Publicado: 11/11/2002|
COMO UM ATEU PODE SER ÉTICO? de Dan Barker
Thomas Jefferson Você percebe uma pessoa se afogando num rio. O que você deveria fazer? Se você concorda com Jefferson, deve considerar-se um "animal social" com um "instinto" de compaixão, acreditando você num deus ou não. Se você for um humanista, simpatizará com o sofrimento de outro ser humano. Se você for um cristão, acreditará que a vida da pessoa tem seu valor porque ele ou ela foi "criado à imagem de Deus." Mas qualquer que seja a base de seus valores, ainda terá que decidir: "Devo pular? Você não pode puxar uma lista do seu bolso traseiro para procurar pela "regra 127: o que fazer quando alguém está se afogando." Dilemas comportamentais envolvem um conflito de valores, e na vida real isso significa que eles são sempre circunstanciais. Você não pode simplesmente seguir um código cego: você tem que comparar os méritos das conseqüências de várias ações; e a única maneira de fazer isso é exercitando a razão. Quão longe dentro do rio a pessoa está? Qual a força da correnteza? Eu sou um bom nadador? Você está disposto a causar duas mortes ao invés de uma? Quantas crianças estão sob a sua responsabilidade? Seria desnecessário perguntar, "É ético cair na água?" A única proposta dessa questão irrelevante seria faze-lo sentir virtuoso ou culpado. Talvez sua braveza corra o risco e pule na água. Ou, arrependidamente, você pode concluir racionalmente que a ação mais ética seria não pular no rio, mas nesse caso, correr atrás de ajuda, se possível. Sua base de valores não é importante: os fatos da situação o são. Citando Dostoyevsky: "Se Deus não existe, tudo é permitido", muitos crentes sugerem que apenas os teístas que podem ter valores, embora, como Jefferson, eles certamente sabem que isso não é verdade. Nós ateus somos, assim como os Cristãos, aptos a pular no rio - talvez mais aptos.
"Como um ateu tem conta da existência de valores éticos objetivos?" Nós ateus encontramos nossa base ética, obviamente, na natureza. Onde mais poderíamos procurar? A maioria dos ateus acha que os valores éticos são reais, mas não quer dizer que são "objetivos". Eles não podem ser. Um valor não é uma "coisa" - é um mecanismo mental (que é por si só um mecanismo). Para ser objetivo, é existir independente de uma mente. Então, um "valor objetivo" é uma contradição: a existência na mente de algo que é independente da mente. Embora muitos ateus aceitam a importância da ética, isso não é aceitar que a "ética" existe dentro de um universo, um objeto cósmico esperando para ser descoberto. A palavra "ética" é apenas um rótulo para um conceito, e conceitos existem apenas na mente. Se nenhuma mente existisse, nenhuma ética existiria. A ética é simplesmente a anulação de um mal desnecessário. Uma vez que o mal é natural, sua anulação é um exercício natural. Os organismos sofrem no que eles surgem em seu meio ambiente, e como animais racionais, nós humanos temos algumas escolhas para como isso acontece. Se minimizarmos a dor e melhorarmos a qualidade de vida, somos morais. Senão, somos anti-éticos e amorais, dependendo das nossas intenções. Para sermos morais, os ateus têm acesso a simples ferramentas de razão e cordialidade. Não há nenhum Livro de Código Cósmico dirigindo nossas ações. Claro, relativo à humanidade, certos atos em geral podem ser julgados quase uniformemente certos ou errados. Sem os Dez Mandamentos, teria a raça humana a noção do problema que há em matar? As proibições contra o homicídio e o roubo existiam milênios antes dos Israelenses reivindicarem os direitos autorais. A maneira de ser ético é aprendendo o que causa o mal e como evitar. Isto significa investigar a natureza - especialmente a natureza humana: quem somos, de que precisamos, onde vivemos, como funcionamos e porquê nos comportamos do jeito que somos. Por que deveria tratar meu vizinho cordialmente? Porque somos todos conectados. Somos partes de uma mesma espécie, geneticamente ligados. Desde que dou valor a mim, à minha espécie e às outras espécies com quem somos relacionados. Reconheço que quando alguém é machucado, minha família natural sofre. Pela natureza, aqueles de nós que somos mentalmente saudáveis recompõem-se da dor e desejam ver o término da situação. Essa não é a Regra de Ouro. Confúcio, 500 anos antes do Cristianismo, definiu melhor esse princípio quando disse "Não faça com os outros o que você não quer que façam com você." Embora