Publicado: 26/08/2001
de Marisa Luisa Alba Bustos
Notarás, Agnes, que há alguns dias enquanto nos despedíamos ficou uma pergunta no ar. A alma, que é a alma?, perguntaste. Recordas-te? Não, então não tive tempo de te responder o que penso sobre a alma, por isso te escrevo esta carta, para te dizer quais são as minhas idéias sobre ela. Perdoa-me se me mostro um tanto céptica sobre a sua existência, mas parece-me que é uma das grandes mentiras que, na sua ignorância, o homem inventou. Uma idéia sobre a qual se construíram todo o tipo de crenças. Não, não creio que tenha sido uma mentira intencional, simplesmente que ao não saber catalogar todos os fenômenos que acompanham a nossa existência, ocorreu a alguém chamar alma a esse conjunto de fenômenos. O corpo físico era fácil de ver, de apalpar, de captar. Mas havia uma série de fenômenos estranhos que não eram fáceis de entender; pensamentos, sentimentos, razão, intuição, imaginação. Uma série de capacidades que nos distinguia das demais espécies e que no nosso orgulho e prepotência nos fez sentirmos superiores a elas. Esse sentimento de superioridade foi o que nos levou a dotarmo-nos de alma. Não nos convinha nem nos interessava considerarmo-nos só animais com evolução e capacidades distintas. Não era suficiente para o nosso orgulho de humanos, necessitávamos de algo que justificasse o nosso domínio sobre o resto das espécies, algo que nos fizesse não só distintos mas também superiores. E com a nossa imaginação criamos a alma. Também sobre ela alguém concebeu a idéia de que era eterna, que saía das mãos de Deus, e às suas mãos regressava depois da morte. Não nos interessava, nem nos interessa, pensar que depois de mortos desaparecemos através de um processo mais repugnante, como o resto dos animais, como o resto do seres vivos. Outros, com não menos fantasia, imaginaram que se reencarnava, que a alma vivia encarnações sucessivas, usando corpos distintos até chegar a uma vida perfeita e já livre de reencarnações. São muito variados os usos que uns e outros fazem daquilo que habitualmente chamamos alma. O triste é que muitos desses usos não servem para outra coisa senão acorrentar-nos. A nossa alma imortal não nos serve senão para que outros nos imbuam e dominem com as crenças que lhes interessam a eles. Temos de ser "bons" para que a nossa alma se aperfeiçoe e chegue finalmente a Deus, ou para interromper o ciclo de reencarnações, o que nos permitirá gozar a paz eterna em vez de estarmos rodeados das misérias da vida terrena. Mas que significa sermos bons, Agnes? Talvez signifique apenas fazermos aquilo que uns homens, que se autoproclamaram porta-vozes e interpretes de não se sabe bem o quê, dizem que está bem, e evitarmos o que esses mesmos homens dizem que está mal. Compreendes, Agnes? A alma, isso que nos distinguia e nos fazia superiores ao resto das espécies, foi finalmente a corrente com que os poderosos nos ataram as idéias e as crenças que lhes interessavam. Através dela e da sua duração eterna encontraram o caminho para nos dominarem como queriam. Alguns homens não tardaram a dar-se conta de que a alma imortal era demasiado livre, não se ajustava aos seus interesses, havia que submetê-la e dominá-la. Mas não era fácil, uma alma livre pode encontrar tantos conceitos de bem e mal quantos queira. Pode até ir trocando de conceito de bem e mal com o passar do tempo, segundo os seus interesses, segundo as suas vivências. Cada homem tinha e tem os seus próprios conceitos de bem e de mal. A maioria das vezes não há maneira de saber por que uma coisa é melhor que outra, por que uma idéia é melhor que outra. Desta forma nós homens fomo-nos agrupando por afinidade de idéias, por grupos de crenças mais ou menos afins, mas mesmo assim não era tarefa fácil, quem hoje pensava como tu e estava a favor das tuas idéias, amanhã podia deixar de crer nelas, podia até combatê-las. E assim se foi impondo a necessidade de criar os administradores de almas e crenças, os deuses. Os grupos humanos que compartilhavam as mesmas crenças sentiam-se solidários, fortes, poderosos. Era um caminho quase perfeito para dominar