Richard Dawkins
 
 
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Atualizado: 07/08/2003
   
                     
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de Richard Dawkins


Distinto cientista, escritor e ateu britânico, Richard Dawkins, que foi escolhido vencedor do Prêmio “Emperor Has No Clothes” em 22 de setembro na convenção da Freedom From Religion Foundation, cancelou seu comparecimento devidos às dificuldades de viagem após os ataques terroristas de 11 de setembro contra os EUA.

Ele forneceu um artigo exclusivo, reproduzido abaixo, que foi lido na convenção da Fundação em seu nome por James Coors, um professor de agronomia na Universidade de Wisconsin - Madison.
O ensaio é uma continuação do poderoso artigo de Dawkins “Os Mísseis Desgovernados da Religião”, publicado no The Guardian em 15 de setembro de 2001. Veja um trecho após o artigo.


“Culpar o Islã pelo que aconteceu em Nova York é como culpar o cristianismo pelos problemas na Irlanda do Norte!”. Sim. Precisamente. É hora de parar de pôr panos quentes. É hora de sentir raiva. E não apenas contra o Islã.

Aqueles de nós que renunciaram a uma ou outra das três “grandes” religiões monoteístas têm, até agora, moderado sua linguagem por polidez. Os cristãos, judeus e muçulmanos são sinceros em suas crenças e no que eles acham sagrado. Temos respeitado, mesmo que discordemos. O falecido Douglas Adams disse em seu costumeiro bom humor, num discurso improvisado em 1998 (ligeiramente abreviado):

Agora, a invenção do método científico é, estou certo que todos concordaremos, a idéia mais poderosa, a moldura mais poderosa para o pensamento, investigação, entendimento e para desafiar o mundo à nossa volta que existe e ela se baseia na premissa de que qualquer idéia existe para ser atacada. Se ela sobrevive ao ataque então ela vive para lutar num outro dia e se ela não sobrevive, desaparece. A religião parece não funcionar dessa maneira. Ela certamente têm idéias em seu âmago que chamamos de sacras, sagradas ou o que quer que seja. O que isso significa é que “há uma idéia ou noção que você não tem permissão para criticar; simplesmente não tem. Por que não? Porque não!”. Se alguém vota num partido com o qual você não concorda, você é livre para falar sobre isso tanto quanto você queira; todos podem fazer uma crítica mas ninguém vai se sentir ofendido com isso. Se alguém acha que os impostos deveriam aumentar ou diminuir você é livre para criticar essa opinião; mas por outro lado se alguém diz “Não devo mexer num interruptor de luz num sábado”, você diz, “Eu respeito isso”.

A coisa estranha é, enquanto digo isso, estou pensando “há um Judeu Ortodoxo aqui que vai se ofender pelo fato de que eu disse aquilo?” Mas eu não deveria ter pensado “talvez haja alguém da esquerda ou da direita ou alguém que concorde com este ponto de vista sobre a economia” quando eu estava argumentando sobre os outros pontos. Simplesmente penso “bem, temos opiniões diferentes”. Mas no momento em que digo algo sobre as crenças (vou arriscar o meu pescoço aqui e dizer irracionais) de alguém, então todos ficamos terrivelmente protetores e defensivos e dizemos “não, não atacamos isto, é uma crença irracional, mas a respeitamos”.

Por que deveria ser perfeitamente legítimo apoiar o partido Trabalhista ou o Partido Conservador, Republicanos ou Democratas, este modelo de economia contra aquele, Macintosh versus Windows – mas ter uma opinião sobre como o Universo começou, sobre quem criou o Universo... não, isso é sagrado? O que isso significa? Por que outro motivo protegemos essas idéias senão porque simplesmente estamos acostumados a fazê-lo? Não há nenhuma outra razão, é só uma daquelas coisas que foram surgindo e que uma vez que o ciclo começa, torna-se muito, muito poderoso. Daí, estamos acostumados a não desafiar idéias religiosas mas é muito interessante quanto furor Richard cria quando ele faz isso! Todo mundo fica totalmente frenético com isso porque não se tem permissão para dizer essas coisas. Pois quando você olha para elas racionalmente não há motivo pelo qual essas idéias não devam ser abertas ao debate tanto quanto quaisquer outras, exceto que de alguma forma concordamos entre nós que elas não deveriam ser.