ainda não seja um princípio amplamente adequado para a ética, é bem melhor do que "faça aos outros", porque identifica a anulação do mal como a chave da ética. Claro que sempre agimos positivamente para sanar a dor dos outros. Isso é compaixão. Ateus podem talvez expressar a compaixão mais facilmente do que os crentes, pois não somos confundidos pelo fatalismo ("o que quer que ocorra, é desejo de Deus"), pessimismo ("Merecemos sofrer"), salvação ("Morte não é o fim"), retribuição ("a justiça prevalecerá no pós-morte"), mágica ("ore por ajuda"), guerra santa ("mate em nome de Deus"), absolvição ("não serei responsabilizado pelos meus erros"), ou glória ("sofrer com Cristo é uma honra"). Uma vez que esta é a vida que nós ateus temos, cada decisão é crucial e somos responsáveis pelas nossas ações agora. Ainda que saibamos como os teístas lidam com o mundo real: "Vós tendes o pobre convosco sempre", disse o "amado" Jesus, que nunca levantou um dedo para erradicar a pobreza, desperdiçando preciosos bálsamos para seu próprio prazer ao invés de distribuir para alimentar os pobres (Mateus 26:6-11). "Eu acho que é muito bonito por parte dos pobres aceitar sua parte, para dividí-la com a paixão de Cristo", disse Madre Teresa. "Acho que o mundo está bem assistido pelo sofrimento das pessoas pobres." Chega da compaixão teísta! Jefferson deve ter errado ao chamar compaixão um "instinto" porque muitos parecem não tê-la - parece uma opção. Mas é bom que há muitos de nós que amam a vida o suficiente para nos proteger daqueles que não amam. Temos sistemas de leis, sanções, justiça e defesa. Nós encorajamos a gentileza, as ações éticas através da educação ética e pensamento crítico. Mas a maioria dos crentes, incluindo os Cristãos que são mandados "trazer à escravidão cada pensamento para a obediência de Cristo", têm uma desconfiança subjacente da razão humana. Ansiosos pelo absoluto, eles percebem o relativismo - o reconhecimento que as ações devem ser julgadas em contexto - como algo perigoso, quando é o único modo de ser verdadeiramente ético. Teístas temem que as pessoas pensem por eles; ateus temem que não falem.
Quando os teístas fazem um caso de "direitos naturais", geralmente apontam para Locke, Jefferson, Paine e outros iluminados pensadores da Idade da Razão. É esclarecedor perceber que eles raramente citam a bíblia. Em nenhum lugar na escritura você encontrará uma declaração de que cada indivíduo tem um "direito inalienável" de ser tratado com justiça e respeito, "nós, as pessoas" somos capazes de governar nossas vidas. Não há democracia no "mundo de Deus". Na bíblia, humanos são "vermes" e "pecadores" merecedores da condenação, "escravos" que deveriam humildemente submeter-se a todos os reis, do céu ou da terra. Advogando o "consentimento do governado" sobre a autoridade de um soberano, a Declaração de Independência é desavergonhadamente anti-bíblica. Nós americanos somos um povo orgulhoso e rebelde que lutou em uma guerra revolucionária chutando o rei e o mestre para fora de nossos negócios; e para provar isso, produzimos uma constituição sem deus, a primeira a separar igreja de Estado. Mas muitos americanos cristãos vêem isso de forma diferente: "Jefferson fora influenciado por Darwin ou por Locke?", escreveu Clifford Goldstein, editor da Revista adventista do sétimo dia Liberty Magazine, "As visões de Joseph Stalin sobre a liberdade religiosa foram julgadas progressivas." Em um "universo Darwiniano", argumenta Goldstein, a verdade descansa "em uma base tão excêntrica quanto o eleitorado ou o qualquer déspota que por acaso esteja em controle." Oh, mas como a verdade acontece no "universo ateísta" onde o déspota chama-se Jeová? O Deus da escritura massacrou grupos inteiros de pessoas que ofenderam sua vaidade, mandando jovens virgens serem mantidas vivas como presas de guerra para seus sacerdotes (números 31). "Bem aventurado o que apanhar às mãos e fizer em pedaços contra uma pedra teus filhinhos", ele avisou (Salmo 136:9), ameaçando aqueles de uma religião errada que "Pereçam ao fio da espada, e sejam esmagados os seus meninos, e sejam abertos os ventres das mulheres prenhes" (Oséias 14:1), mandando ursos atacarem 42 crianças que irritaram um profeta (II Reis 2:23-24), punindo uma prole inocente até a quarta geração (Êxodo 20:5), discriminando os deficientes físicos (Levítico 21:18-23), prometendo que pais e filhos comeriam uns aos outros (Ezequiel 5:10) e muito