Publicado: 01/11/2001
de Luis Fernando Verissimo
Ao pedir perdão pelos seus pecados, neste domingo, a Igreja estava na verdade se desculpando com Deus por tê-lo entendido tão mal. Grande parte da história destes dois milênios foi feita direta ou indiretamente pela Igreja, mesmo quando as razões religiosas apenas disfarçam as verdadeiras, e foi tudo em nome de Deus. Ou Deus é Co-Responsável pelo pesadelo ou os pecados por atos e omissões da Igreja, das Cruzadas ao descaso com a perseguição aos judeus, se devem a sinais trocados e ordens desconsideradas. Deus dizendo "Parem!" e ninguém aqui em baixo se flagrando. A Igreja estaria sendo injusta com si própria julgando pelos critérios do revisionismo histórico e do multiculturalismo moderno o que fez, literalmente, de boa-fé? Sim e não. Os catequizadores podiam acreditar que estavam salvando almas e que a troca da sua terra e do seu ouro por um lugar no céu não era um mau negócio para os ameríndios massacrados. Já um cruzado que continuava a degolar infiéis mesmo com o sangue deles pelos calcanhares sabia que não estava sendo muito cristão e a Inquisição ainda martirizou milhares depois de a Igreja reconhecer que seus fins eram mais políticos do que purgativos. Mas Deus, segundo João Paulo II, não tem culpa. Foi tudo uma falha de comunicação. O gesto de João Paulo II também sugere um quebra-cabeça que é quase uma questão filosófica, ou vice-versa. Se o papa, que, segundo dogma da Igreja, é infalível, diz que outros papas falharam na interpretação da vontade de Deus, não está dizendo que os papas não são infalíveis e que portanto ele também é falível e pode estar errado quando diz que os papas não são infalíveis, o que quer dizer que ele é infalível e está certo, portanto é falível e pode estar errado? Não sei. Ainda acho que a única culpa de Deus nestas histórias todas é não ter instituído, no mundo, o remorso preventivo, que teria evitado muito sangue e toda essa confusão.
Publicado originalmente em 14 de março de 2000.
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