Douglas está morto, mas acho que ele se juntaria a mim ao pedir às pessoas agora para tomar posição e quebrar esse tabu absurdo. O meu respeito pelas religiões abraâmicas desaparece na fumaça e na poeira de 11 de setembro. O último vestígio de respeito pelo tabu desapareceu quando vi o “Dia de Oração” na Catedral de Washington, onde pessoas de fés mutuamente incompatíveis se uniram em homenagem à própria força que causou o problema em primeiro lugar: a religião. É hora das pessoas de intelecto, opostas às pessoas de fé, se levantarem e dizerem “Basta!”. Que o nosso tributo aos mortos seja uma nova resolução: respeitar as pessoas pelo seu pensamento individual, ao invés de respeitar grupos pelo que eles coletivamente foram levados a crer.

Fora os amargos ódios sectários através dos séculos (todos obviamente ainda muito fortes), o judaísmo, o cristianismo e o islamismo têm muito em comum. Apesar da atenuação do Novo Testamento e de outras tendências reformistas, todos os três aliam-se historicamente ao mesmo Deus das Batalhas, violento e vingativo, memoravelmente sintetizado por Gore Vidal em 1998:

O grande mal não mencionável no centro da nossa cultura é o monoteísmo. De um texto bárbaro da Era do Bronze conhecido como o Velho Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – judaísmo, cristianismo, e islamismo. Esta são religiões de um deus celeste. Elas são, literalmente, patriarcais – Deus é o Pai Onipotente – por isso a aversão às mulheres por 2.000 anos naqueles países afligidos pelo deus celeste e seus delegados masculinos terrestres. O deus celeste é um deus ciumento, é claro. Ele exige obediência total de todos na Terra, já que ele é responsável não para uma tribo, mas para toda a criação. Aqueles que o rejeitassem deveriam ser convertidos ou mortos para seu próprio bem.
No The Guardian de 15 de setembro, apontei a crença num pós-vida como a arma chave que tornou a atrocidade de Nova York possível. De maior significância é a profunda responsabilidade pelos ódios que motivaram as pessoas a usar esta arma em primeiro lugar. Expressar tal sugestão, mesmo com a mais cavalheiresca contenção, é convidar um ataque violento de abuso paternalista, como Douglas Adams notou. Mas a crueldade insana dos ataques suicidas e os igualmente perversos, ainda que menos catastróficos numericamente, ataques de “retaliação” em muçulmanos infelizes vivendo nos EUA e Grã-Bretanha, me empurrou além da cautela usual.

Como posso dizer que a religião é a culpada? Realmente imagino que, quando um terrorista mata, ele é motivado por um desacordo teológico com sua vitima? Realmente penso que os que põem bombas em pubs na Irlanda do Norte diz a si próprio “tomem isto, seus bastardos Tridentinos Transubstancionistas!”. É claro que não penso nada disso. A teologia é a última coisa nas mentes de tais pessoas. eles não estão matando devido à religião em si, mas devido a injustiças políticas, muitas vezes justificadas. Eles estão matando porque o outro lado matou seus pais. Ou porque o outro lado expulsou seus bisavós de suas terras. Ou porque o outro lado oprimiu o nosso lado economicamente por séculos.

O que quero salientar não é que a religião em si seja o motivo para guerras, assassinatos e ataques terroristas, mas que a religião é o rótulo principal, e o mais perigoso de todos, pelo qual “eles”, que se opõem a “nós” podem ser identificados. Não afirmo nem mesmo que a religião é o único rótulo pelo qual identificamos as vítimas do nosso preconceito. Há também a cor da pele, língua e classe social. Mas freqüentemente, como na Irlanda do Norte, isso não se aplica e a religião é o único rótulo divisor que existe. Mesmo quando não está sozinha, a religião é quase sempre um ingrediente incendiário na mistura.

Não é exagero dizer que a religião é o dispositivo rotulador de inimigos mais inflamatório da historia. Quem matou seu pai? Não foram os indivíduos que você está prestes a matar em “vingança”. Os próprios culpados já desapareceram além da fronteira. As pessoas que roubaram a terra de seu avô morreram de velhice. Você aponta sua vendeta àqueles que pertencem à mesma religião dos perpetradores originais. Não foi Seamus quem matou o seu irmão, mas foram os católicos, então Seamus merece morrer “em retribuição”. Em seguida, foram protestantes que mataram Seamus, então vamos sair e matar alguns protestantes “como vingança”. Foram muçulmanos quem destruíram o World Trade Center então vamos descontar no motorista de táxi de Londres que usa um turbante e deixá-lo paralisado do pescoço para baixo.