mais do que acharíamos repugnante em um ser humano. Nesse universo teísta, a ética é somente para bajular o Soberano. Se num sábado, por exemplo, você vê um homem pegando madeira para aquecer a sua família, como um Cristão comandado para guardar o sábado, o que você faria? De acordo com Números 15:32-36, deveria apedrejá-lo até a morte! Isto não é extravagante? Jesus incorporou a escravidão em suas parábolas como se fosse a coisa mais natural, apenas aconselhando os senhores a baterem em seus escravos com menos severidade que com outros (Lucas 12:46-47). O culto aos Portões do Céu aceitou o aviso de Jesus: "e há eunucos a quem os homens fizeram tais; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino dos céus." (Mateus 19:12). Isto é um bom conselho? Há alguns bons ensinamentos na bíblia, claro, mas há um jardim bonito o suficiente que possa esconder as ervas daninhas? Jefferson achou que a maioria das palavras de Jesus eram insultantes, embora tenha apontado alguns poucos bons ensinamentos, "facilmente distinguidos assim como diamantes em um monte de estrume".(Para Adams, Out. 1813). Goldstein teve de trás pra frente. Tivesse Jefferson sido influenciado por Jeová ao invés de Lucas, a visão de Adolf Hitler a respeito da liberdade religiosa teria sido considerada progressiva! Hitler permitiu que o Darwinismo fosse distorcido para uma proposta política, enquadrando a evolução de uma maneira "social" não intencionada por Darwin, mas não foi o darwinismo que deu ao teísta Hitler a sua base ética. "Estou convencido que estou agindo como um agente de nosso Criador. Lutando contra os Judeus, estou fazendo o trabalho do Senhor" (Mein Kampf), Hitler creditou a Jesus como sendo sua inspiração. Numa celebração natalina-nazista de 1926, ele ostentou que "Cristo foi o maior lutador antigo na batalha contra os inimigos do mundo, os Judeus...O trabalho que Cristo iniciou mas não pode acabar, eu - Adolf Hitler - concluirei." O criacionista Hitler compartilhou uma sede de sangue com o bombástico Deus bíblico de cuja "imagem" acreditava ter sido criado.
Não há nenhum valor prático em reivindicar que os "direitos naturais" são enraizados fora da natureza. Pessoas que encontram "ética absoluta" na revelação de uma divindade nunca concordaram que ética era essa. Pegue um assunto social crucial e crítico do dia - pena capital, aborto, eutanásia, direitos das mulheres, divórcio, direitos dos homossexuais, direito dos animais, castigos corporais, escravidão, pacifismo, proteção do meio ambiente, controle de natalidade, superpopulação, separação igreja/estado - e você perceberá que os cristãos têm rezado em lados opostos. O apóstolo Paulo alegou que a divindade bíblica "não é autora de confusão", ainda assim nunca um simples livro causou mais confusão e divisões do que a bíblia. Se a bíblia nos dá um guia ético absoluto, então onde isso está? Por que crentes sinceros não concordam com essas questões importantes? Está claro que a bíblia é um guia comportamental inadequado, e que o deus tirano da escritura nos leva a uma falta de valores.
Quando Jefferson escreveu sobre o "criador" na Declaração de Independência, não estava falando sobre o deus cristão. Como um deísta, ele viu o "criador" como um ser muito menos pessoal do que a divindade bíblica. O deus do deísmo era mais como "natureza" do que "Jeová". Quando Jefferson disse que todas as pessoas "recebem de seu criador certos direitos inalienáveis", ele pode não querer ter dito "recebem" no sentido de um rei concedendo um privilegio que poderia ser negado. Se algo pode ser dado, então pode ser negado. Se um direito é inalienável, não pode ser retido ou retirado, nem em princípio. Um "direito inalienável", se os direitos são dados, é um oxímoro. Os direitos humanos, se são intransferíveis, não poderiam ter sido outorgados - nem por governo, ou deus, ou pela sociedade. Um "direito natural" é uma reivindicação de liberdade, privilégio ou poder que você tem inerentemente, por natureza (embora você ainda tenha que convencer os outros a reconhecerem e permitirem esse direito). Os direitos naturais, se existem, são sem sombra de dúvida intransferíveis; mas então eles não puderam ser "concedidos". Nós simplesmente os temos. Está claro que Jefferson queria dizer, figurativamente, que desde que "recebemos da natureza" necessidades humanas em comum, nós esperamos da sociedade que honre nosso direito à vida, à liberdade e busca da felicidade.
