Publicado: 12/10/2001
de José Moreira da Silva
Vamos começar os procedimentos. Estamos aqui reunidos para o julgamento de um personagem muito ilustre. Ele está junto com a humanidade desde o começo dos tempos. Assim dizem todos os seus defensores. Ele tem muitos advogados aqui presentes e em todas as partes do mundo. Lhe é atribuído muitos crimes. Mas estamos aqui para julgar apenas um. E o crime é Omissão de Socorro. Trouxemos várias testemunhas de acusação que tiveram a coragem de comparecer, porque a grande maioria se recusou. O que temos aqui é apenas uma mostra. Quanto a defesa, ela já é feita todos os dias nas igrejas e por várias personagens famosas e já ouvimos todos os argumentos. Agora vamos ouvir o outro lado. Primeiro gostaria de chamar uma pessoa que sobreviveu a um incêndio em sua casa. Senhor João. Por favor. - Meritíssimo, não foi fácil vir aqui. Senti muito medo pela minha vida. Mas julguei que estaria fazendo um desfavor a humanidade se não comparecesse. Minha casa pegou fogo porque um avião caiu em cima dela. Eu não fiz nada para merecer isso. Não sou nenhum santo, mas também nada que fiz poderia justificar o que aconteceu. Tinha uma mulher e três filhas. Todas morreram no incêndio. Pedi a Deus com todas as forças para que as ajudassem, ele só ficou olhando e não fez nada. Quando os bombeiros chegaram, já era tarde demais. Só eu sobrevivi. Deus ficou olhando e nada fez. Não fez os bombeiros chegarem mais cedo, não avisou ninguém. Nada. Ele foi omisso sem dúvida. Senhor Oliveira. - Minha mãe morreu de câncer. Deus é todo-poderoso. Ele sabia que eu adorava minha mãe. No entanto ele nada fez. Orei todos os dias. Grupos de pessoas vieram e oraram também. E quando minha mãe morreu disseram que era a vontade de Deus. Se era a vontade de Deus, então ele não só foi omisso como também provocou sua morte. Próxima testemunha. - Eu sou um moleque de rua. Eu vivo ao Deus-dará. Só que Deus nunca me deu nada. Eu sofri pacas. Fui estuprado mais de uma vez, até pela policia. Deus viu tudo. E não fez nada. Só ficou olhando. Próxima. - Eu sou um menino da Etiópia. Nasci no meio da mais absoluta pobreza. Passei fome a vida inteira e agora estou morrendo. Só conheci sofrimento na minha vida. Não fiz nada para merecer isso pois já nasci nessa miséria. Deus é todo-poderoso. E não fez nada. Nada mesmo. E eu sou apenas um entre muitos que vive lá. Próxima. - Eu sobrevivi a um acidente de carro. Mas minha namorada morreu. As pessoas dizem graças a Deus você está vivo. Graças a Deus por que? Se ele quisesse mesmo o acidente nem teria acontencido. Mas eu estou paraplégico. E as pessoas ainda dizem que isso vai ensinar algo as outras pessoas. Eu não quero que meu sofrimento sirva de exemplo para nada. Não concordo com isso. Se Deus está me usando como uma lição, então além de omisso ele é imoral. Agora vamos chamar o Senhor Steinfeld. Por favor. - Obrigado. Eu consegui escapar de um campo de concentração Nazista. Praticamente todos que estavam lá morreram das maneiras mais horríveis. Todas os dias milhares de preces eram dirigidas ao acusado, e ele nada fez. Deixou 6 milhões de judeus serem torturados dos modos mais bárbaros. E como disse o depoente anterior, ele só ficou olhando e nada fez. Eu também digo que ele foi omisso. Ele, sendo todo-poderoso, poderia ter feito algo. Por favor, agora o Senhor Batista. - Eu sempre fui uma pessoa temente a Deus. Orava todos os dias, não só para mim mesmo, como para os outros. Mas isso de nada adiantou. Eu estava na igreja de Osasco orando quando ela desabou. Meu filho, que eu mais amava, morreu nessa tragédia. Não adianta ele me dar mais mil filhos, não vão substituir aquele que adorava. Ele poderia ter feito algo, ele é todo-poderoso, meu livre arbítrio não fez com que isso acontecesse. Mas aconteceu. Ele ficou olhando e nada fez. Omissão de Socorro é crime. Por isso estou aqui. Gostaria de chamar o Mr. Smith. - Meritíssimo, eu sou um daqueles que sobreviveu ao ataque ao World Trade Center. Mais de sete mil pessoas morreram naquele atentando. Deus viu os terroristas preparando tudo. Viu as pessoas indo ao trabalho. Sabia que inocentes morreriam. Viu os responsáveis preparando tudo isso em seu nome, e nada fez. Ele poderia ter, pelo menos, avisado as pessoas para não irem trabalhar naquele dia. Mas ele não fez isso. Poderia ter avisado os que tomaram o avião para não o fazerem. Mas não fez isso. Ele só ficou olhando. Observando tudo e se deliciando com o espetáculo. Na certa tudo para ele não passa de diversão.