Os ódios amargos que agora envenenam a política do Oriente Médio têm origem no erro real ou alegado e estabelecer um Estado Judeu em uma região islâmica. Em vista do que os judeus tinham passado, deve ter parecido uma solução justa e humana. Provavelmente a profunda familiaridade com o Velho Testamento deve ter dado aos que tomaram as decisões na Europa e nos EUA a idéia de que aquela realmente era a “pátria histórica” dos judeus (embora as histórias horríveis de como Josué e outros conquistaram seu Lebensraum possa ter causado assombro). Mesmo que não fosse justificável naquele tempo, sem dúvida pode-se argumentar com pertinência que, uma vez que Israel existe agora, tentar reverter o status quo seria mais errado.

Não quero me aprofundar nessa questão. Mas se não fosse pela religião, o próprio conceito de um estado judeu não teria significado em primeiro lugar. nem o próprio conceito de terras islâmicas, como algo a ser invadido e profanado. Em um mundo sem religião, não teria havido as Cruzadas; ou a Inquisição; nenhum pogrom anti-semita (as pessoas da diáspora teriam há muito tempo se misturado tornando-se indistinguíveis das populações hospedeiras); nenhuma perturbação na Irlanda do Norte (nenhum rótulo para distinguir as duas “comunidades” e nenhuma escola sectária para ensinar ódios históricos às crianças – eles seriam simplesmente uma única comunidade).

Vamos dar nome aos bois. O Imperador está nu. É hora de parar com os eufemismos vacilantes: “nacionalistas”, “legalistas”, “comunidades”, “grupos étnicos”. “Religiões” é a palavra que você precisa. “Religião” é a palavra que você está hipocritamente tentando evitar.

Um parênteses, a religião é incomum entre os rótulos divisores por ser espetacularmente desnecessário. Se as crenças religiosas tivessem qualquer evidência a seu favor, teríamos que respeita-la mesmo sendo desprazeroso. Mas não existe tal evidência. Rotular pessoas como inimigos merecedores da morte devido a discordâncias sobre a política do mundo real é ruim o bastante. Fazer o mesmo por discordâncias sobre um mundo ilusório habitado por arcanjos, demônios e amigos imaginários é tragicômico.

A permanência dessa forma de ilusão hereditária é tão assombrosa quanto sua falta de realismo. Parece que o controle do avião que caiu em Pittsburgh foi provavelmente tomado das mãos dos terroristas por um grupo de bravos passageiros. A esposa de um desses homens heróicos e valorosos, após receber o telefonema no qual ele anunciava sua intenção, disse que Deus o havia posto no avião como Seu instrumento para evitar que o avião caísse na Casa Branca. Tenho a maior consideração por essa pobre mulher em sua perda trágica, mas apenas pense a respeito! Como o meu correspondente americano (compreensivelmente perturbado) que me mandou esse trecho do noticiário disse:

“Deus não poderia simplesmente ter dado aos seqüestradores um ataque do coração ou qualquer coisa assim ao invés de matar todas aquelas boas pessoas no avião? Acho que ele não dava a mínima para o WTC, não se deu ao trabalho de bolar um plano para eles." (Peço desculpas pela linguagem intempestiva da minha amiga mas, nessas circunstâncias, quem pode culpá-la?)
Não existe uma catástrofe terrível o bastante para balançar a fé das pessoas, em ambos os lados, sobre a bondade e poder de Deus? Nenhuma ligeira percepção de que ele pode não estar lá, absolutamente: que possamos estar simplesmente por conta própria, tendo que lidar com o mundo real como adultos?

Billy Graham, o conselheiro espiritual do Sr. Bush, disse na Catedral de Washington:

Mas como entendemos uma coisa dessas? Por que Deus permite que um mal como esse aconteça? Talvez seja o que vocês estão perguntando agora. Vocês podem mesmo sentir raiva de Deus. Quero lhes assegurar que Deus entende esses sentimentos que vocês possam ter.
Bem, isso é generoso da parte de Deus, devo dizer. Tenho certeza que os enlutados se sentem muito melhor (a parte patética é que provavelmente se sentem!). O Sr. Graham continuou:
Me perguntaram centenas de vezes em minha vida o por que de Deus permitir a tragédia e o sofrimento. Devo confessar que realmente não conheço a resposta totalmente, mesmo para a minha própria satisfação. Tenho que aceitar, pela fé, que Deus é soberano, e que Ele é um Deus de amor e misericórdia e compaixão em meio ao sofrimento. A Bíblia diz que Deus não é o criador do mal. Ela fala do mal como um “mistério.”
Menos confusos por este profundo mistério teológico estava dois dos mais bem conhecidos tele-evangelistas dos EUA, Pat Robertson e Jerry Falwell. Em uma conversa no lucrativo programa de TV de Robertson (a religião é isenta de impostos), eles sabiam exatamente onde estava a culpa. A coisa toda foi obviamente causada pelo pecado dos EUA. Falwell disse que Deus havia protegido os EUA maravilhosamente por 225 anos, mas agora, com o aborto e os gays e lésbicas e a ACLU (American Civil Liberties Union – União Americana para as Liberdades Civis), “todos os que tentaram secularizar os EUA... aponto o dedo para os seus rostos e digo que vocês contribuíram para que isso acontecesse”, “Bem, concordo totalmente”, respondeu Robertson. Bush, para seu credito, rapidamente desautorizou esse exemplo característico da mente religiosa em funcionamento.