e submeter não só os animais mas também outros grupos humanos, arrebatar-lhes o seu território, submetê-los, obrigá-los a fazer o trabalho que ninguém queria fazer por ser cansativo ou humilhante. Precisamos de sentir que pertencemos ao grupo, que as nossas idéias são aceites, compartilhadas e respeitadas pelos demais. E se não podem ser compartilhadas, aceites e respeitadas, sempre podem ser impostas pela força. Mas ainda assim, as idéias e as crenças eram e são demasiado voláteis, basta uma conversa, um argumento novo ou diferente para semear a dúvida, para fazer que uma pessoa que antes cria o mesmo que tu deixe de fazê-lo, ou até chegue a crer no contrário. Que podemos fazer para evitá-lo? É relativamente fácil, Agnes, criarmos administradores de consciências, de crenças, de almas, criarmos deuses. Seres superiores e únicos, tão eternos como as nossas almas para que se pudessem entender diretamente com elas, seres perfeitos, revestidos de uma autoridade moral ilimitada e fazê-los dizer o que nos interessa, que sejam eles os que ditam as normas e os conceitos do bem e do mal que nos convêm a nós próprios. Serão eles os que formam os nossos conceitos de bem e de mal, serão eles os que através de nós imporão as nossas idéias. É fácil desconfiar das idéias dos homens mas é difícil desafiá-las quando os homens dizem falar em nome de deus, ou de deuses. A partir daí, é fácil desqualificar e submeter quem se atreva a desafiar a autoridade desses deuses. Já não desafiará nem as nossas idéias, nem a nossa autoridade, desafiará a autoridade dos deuses, de Deus. A desqualificação está assegurada e compartilhada por todos os fiéis da mesma crença. Aquele que abandona uma crença perde a alma, perde a coisa mais valiosa que tem, perde a categoria de humano, para isso nos havíamos atribuído antes a alma como diferenciadora do resto dos animais. Até fica desqualificado de antemão aquele que, embora não creia no mesmo que os outros, não adquiriu a alma. Ainda assim, Agnes, não era fácil pôr em ordem as crenças e as almas, cada grupo, cada tribo, cada povo tinha as suas próprias, e os seus líderes deitavam mão a elas de cada vez que consideravam isso necessário para os seus interesses, para lançar o seu grupo na batalha e na guerra, para expandir os seus territórios, para conquistar e vencer os que tinham deuses diferentes, os que tinham uma alma diferente, porque parecia, Agnes, que ter uma alma diferente era o mesmo que não ter alma. A única coisa que dota o homem de uma alma verdadeira é crer no mesmo que nós próprios. Todas as outras almas e crenças são falsas. Das lutas que a nossa espécie gerou e padeceu ao longo da sua história sobreviveram uns poucos deuses, na realidade uns poucos administradores de idéias, de almas e de consciências manejados por uns quantos homens que se declaram seus porta-vozes, na realidade não são mais que as idéias que umas poucas pessoas têm sobre o conceito de bem e de mal, umas idéias às quais chamam deuses, e os deuses não são outra coisa senão os instrumentos encarregados de manipular as nossas almas e as nossas consciências. Dessa maneira, a nossa alma, aquilo que inicialmente serviu para nos fazer diferentes e superiores ao resto das espécies, é o que serviu finalmente para nos submeter e controlar. E nesse empenho seguimos, Agnes. Ninguém quer, a ninguém interessa, sentir-se como mais uma espécie, a todos nos convém pensar que somos superiores a elas, a todos nos interessa crer que uma vez mortos a nossa alma nos garantirá a vida eterna em algum sítio que nem sequer sabemos onde está, nem podemos imaginar. E contribuímos de bom grado para a propagação dessa idéia, quanta felicidade nos garantirá para depois da morte. Que bem nos sentimos estando integrados num grupo que compartilha as nossas crenças. E quanto maior for o grupo, melhor, Agnes, isso nos garantirá que não podemos estar todos equivocados. Se as pessoas inteligentes do nosso grupo crêem nisso, não é possível que estejamos enganados. Não importa que a realidade o desminta uma e outra vez, nada importa que todos os dias vivamos experiências que nos dizem que