Mozart Hasse Publicado: 27/02/2001
Atualizado: 27/02/2001
PROFECIAS OU CHARLATANISMO?

de Mozart Hasse


Volta e meia surgem dúvidas, mesmo entre ateus e céticos, se as ditas "profecias bíblicas" são precisas ou parcialmente corretas. Para saber se quem faz uma profecia é um charlatão ou simplesmente um drogado, é muito fácil. Eis as indicações gerais de que o profeta não vale nada:

Ausência de Datas

Se é uma previsão, o mínimo que se espera é que se diga quando vai acontecer. Idiotices como "antes do apocalipse" ou "no amanhecer do novo mundo" são meras ilustrações literárias e não podem ser consideradas datas. O exemplo clássico é o charlatão da esquina dizer que enxerga a morte de um ente querido na sua vida e te cobra para chutar quem é. É óbvio que 99% dos seres humanos gostam de outras pessoas e é mais óbvio ainda que alguém morra mais cedo ou mais tarde. Quedas de governos ou invasões de cidades são inúteis sem datas. Você consegue imaginar um país que NUNCA tenha se metido numa guerra desde o início dos tempos? Pois bem, pode-se concluir que a probabilidade de um território de qualquer lugar do mundo se meter em uma encrenca no próximo milhão de anos é de no mínimo 100% se a raça humana continuar existindo. A intenção do charlatão neste caso é colocar o tempo a favor do profeta. Quanto mais tempo levar para alguém achar uma correlação entre a previsão e a realidade, mais créditos o profeta terá.

Ausência de Identificação

Já notou que nenhuma previsão que pareça ter se realizado especifica as vítimas ou os autores dos fatos associados? Por exemplo "Um alto funcionário de um governo democrático cujo nome tem a letra E" pode se referir quase metade de todos os políticos que já existiram sobre a face da Terra. Outro exemplo: uma previsão para hoje sobre "uma mulher de cabelos longos" só precisa de UM acerto em DOIS BILHÕES de tentativas (este é o número aproximado de mulheres de cabelos longos no mundo). Às vezes a chance de uma profecia sem identificação ser realizada é maior do que ERRAR a Megasena. O objetivo de não identificar participantes da profecia é aumentar as chances de que ela sirva para alguém.

Linguagem Dúbia

Profeta "competente" jamais diz "fulano vai morrer", mas algo como "profunda tristeza assolará os que conheceram fulano, que fez longa viagem e jamais voltou...". A primeira frase é facilmente verificável, mas a segunda pode ser verdadeira tanto para um falecido ator famoso quanto para um ladrão que viajou para as bahamas. A intenção da linguagem dúbia não é tornar o texto mais bonito, e sim embromar para demonstrar suposto conhecimento, além de aumentar as chances de que a previsão logo seja associada a algum evento sem importância.

Palavras Desconexas

Esta é a evolução da técnica da linguagem dúbia. Ao criar frases sem sentido, o profeta consegue muito mais interpretações, pois qualquer sinônimo de qualquer palavra parecida com os termos usados na previsão podem se encaixar. Isto também é aplicado em outras áreas de conhecimento. Veja-se por exemplo o caso de um diretor de teatro ou de cinema que cria textos totalmente absurdos, cheios de cenas desconexas, e ao invés de ser chamado de idiota é aclamado porque não saem duas pessoas contando a mesma história sobre o que assistiram.

Apoio em Entidades Sobrenaturais

Não há profeta que dispense esta alternativa. Quem acreditaria num velho moribundo que passava o tempo olhando para uma bacia d'água enquanto fumava umas ervas? O profeta nunca sabe de nada, sempre é "o escolhido" de alguma autoridade espiritual para revelar ao mundo segredos extremamente confidenciais. O incrível é que os segredos "revelados" continuam confidenciais, pois ninguém sabe quando a referida profecia vai se realizar. Os que falam com os mortos sempre escolhem alguém famoso, que se preocupou com a sociedade durante a vida. A citação da fonte quase sempre vem acompanhada de olhos esbugalhados e gritos para tornar a autoridade citada mais respeitável.

Olhando-se as previsões da bíblia, pode-se constatar que todas elas usam pelo menos dois dos artifícios acima, quando não todos. Além do mais, com absurdos como a Arca de Noé ou a Torre de Babel, não é de se admirar que alguém acabe associando algum fato narrado a eventos posteriores.

  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.