Os Estados Unidos são o país mais religioso do mundo Ocidental, e seu líder cristão renascido está cabeça com cabeça com as pessoas mais religiosas da Terra. Ambos os lados crêem que o Deus das Batalhas da Idade do Bronze está do seu lado. Ambos assumem riscos com o futuro do mundo numa fé fundamentalista inabalável de que Ele vai lhes assegurar a vitória. Incidentalmente as pessoas falam dos Fundamentalistas Islâmicos, mas a costumeira gentil distinção entre o Islã fundamentalista e o moderado foi convincentemente demolida por Ibn Warraq em seu bem informado livro, Why I Am Not a Muslim.

A psique humana tem duas grandes doenças: a vontade de tomar vingança através das gerações e a tendência para colar rótulos coletivos nas pessoas ao invés de vê-los como indivíduos. A religião abraâmica sanciona fortemente a ambas – e se mistura explosivamente com ambas. Apenas a cegueira voluntária poderia evitar implicar a força divisora da religião na maioria, senão em todas, as inimizades violentas do mundo hoje. Sem dúvida ela é o principal agravante no Oriente Médio. Aqueles de que têm, por anos, polidamente conciliado o nosso desprezo pela perigosa ilusão coletiva da religião precisamos tomar posição e falar claramente. As coisas são diferentes agora: “Tudo mudou, mudou completamente”.

***

Escrito para a Freedom From Religion Foundation (http://www.ffrf.org), Madison, Wisconsin, Setembro de 2001.

Richard Dawkins é professor no Public Understanding of Science, University of Oxford, e autor dO Gene Egoísta, O Relojoeiro Cego e Desvendando o Arco Íris.

"Será que poderíamos utilizar seres humanos normais e persuadi-los a acreditar que não morrerão em conseqüência de atirar um avião em vôo contra um arranha-céu?...Oferecemos-lhes um atalho para o Grande Oásis no Céu, aquele sempre refrescado por fontes eternas, pois jamais atrairíamos o tipo de jovem que queremos com harpas e asas de anjo. Temos de dizer-lhes que os mártires receberão a recompensa especial de 72 noivas virgens, todas interessadas e exclusivas

"Será que cairiam nessa? Sim. Jovens do sexo masculino, inundados de testosterona, e feios demais para atrair uma mulher neste mundo, podem estar desesperados o suficiente para apostar em 72 virgens para uso privado no outro. . . .

"Dê-lhes um livro sagrado e faça com que o recitem de memória... Por sorte, temos em mãos um sistema exatamente assim: um método de controle da mente aperfeiçoado através dos séculos, e transmitido de geração a geração. Milhões de pessoas foram educados em sua doutrina. Chama-se religião... tudo o que precisamos agora é reunir alguns desses fanáticos da fé e dar-lhes lições de vôo.

"... Estou tentando chamar a atenção para o elefante na sala, esse mesmo que ninguém nota por educação ou devoção: a religião, ou, mais especificamente, o efeito depreciador que a religião tem sobre a vida humana... a religião ensina a absurdidade perigosa de que a morte não é o fim. . . .

"Não há dúvida de que o cérebro suicida e obcecado pela vida após a morte é uma arma poderosa e perigosíssima. . . .

"Religião é também a fonte fundamental da discórdia no Oriente Médio. Foi o que motivou o uso dessa arma letal... encher o mundo de religião, ou religiões do tipo abraâmico, é como forrar as ruas de armas carregadas. Não se surpreendam se forem usadas.” --Richard Dawkins, The Guardian, 15 de setembro de 2001

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.ffrf.org/dawkins.html
  • Traduzido por: Arnaldo Elias
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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