Atheos Publicado: 11/10/2001
Atualizado: 26/01/2002
A ESCOLHA DO ATEÍSMO

de Francisco Prosdocimi


Ser ateu é provocar grande polêmica, mesmo nos dias de hoje. Se considerarmos que toda a crença em entidades não fisicamente observáveis exige uma aceitação não racional de sua existência (fé), acredito que se deva tomar uma opção coerente com relação à aceitação ou não-aceitação de todas elas. Esse argumento chave tentará, seguindo premissas lógicas, mostrar porque a opção do ateísmo e do ceticismo é mais lógica do que a fé ou do que a dúvida.

Antes de entrar no argumento principal gostaria de comentar que ninguém realmente se preocupa se uma pessoa é católica, budista, espírita ou evangélica. Ter uma religião, qualquer que seja, parece ser um comportamento bem aceito na sociedade de hoje. Entretanto, a falta de religião é vista como um radicalismo extremo, algo impensado e sem razão, afinal, como uma pessoa pode viver sem ter fé? O paradoxo é que é a fé que exige a falta de razão de um indivíduo.

A fé é a crença máxima que uma pessoa pode ter sem que, para isso, necessite de qualquer prova ou fundamento. Eu posso ter fé que Adão e Eva existiram ou que existe o coelhinho da páscoa, papai-noel ou Deus. Em que esses exemplos são diferentes? No ponto de vista de um cético, nada. Afinal várias pessoas afirmam já terem visto papai-noel ou Deus, entretanto não temos qualquer prova física e irrefutável da existência (ou não-existência) de nenhum deles. Acho que a principal queixa contra o ateu é o fato de que os crentes os vêem como uma pessoa maligna e sem princípios, esquecendo-se que é possível ter uma moral e uma ética sem ter uma religião.

Observando a história da humanidade podemos ver que muitos fenômenos naturais, antes de serem explicados cientificamente, eram tidos como obras de Deus. Em tempos mais remotos, os homens rezavam para que o sol nascesse no dia seguinte, índios dançavam para os Deuses da chuva e se amedrontavam com a fúria deles durante eclipses e outros fenômenos naturais. De fato, se você realizar bastante a dança da chuva, com certeza irá chover algum dia (mas será mais fácil se você o fizer no verão).

Diversos mitos também foram aos poucos caindo por terra, logo que ficavam ridículos e completamente fora da realidade de seus tempos. Quem, nos dias de hoje, acreditaria realmente em uma pessoa que viu um duende, um minotauro, um elfo ou a fada sininho? A única coisa que as pessoas hoje em dia podem acreditar ou ver, para ao menos serem levadas em consideração, são espíritos e alienígenas (ou OVNIs). Mas há uma boa diferença entre esses dois seres. Os espíritos se enquadram no mesmo grupo onde já estão os duendes, unicórnios, dragões, papai-noel e Deus, ou seja, não se pode provar que existam ou que não existam. Já os alienígenas são realmente mais bem cotados, pois podem existir fisicamente e, portanto, não exigem que formulemos novas leis e conceitos científicos ou psicológicos para explicar sua existência. Entretanto parece que a grande maioria dos relatos sobre OVNIs e alienígenas são bastante incompletos e inconclusivos, o que os leva, nesse momento, para dentro do mesmo grupo anterior, constituído daqueles seres nos quais não se prova, ainda, a existência ou inexistência.

Portanto considero que a escolha do ateísmo é, por si só, uma escolha coerente. Por que acreditar em Deus, mas não acreditar em elfos, duendes, fadas, vampiros, no capeta ou qualquer outro ser que eu acabar de inventar? Para todos eles não há nada que comprove ou não suas existências. Acredito que uma pessoa com um mínimo de coerência vai concordar que existem apenas duas opções racionais nesse caso: ou acredita-se em tudo pela fé, ou duvida-se de tudo até que alguém prove o contrário.

Portanto chegamos agora a um ponto chave da questão do ateísmo. Da mesma forma que não se pode provar que Deus existe, não se pode provar, por outro lado, que Ele não exista. Devemos abrir um parêntese nesse momento para discutir a dificuldade que existe em provar uma negação. Poderíamos facilmente provar que dragões existem se, para isso, encontrássemos apenas um exemplar em algum lugar e pudéssemos examiná-lo de forma completa, certificando não se tratar de uma fraude. O que é realmente impossível provarmos é a não existência de dragões, já que eles poderiam existir em qualquer lugar ainda não explorado, seja aqui mesmo na Terra, nas luas de Júpiter ou Saturno, ou em algum lugar fora do sistema solar. A questão intrigante que se observa nesse fato é que os crentes sempre exigem que o ateu lhes dê uma prova da inexistência de Deus, sendo que, o mais simples, seria provar a sua existência.

