Atheos Publicado: 03/02/2001
Atualizado: 14/09/2001
A MANEIRA BÍBLICA DE TRATAR AS MULHERES COM DIGNIDADE

de Farrell Till


Conforme foi observado em artigos anteriores, uma alegação popular da cristandade é que a Bíblia concedeu às mulheres um estatuto superior àquele que tinham nas sociedades dominadas por outras religiões. Aqueles que fazem essa alegação ou são muito ignorantes sobre o que a Bíblia ensina ou não têm escrúpulos contra deturpar os fatos para tentar fazer avançar a causa da cristandade. Muitas das atitudes deploráveis em relação às mulheres que encontramos na Bíblia já foram examinadas, mas nenhuma era mais flagrantemente sexista no seu alcance do que um "teste" em Números 5, que Iavé requeria das mulheres acusadas de adultério.

Se qualquer homem suspeitasse que a sua esposa se estava "desencaminhando" mas não tivesse qualquer evidência para confirmar as suas suspeitas, ele tinha o direito de levá-la ao sacerdote, caso "o espírito de ciúme tenha vindo sobre ele" (vs:11-15), e o sacerdote sujeitá-la-ia a um julgamento por ordálio, no qual ela tinha de passar para provar a sua inocência. Requeria-se que o homem trouxesse uma oferta de alimentos, que o sacerdote colocaria nas mãos da mulher. O sacerdote então tomaria uma mistura de "água santa" e poeira do chão do tabernáculo, que era chamada "a água amarga que traz maldição", e diria um encantamento sobre a mulher:

19 "'E o sacerdote tem de fazê-la jurar e tem de dizer à mulher: "Se nenhum homem se deitou contigo e se, enquanto estavas sujeita a teu esposo, não te desencaminhaste em qualquer impureza, sê livre do efeito desta água amarga que traz maldição. 20 Mas, caso te tenhas desencaminhado enquanto estavas sujeita a teu esposo, e caso te tenhas aviltado e algum homem, além de teu esposo, tenha posto em ti sua emissão seminal ..." 21 O sacerdote tem de fazer então a mulher jurar com um juramento que envolve maldição e o sacerdote tem de dizer à mulher: "Jeová te ponha por maldição e por juramento no meio do teu povo, por Jeová deixar que tua coxa decaia e teu ventre inche. 22 E esta água que traz maldição tem de entrar nos teus intestinos para fazer teu ventre inchar e tua coxa decair." A isto a mulher tem de dizer: "Amém! Amém!" (vs:19-22)
Neste ponto, requeria-se que a mulher dissesse "Amém! Amém!" (v:22). Quem diz que Iavé não tinha um senso de justiça?

Em seguida, o sacerdote escreveria "estas maldições" num livro e iria "obliterá-las para dentro da água amarga" (v:23), momento em que a "água amarga" conteria não só poeira do chão do tabernáculo mas também aparentemente quaisquer outras substâncias contaminadas que pudessem estar na "tinta" e na superfície do livro que foi raspado. Depois disto, requeria-se que a mulher bebesse "a água amarga que traz maldição e a água que traz maldição tem de entrar nela como algo amargo" (v:24).

O sacerdote tomaria a "oferta de cereais do ciúme" da mão da mulher e teria de "mover a oferta de cereais para lá e para cá perante Jeová" e depois levá-la para o altar. Ele tomaria uma mão cheia da oferta como "lembrança dela" e queimá-la-ia no altar. (Não estou a inventar nada disto; está tudo na palavra inspirada de Deus.) Aparentemente, neste ponto a mulher teria de beber mais um gole da água amarga, só para o caso de a primeira dose não ter feito já dano suficiente. O texto inspirado diz-nos que depois de a mulher ter bebido a água amarga, "então terá de se dar que, se ela se aviltou por ter cometido um ato de infidelidade para com seu esposo, então a água que traz maldição terá de entrar nela como algo amargo e seu ventre terá de inchar, e sua coxa terá de decair, e a mulher terá de tornar-se maldição entre o seu povo" (v:27). No entanto, conforme foi sugerido anteriormente, Iavé tinha um senso de justiça, pois "se a mulher não se tiver aviltado, mas estiver limpa, então terá de ficar livre de tal punição; e ela terá de ser feita grávida por sêmen" (v:28).