essas crenças não são realidade, nem têm aparência de sê-lo. É melhor crer que essa felicidade que nos é negada aqui na terra será amplamente recompensada depois da morte. Felizmente ninguém jamais ressuscitou para desmentir as suas crenças. E quem sabe, se te perguntarem onde reside a alma humana, a resposta seria a mesma que me dou, no cérebro. Hoje temos poucas dúvidas de que toda essa amálgama de fenômenos que nos caracteriza como humanos reside no nosso cérebro. E de que é feito o nosso cérebro, Agnes? De matéria, dos mesmos átomos, dos mesmos elementos, da mesma matéria que compõe o resto do universo. A mesma matéria organizada de forma diferente, organizada em determinadas estruturas e proporções que permitem que toda essa série de fenômenos se produza. A mesma matéria que entre horríveis explosões cria, em outras partes do universo, galáxias e estrelas; no meu cérebro e no teu gera idéias, pensamentos e sentimentos. Não são mais que qualidades da matéria, por muito imateriais que nos pareçam. Estou segura, Agnes, que se estivesses aqui me perguntarias se o que quero dizer é que se os pensamentos, os sentimentos... em definitivo, a alma, não são mais que manifestações da matéria? Sim, Agnes, assim o considero. Se o nosso cérebro está constituído de matéria e nada mais além de matéria, que outra coisa podem ser? Mas talvez, Agnes, pensar nisso não nos interesse, pensando assim acaba-se a magia, acaba-se o pensamento em criadores superiores que nos dizem o que está bem e o que está mal, talvez pensar assim impeça de novo a busca da verdade sem outro guia que não seja o nosso próprio conhecimento. Talvez nos interesse mais crer naquilo que nos dizem, não importando se é verdadeiro ou falso, já é um enorme caminho percorrido por outros em cuja autoridade nos interessa crer. Talvez saibamos que se não nos enganam uns, enganam-nos outros, e estando decididos a ser enganados, é preferível crer que descendemos de Deus a crer que descendemos do macaco. E finalmente, se chegássemos à conclusão de que a alma eterna não existe, perderíamos o enorme prêmio da vida eterna, se pensássemos que a nossa alma morrerá ao mesmo tempo que o nosso corpo, talvez não encontrássemos sentido na vida. Talvez seja por isso a maioria das pessoas prefere crer que tem alma, uma alma eterna, e que um deus bom e tão eterno como a nossa alma se ocupará dela quando morrermos. Não importa se é mentira, não importa que seja ilógico, só importa manter a esperança, e a esperança é a última coisa que se perde porque não nos interessa perdê-la. Adeus Agnes, já sabes que não existes, és apenas uma personagem criada pela minha mente para poder escrever-te esta carta. Marisa Comentários
Rálamo - jatava@porncity.net - "Por que ainda questiona-se a idéia de que somos feitos de matéria e de nada mais além de matéria? Não há muita dúvida de que, no cotidiano, a matéria e a energia existem. A evidência está em toda parte, ao redor de nós. Por outro lado, a evidência de algo não material, chamado “espírito” ou “alma”, é muito questionável. Sem dúvida, cada um de nós tem uma rica vida interior. No entanto, considerando a estupenda complexidade da matéria, como seria possível provar que aquela não é inteiramente criada por esta? Certo, há muita coisa sobre a consciência humana que não compreendemos plenamente e ainda não podemos explicar em termos de neurobiologia. Os seres humanos têm limitações, e ninguém sabe disso melhor do que os cientistas. Mas muitos aspectos do mundo natural, considerados miraculosos apenas algumas gerações atrás, são agora inteiramente compreendidos pela física e pela química. Pelo menos alguns dos mistérios de nossos dias serão desvendados pelos nossos descendentes. O fato de não podermos ter no momento uma compreensão detalhada dos estados alterados de consciência em termos de química do cérebro não é indicação maior da existência de um “mundo espiritual” do que, antes de conhecermos o fototropismo e os hormônios das plantas, um girassol seguindo o curso do Sol pelo céu era prova de um milagre literal."
Vides Júnior - videsjunior@brfree.com.br - Aplausos para Marisa, |