Mesmo considerando que seria mais fácil provar a existência do que a inexistência não temos, no momento, qualquer prova de nenhuma das duas e, portanto, poderíamos pensar que a opção ideal e mais inteligente fosse, simplesmente, não ser nem ateu, nem crente, poderíamos ficar em cima do muro, não acreditando nem desacreditando. Essa filosofia de vida tem um nome, é a agnose. O agnosticismo está relacionado à negação das crenças e o agnóstico é um indivíduo que está definitivamente em cima do muro e não toma qualquer partido de uma ou outra causa.

Entretanto gostaria de argumentar que o ateísmo é realmente uma opção mais racional do que o agnosticismo. O agnóstico está sim em cima do muro com relação à existência de Deus, mas, se for coerente, deve também estar em cima do muro com relação a todos os outros seres místicos dos quais não se prova a existência ou não, incluindo o papai-noel.

É importante notar que, quando digo ateísmo, não estou me referindo ao ateísmo dogmático, aquele em que o indivíduo nega a existência de Deus de forma categórica e radical (se igualando, de forma contrária, aos teístas). Defendo o ateísmo não-dogmático, que duvida da existência de Deus até que se encontre alguma prova irrefutável desta. Se algum dia me apresentarem de uma prova irrefutável de que Deus existe desistirei de meu ateísmo e me tornarei crente.

Acho que o mais fundamental com relação às crenças é o fato de se tomar uma atitude coerente com relação a todas elas, pois, na verdade, elas se baseiam no mesmo princípio. Portanto, parece-me que a opção mais coerente é manter-se cético com relação a qualquer tipo de crença não comprovada, até que essa crença seja de fato comprovada. Afinal, se um dia eu for capaz de ver um velhinho voando num trenó, puxado por renas, vestido de vermelho, cheio de presentes e falando “Hohoho”, minha crença mudará automaticamente e acreditarei na existência do papai-noel.

***

Francisco Prosdocimi Santos é técnico em informática pelo CEFET-MG e estudante do 8º período do bacharelado em genética do curso de ciências biológicas da UFMG. Trabalha em bioinformática como estagiário de iniciação científica no laboratório de Genética Bioquímica do ICB-UFMG.

Comentários

Waldir Sousa - waldirsousa@bol.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 19/01/2002

1) Muito bom o texto apresentado pelo Francisco.
2) Faço apenas uma ressalva sobre o trecho em que ele espera que algum dia alguém apresente uma prova irrefutável sobre a existência de deus, para que a partir daí se torne um crente. Considero isto uma vã esperança.
3) É possível que alguém apresente alguma prova sobre a existência das fadas? Claro que não, elas pertencem ao terreno das fantasias.
4) Analogamente, os deuses pregados pelas religiões (cristianismo, hinduismo, umbandismo, etc.) também pertencem ao terreno da fantasia; e, consequentemente, da mesma forma que nao é possível encontrar uma prova sobre a existência das fadas, jamais se encontrará também uma prova para a existência de qualquer deus.
5) Existe uma fonte para toda matéria do Universo. Podemos até denominar esta fonte de "deus". Mas, qualquer um que acompanhe de perto o avanço das ciências (física, astronomia, biologia, etc.) é capaz de perceber que esta fonte nada tem a ver com qualquer um dos deuses pregados pelas religiões.
6) Um dia compreenderemos melhor as características físicas desta fonte; mas, é vã a esperança de identificá-la com um deus, seja ele antromórfico ou zoomórfico.

Milton Bins - profbins@terra.com.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 18/12/2001

Além de ser ateu, por motivos racionais, gosto de sê-lo! Se Deus existisse, seria o mais formidável dos monstros imagináveis. Pois, se onisciente e onipotente - podendo modificar o Universo, instantaneamente e sem esforço - permite o sofrimento de um único inseto que seja, tal ser seria uma monstruosidade absoluta! P.S. Disse inseto para que não me venham com a conversa de que o ser humano merece o que sofre, etc. Todos os animais são inocente e muitíssimo sofrem eles no cego e implacável processo da predação, das doenças e da seleção natural.

robson - robsonmania@bol.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 07/11/2001

Ok.. vamos parar de rotulamentos e vamos ser quem nós somos.. seja lá quem for agnóstico, ateu, crente etc.. seja VC MESMO! nao seja o que os outros querem que vc seja... siga vc

Rafael Prosdocimi - rpros@bol.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 02/11/2001