Ora, não era isso uma ação decente da parte do misericordioso Iavé? Vivendo em tempos esclarecidos, todos podemos adivinhar o que aconteceu durante essas cerimônias. Algumas mulheres aparentemente passariam no teste, e outras aparentemente falhariam. Sabemos, porém, que os fatores de culpa ou inocência não teriam estado envolvidos. Da mesma forma que algumas pessoas hoje são resistentes a bactérias e vírus e podem viver no meio de epidemias sem serem infectadas, ao passo que outras caem vítimas das doenças que eles causam, sem dúvida aconteceu o mesmo com as mulheres que foram sujeitas a este julgamento por ordálio para testá-las quanto ao adultério. Era tudo uma questão de constituição individual. Algumas mulheres podiam beber da "água amarga" contaminada e não sentir efeitos adversos, ao passo que outras provavelmente tiveram infeções internas que fizeram com que os 'ventres inchassem' e as suas 'coxas decaíssem'. A culpa ou inocência, porém, nada tinham que ver com isso. A resistência individual à infeção teria sido o principal fator determinante. Na sua magnanimidade, Iavé decretou que se o ventre da mulher não inchasse e as suas coxas não decaíssem, então ela estava inocente e estaria livre e "terá de ser feita grávida por sêmen". Sim, afinal, é esse o único dever das mulheres, estarem livres para serem feitas "grávidas por sêmen", não é? É uma parte vital da dignidade e estatuto elevado que a Bíblia concedeu às mulheres.

Bem, o que acontecia quando a mulher "passava o teste"? Será que o marido era responsabilizado de algum modo por ter acusado falsamente a sua esposa? Aqueles que fazem essa pergunta sem dúvida desenvolveram um senso de justiça por terem sido sujeitos a muita filosofia moderna sobre a igualdade dos sexos. Tal igualdade simplesmente não era o modo de Iavé fazer as coisas, portanto somos informados que quando o julgamento por ordálio acabava, "o homem terá de ser inocente de erro" (v:31). No entanto, a mulher que não passava no teste "responderá pelo seu erro."

Um assunto interessante é suscitado pela referência à mulher "ser feita grávida por sêmen" depois de passar o teste e assim estar "livre" para isso. Podemos imaginar que numa sociedade supersticiosa que usava este julgamento por ordálio para testar as mulheres suspeitas de adultério, teriam existido muitas mulheres grávidas que foram levadas perante os sacerdotes para beber a assim chamada "água amarga", e sem dúvida muitas delas, quer fossem inocentes ou culpadas, não passavam no teste. Se a mistura de "água santa" e substâncias contaminadas produzia algo parecido com ventres inchados e coxas decaídas, conforme descrito nas instruções cerimoniais, podemos também imaginar que muitas mulheres grávidas tiveram abortos que foram provocados pela "água de amargura" e que algumas mulheres ficaram estéreis devido aos seus efeitos. Este ponto não é dito para defender nem para condenar a prática do aborto, mas antes para sugerir que este "teste de adultério" coloca um problema para aqueles que argumentam tão fervorosamente que o aborto viola a "lei de Deus", pois aqueles que assim argumentam estão presumivelmente a referir-se ao mesmo deus que ordenou este "teste para o adultério" que teria apresentado ameaças óbvias para a vida de qualquer feto cuja mãe fosse obrigada a submeter-se a ele. Será que um deus que está tão preocupado com o bem estar de uma criança por nascer elaborou esse plano, ou isso era simplesmente uma prática que se originou com pessoas primitivas e supersticiosas, que pensavam que o seu deus estava a dirigir o resultado do teste? Isso é algo em que os biblicistas deviam pensar, ao ponderarem os problemas que este julgamento por ordálio coloca à alegação deles de que a Bíblia elevou a dignidade das mulheres muito acima da que elas usufruíam em outras sociedades religiosas.

Comentários

Jamil Orlandelli - orlandel@ig.com.brorlandel@ig.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 09/09/2001

Da mesma forma que o autor ,e acho que todos nós, ficamos horrorizados com o ordálio dos hebreus, no futuro distante uma outra sociedade também ficará horrizada com os nossos costumes. Ora ,a sociedade evolui culturalmente e não é justo julgar as sociedades antigas pelos nossos padrões cultos modernos.

Marcus Valerio XR - xr@samerica.com - Brasília/DF, enviou em 04/02/2001

O quê?! Vocês acharam isso grave?! Então que tal essas?

NÚMEROS [31]

32 Ora, A PRESA, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas,
33 setenta e dois mil bois,
34 e sessenta e um mil jumentos;
35 e TRINTA E DUAS MIL PESSOAS, ao todo, DO SEXO FEMININO, que ainda se conservavam virgens.

40 E houve de pessoas dezesseis mil, das quais foi o TRIBUTO para o Senhor trinta e duas pessoas.

OBS: Foram oferecidas 32 mulheres como "TRIBUTOS" ao Senhor (Iavé), "Tributos" leia-se por SACRIFÍCIOS!

