Publicado: 01/11/2001
de Luis Fernando Verissimo
Confesso que me sinto seguro quando alguém faz o sinal da cruz perto de mim, num avião. Gosto de pensar que, se Deus precisar interferir, não discriminará entre crentes e descrentes e eu entrarei de carona na fé do outro. Mas isso (como tudo) é relativo. Contam que um passageiro cutucou o que viajava ao seu lado, durante uma decolagem, e indicou um terceiro, que acabava de se benzer. - Olha só aquele. Fazendo o sinal da cruz... - Quequitem? - Francamente. Como se fizesse alguma diferença. - Pois eu acho um gesto bonito. Uma demonstração de religiosidade bonita. E quem nos assegura que não faz diferença? - Entre todas as variáveis que mantêm um avião no ar, a aerodinâmica, etc., quem nos garante que a vontade de Deus não é importante, e que uma oração na hora certa não era só o que faltava para Ele dar Sua atenção a este avião, neste vôo? Vocês, ateus e agnósticos, aceitam coisas muito mais improváveis e milagrosas do que a existência de Deus, como a existência do próprio ar que não se vê e no entanto é o que nos faz voar, mas não... Meu Deus! - O que foi? - A porta da cabine está aberta e eu acabei de ver o piloto. - E daí? - Ele estava fazendo o sinal da cruz! Quer dizer, tudo depende. |