Acho que a questão da fé em si é uma questão muito delicada, pois é muito dificil para qualquer um acreditar e ver sentido em ser simplesmente um mamifero , um animal lutando pela sua sobrevivencia e pela perpetuação de sua prole .
O fato de acreditar em deus e algo que da seguranca ,que mantem a sociedade unida , a religiao sem duvida é o ópio do povo , ela cega a realidade pessoal , e uma poderosa arma no dominio das massas ,mas o fato de se dizer eu sou ateu o que significa ?
Quer dizer que o ateu e aquele que nunca viu deus ,se um ateu ver deus ele passa então a acreditar?
mas a percepção humana não é algo que é totalmente falho, algo que passa dentro do cerebro do homem que é cheio de fantasias e incognitas, se o fato de querer ver deus para muitos é o bastante para que em cada coincidencia se veja uma atitude divina ,para o ateu acontece o mesmo ao contrario ele acredita tão piamente que tudo na vida pode ser explicado de forma racional e única ,então ele realmente acredita nisso,então o ceticismo passa tambem por uma questão de crença,pois antes de querer provar para poder acreditar o ateu , o cetico não quer acreditar. Ele não quer acreditar de forma alguma pois o fato de não poder provar algo o faz ver o quanto é pequeno,então ele se une em torno de seus iguais , sente a segurança de acreditar nas mesmas coisas que outros e ainda ser "do contra" tenta catequizar o resto pois o cetico acha que sabe a verdade e é ai que ele se une a todas as outras religiões .
O grande problema do cetico e acreditar que a religiao e ruin pois nela não há provas,mas nao perceber que a religiao e pir pois tenta planificar e de forma egoista monopolizar a verdade.
Eu apesar de não ser ateu acho que sem duvida ser ateu e um exercicio de inteligencia e criatividade , gostei muito do texto do Francisco que alias e meu primo ,acho que o ateu antes de tudo repensa o mundo a sua maneira e ve belezas e sentido onde muitos nada vêem e acho sempre um prazer dscutir com ele.

Gilberto Gianini - gilbertogianini@hotmail.com - Paraná Paraná, enviou em 25/10/2001

Muito boa a apresentação.
É importante o esclarecimento dos princípios da filosofia ateísta, desmistificando a imagem maligna atrubuída aos ateus.
Que não é preciso ser escravo de uma religião para ser um homem bom, guiado pela ética baseada na lógica e na retidão de caráter e não na ameaça de castigos terríveis.
Só lamento que os religiosos não sejam capazes de compreende-lo.

Luiz Estima - luizestima@ig.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 23/10/2001

Texto simples e muito bom.
Mas acho q o q o autor chama de ateísmo dogmático, é o único ateísmo q existe. Sua esperança em ver Papai Noel ou Deus, posso assegurar que não tem a menor chance de se concretizar

Humberto Quaglio - hquaglio@zaz.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 15/10/2001

Saudações

Quero parabenizar o autor. Realmente me agradou muito a leitura deste texto, bem escrito, claro, com uma argumentação coerente e acertada. Sou capaz de dizer que concordo com tudo o que foi escrito aqui, com uma exceção: as referências aos agnósticos. Há muito tempo me considero agnóstico, e não ateu. Lendo este texto, porém, vejo que minha posição é a mesma do autor, exatamente a mesma. Só que o que ele chama "ateísmo não-dogmático", eu sempre chamei de agnosticismo, e o que ele chama "ateísmo dogmático", eu sempre chamei, simplesmente, de ateísmo. É estranho, mas se eu for levar em conta a minha descrença em papai noel, elfos, duendes, e a minha igual descrença no deus onipotente descrito por muitas religiões, especialmente o cristianismo, posso dizer, usando a classificação do autor deste texto, que sou ateu. Realmente penso que tais coisas não existem, até o momento que o contrário for provado (e eu acho que este momento nunca vai chegar). Porém, se eu for levar em conta a minha dúvida quanto à existência de algo que possa vir a ser descoberto, ou inferido pela razão, que se aproxime da idéia de uma divindade, então sou agnóstico. Sempre pensei que só poderia me declarar ateu se eu pudesse dizer claramente: "tenho certeza da não-existência de algo que possa vir a ser chamado de divindade". Por isso sempre me declarei agnóstico. Realmente, se há uma fronteira entre agnosticismo e ateísmo, estou bem próximo de cruzá-la. Creio sinceramente que não existe nada que possa ser sequer parecido com uma divindade. Mas não posso dizer: "tenho certeza absoluta disto". Por isso, acho que muitas pessoas que se declaram ateus são para mim agnósticas. E talvez eu mesmo, que me declaro agnóstico, seja visto como ateu por estas pessoas. Por isto, acima destas classificações e divisões, vejo que há uma proximidade de ideais muito grande entre ateus e agnósticos, e há muitos motivos para eles se sentirem unidos em torno de uma mesma causa, a da divulgação da razão e do pensamento crítico.

  • O ensaio base original está disponível em http://www.icb.ufmg.br/~franc/cool/ceticismo/coerencia.htm
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.