DEUTERONÔMIO [22]

13 Se um homem tomar uma mulher por esposa, e, tendo coabitado com ela, vier a desprezá-la,
14 e lhe atribuir coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher e, quando me cheguei a ela, não achei nela os sinais da virgindade;
15 então o pai e a mãe da moça tomarão os sinais da virgindade da moça, e os levarão aos anciãos da cidade, à porta;
16 e o pai da moça dirá aos anciãos: Eu dei minha filha por mulher a este homem, e agora ele a despreza,
17 e eis que lhe atribuiu coisas escandalosas, dizendo: Não achei na tua filha os sinais da virgindade; porém eis aqui os sinais da virgindade de minha filha. E eles estenderão a roupa diante dos anciãos da cidade.
18 Então os anciãos daquela cidade, tomando o homem, o castigarão,
19 e, multando-o em cem siclos de prata, os darão ao pai da moça, porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele por todos os seus dias não poderá repudiá-la.

OBS: Note que se inocentada, a moça é obrigada a ficar com o homem que a repudiou-o

20 Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,
21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade A APEDREJARÃO ATÉ QUE MORRA; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti.

JUÍZES [19]

22 Enquanto eles alegravam o seu coração, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, bateram à porta, e disseram ao ancião, dono da casa: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos.
23 O dono da casa saiu a ter com eles, e disse-lhes: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais essa loucura.
24 Aqui estão a MINHA FILHA VIRGEM e a CONCUBINA do homem; fá-las-ei sair; HUMILHAI-AS A ELAS, E FAZEI DELAS O QUE PARECER BEM AOS VOSSOS OLHOS; PORÉM A ESTE HOMEM NÃO FAÇAIS TAL LOUCURA.
25 Mas esses homens não o quiseram ouvir; então aquele homem pegou da sua concubina, e lha tirou para fora. Eles a conheceram e ABUSARAM DELA A NOITE TODA até pela manhã; e ao subir da alva deixaram-na:
26 Ao romper do dia veio a mulher e caiu à porta da casa do homem, onde estava seu senhor, e ficou ali até que se fez claro.
27 Levantando-se pela manhã seu senhor, abriu as portas da casa, e ia sair para seguir o seu caminho; e eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar.
28 Ele lhe disse: Levanta-te, e vamo-nos; porém ela não respondeu. Então a pôs sobre o jumento e, partindo dali, foi para o seu lugar.
29 Quando chegou em casa, tomou um cutelo e, pegando na sua concubina, a dividiu, membro por membro, em doze pedaços, que ele enviou por todo o território de Israel.

OBS: Esses respeitáveis hebreus que entregaram a concubina não sofreram qualquer repreensão ou mesmo remorso.

E posso garantir a vocês que há coisas muito piores no Velho Testamento.

No Novo Testamento a situação melhora bastante, no Evangelho Jesus tem grande respeito pelas mulheres, colocando-as em pé de igualdade com os homens em termos de direitos. Mas nos demais livros do Novo Testamento, pincipalmente os apóstolos Pedro e Paulo, retomam alguns dos velhos hábitos.

I CORINTIOS [14]

34 as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei.
35 E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja.
36 Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?

I PEDRO [3]

1 Semelhantemente vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos; para que também, se alguns deles não obedecem à palavra, sejam ganhos sem palavra pelo procedimento de suas mulheres,
2 considerando a vossa vida casta, em temor.
3 O vosso adorno não seja o enfeite exterior, como as tranças dos cabelos, o uso de jóias de ouro, ou o luxo dos vestidos,
4 mas seja o do íntimo do coração, no incorruptível traje de um espírito manso e tranqüilo, que és, para que permaneçam as coisas
5 Porque assim se adornavam antigamente também as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam submissas a seus maridos;
6 como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor; da qual vós sois filhas, se fazeis o bem e não temeis nenhum espanto.
7 Igualmente vós, maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações.

Se os Cristãos seguissem à risca os ensinamentos da Bíblia, considerando o Novo Testamento como o código de comportamento definitivo, as mulheres ainda que submissas, seriam em geral bem tratados. Porém é evidente que tal não ocorreu, a Igreja principalmente sempre fez uso do conteúdo do Velho Testamento para legitimar sua violência. Caso contrário, justificar Guerras Santas e genocídios seria impossível.

Há porém pelo menos uma coisa que de fato o Cristianismo fez pelas mulheres, acabou com o infanticídio feminino, comuns em povos onde bebês meninas não eram muito bem vindas.

Todavia dizer que o Cristianismo melhorou a condição feminina é uma hipocrisia das piores.
Nem creio ser necessário citar exemplos, mas recomendo os excelentes livros de RIANE EISLER: O CÁLICE E A ESPADA e O PRAZER SAGRADO.

Obrigado pela paciência.

Marcus Valerio XR

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.infidels.org/library/magazines/tsr/1998/1/981front.html
  • Traduzido por: João Rodrigues
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.