversidade seria natural. Conscientes de nossa igualdade radical, abandonaríamos preconceitos de todos os tipos. O pensamento seria verdadeiramente livre, o desenvolvimento científico estaria desimpedido. Toda a nossa criatividade e inteligência seriam utilizadas neste mundo, nossos esforços se voltariam ao nosso próprio aprimoramento. Respeitaríamos o próximo com muito mais fervor, pois como disse Umberto Eco, "[...] quem não crê não considera que Alguém o observa lá do alto e sabe, portanto, que - exatamente por isso - também não há alguém que o possa perdoar. Se sabe ter feito o mal, sua solidão não conhecerá limites e sua morte será desesperada. Tentará antes, mais que o crente, a purificação da confissão pública, pedirá perdão aos outros (Nota 2)".

Urge que a humanidade assuma a sua liberdade e a sua responsabilidade, tomando as rédeas de seu próprio destino. Para isto é necessária a coragem de abandonar o antropocentrismo e de reconhecer a nossa própria insignificância. Uma coragem tão grande e tão carregada de significado que, aí sim, nos tornaríamos especiais: ao recusarmos os deuses assumiríamos o Homem. Cabe a nós, ateus, a divulgação deste ideal. Parafraseando Saramago, pela "responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

Notas

1 - Monod, Jacques, O Acaso e A Necessidade, Ed. Vozes, 1989, trad. Bruno Palma e Pedro Paulo de Sena Madureira, p. 32
2 - Eco, Umberto & Martini, Carlo M., Em Que Crêem Os Que Não Crêem?, Ed. Record, 1999, Trad. Eliana Aguiar, p.87

Comentários

Flavio Vieira - fam.vieira@ig.com.br - Rio de Janeiro Rio de Janeiro, enviou em 13/01/2002

Desde os primórdios da civilização, que o homem é movido por um sentimento que se funda no medo e na ignorancia e que leva ao conhecimento de falsos deveres, ao receio de ações sobrenaturais e a confiança em coisas ineficazes, tais como: crendice; fanatismo; preconceito; mandinga; simpatia etc. Entretanto, faltava-nos projetos como esses aprentados, que é o maximo, para que as pessoas possam elucidar as suas vidas de fantasia e loucuras em nome de deuses imaginatórios.

Parabéns a todos os idealizados!!!


Rodrigo Arnoud Rodrigues - Arnoud@creativenet.com.br - Santa Catarina Santa Catarina, enviou em 15/04/2001

Não lhes parece que o texto mostra exatamente o contrario do que diz? Eu aceito o metodo cientifico, mas muitas vezes ele é visto como um outro dogma e isso me parece perigoso e no minimo ironico. É impossivel ser ateu sem atacar os teistas? Ou no fundo o Metodo tornou-se apenas uma outra seita que diz ser "O caminho, a Verdade e a Luz"?
Sejamos racionalistas colegas, menos emocionais e mais lucidos.

Bruno do Amaral Fernandes de Sousa - brunodoamaral@hotmail.com - Pernambuco Pernambuco, enviou em 08/11/2000

Muito bom o comentário de Daniel Cunha, principalmente ao falar sobre o antropocentrismo...
  • Traduções para espanhol, inglês, e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.