Depois de mais de um ano de depoimentos similares e de defesas sem fim, finalmente chegou o grande dia. Hoje seria decidido se Deus foi omisso ou não e qual a punição para seu crime. Depois de todo esse tempo. Finalmente chegamos a uma conclusão. O júri vai ler o veredicto e depois eu darei a sentença. Ainda que o réu tenha sido julgado a revelia, minha sentença tem força de lei. Senhores jurados, chegaram a uma conclusão? - Chegamos, meritíssimo. Diante de todas as evidencias não temos outra alternativa a não ser considerar o réu culpado. Agora pronunciarei a minha sentença. Tendo em vista que as igrejas todos os dias destinaram um lugar para os pecadores ou quem comete crimes contra a humanidade. Eu acho que seria justo condenar aquele que inventou o inferno ao fim que destinou a humanidade. Portanto, condeno Deus a passar a eternidade no inferno pelo crime de Omissão de Socorro. Comentários
Marcus Valerio XR - mv@xr.pro.br - Adorei o texto. Mas não deveria estar na seção Humor?
Hudson Leonardo Pinto Dantas - hudsonleopd@bol.com.br - Não sou muito crente a Deus mas, acho q se ele realmente existe ele deixou a humanidade se virar sozinha há muito tempo.Todos esse depoimentos são consequencias da má utilização do homem(estúpido e hipócrita) para com o seu mundo."Acho que há muito tempo estamos afundando num barco onde nós mesmo o-destruímos".
Herberti Vidor Pedroso - hvp@rima.com.br - Esta estória não é uma ficção completa. Lí certa vez que, durante a II Guerra Mundial, um grupo de judeus presos em um campo de concentração, se reuniu e solenemente estabeleu um tribunal onde Deus foi julgado, básicamente pelo motivo exposto neste texto. Desnecessário dizer qual foi o veredicto. Toda esta exposição me fez ficar pensando no absurdo que seria nosso Universo se Deus interviesse toda vez que fossemos nos sentir prejudicados: uma criança vai cair da sacada, Ele suspende a gravitação; uma vovózinha vai morrer de câncer, Ele modifica as leis da divisão celular; um terrorista vai detonar uma bomba, Ele altera as reações químicas; um pai bêbado vai espancar sua esposa ou filhos e Ele, simplesmente, viola a individualidade do malvado e o faz parar. E por ai vai. Poderíamos multiplicar possibilidades e circunstâncias "ad-infinitun" e o que teríamos no final? Um mundo de caos completo, sem ordem, sem sentido. Um mundo no qual não haveria nenhuma moral, já que qualquer má-ação jamais se consumaria, pois Deus sempre iria intervir na hora “H”. Não havendo moral obviamente também não haveria responsabilidade pessoal, pois qualquer um poderia perpetrar qualquer crime e até tentar executa-lo, mas não haveria problema pois no último momento Deus iria aparecer e “quebrar o galho”. Neste mundo de contos de fada, a prática de qualquer ciência seria tão absurda quanto inútil, já que nunca se teria leis físicas claras e objetivas. Não seríamos seres humanos de verdade. Seríamos espantalhos, simulacros de seres livres, criados num ambiente de faz-de-conta. Jamais aprenderíamos acerca do Mal, isolados de qualquer tipo de sofrimento, o qual faz doer sem dúvida, mas que também tem a capacidade de produzir firmeza de caráter. Qual de nós, podendo escolher, gostaria de viver num mundo assim, mimados por um Deus que faria tudo, menos nos levar a sério?!
Dave Strovic - davex@mailbr.com.br - uhm... apesar de ser ateu, não concordo com o texto. |