Os cristãos acham que devemos tratar bem os outros porque somos todos criados à "imagem de Deus". Isso, supõe eles, nos dá valor. Mas eles não explicam porquê. Por que a imagem de um deus dá maior valor do que alguma outra imagem? Por que isso dá algum valor mesmo? O que significa "imagem de Deus"? "Deus é um Espírito", disse, supostamente, Jesus; mas o que é isso? A palavra "espírito" nunca foi definida, exceto em termos que nos dizem o que não é: imaterial, impalpável, não-corporal, sobrenatural. Ninguém nunca descreveu o que é um espírito. "Falar de existências imateriais", Jefferson escreveu, "é falar de nada. Dizer que a alma humana, anjos e Deus são imateriais, é dizer que eles não são nada, ou dizer que não há Deus, anjos e alma. Não consigo raciocinar de outra forma." (To John Adams, Agosto 1820. Isso não significa que Jefferson era ateu: ele entendia que deus era um ser material, ou a natureza por si só, o que concorda com o deísmo.) Uma vez que "deus" nunca foi definido, e muito menos provado, sua "imagem" não pode ser usada como base para nada. A "natureza", de outro lado, significa algo. O Darwinismo nos mostra que todos os organismos vivos são resultados de um processo evolutivo natural. Nós temos sido modelados pelas leis da natureza. Essa revelação só poderá falhar em impressionar você se foi lhe ensinado que há algo de errado com a natureza, algo vergonhoso sobre ser um mero animal em um reino corrompido pelo sobrenatural, o que quer que seja isso. Muitos teístas parecem ansiosos em jogar esse jogo de golpe à natureza. O "acaso" da evolução, eles dizem, é uma força bruta incapaz de produzir algo tão grandioso quanto nós humanos. Mas a evolução não é por acaso: é um projeto que incorpora a aleatoriedade - não um projeto inteligente pelas leis da natureza, através do número limitado de maneiras que os átomos interagem matematicamente e as moléculas combinam geometricamente. É projetado pela extinção, pela maneira que um ambiente em mudança, automaticamente, não permite que organismos que não estão adaptados, vivam, deixando os mais adaptados. A aleatoriedade da variação genética é uma força da evolução, proporcionando uma maior chance de que algo vai sobreviver. Isso é incrível. Ao invés de especular sobre um "criador" desconhecido, nós podemos simplesmente olhar para as nossas origens. A evolução mostra como a complexidade surge da simplicidade: o criacionismo não pode fazer isso. O criacionismo tenta explicar a complexidade com mais complexidade, o que apenas substitui um mistério por outro mistério. Se complexidade funcional requer um projetista, então a quem você delega a complexidade funcional da mente do projetista? O conceito esclarecedor de Darwin é empírico, testável, provável e relevante para as criaturas que habitam o planeta. Nos mostra quem realmente somos. Não estamos acima da natureza. Não somos apenas parte da natureza. Nós somos natureza. Somos criaturas naturais em um ambiente natural. Através do surpreendentemente e dolorosamente doloroso, parte-aleatório, parte-determinado processo de seleção natural, a vida tornou-se o que ela é. E isso é o que torna a vida valiosa: não tem que ser. É preciosa. É fugaz. É vibrante e vulnerável. É sofrida. Pode ser perdida. Será perdida. Mas existimos agora. Somos animais generosos, inteligentes e podemos estimar nossa breve vida. Por que o eterno é melhor que temporal, ou o sobrenatural "maior" que a natureza? A raridade não aumenta o valor? Deus é uma idéia, não uma criatura natural. Por que a sua "imagem" deveria sr mais valorizada do que nossa própria natureza? Que direito tem uma existência imaterial - um fantasma no céu - de dizer a nós, criaturas naturais, o que é valioso? Ele alguma vez já sentiu a dor de dar a luz? Ele luta para pagar aluguel? Se fomos criados à sua incompreensível imagem, então não temos a mínima idéia de quem nós somos. Mas sendo moldados à "imagem da natureza", sabemos quem somos e podemos descobrir mais. Em nosso jardim de casa, aqui na terra, nós podemos investigar, estudar e continuar a melhorar as condições desse planeta. Não foi a fé que erradicou a varíola. Contemplar a "imagem de deus" não curará o câncer ou a AIDS. A ciência nos tem dado muito. O que a teologia tem nos dado?
A teologia nos deu o inferno. A ameaça da condenação é projetada para ser um incentivo para a ação correta; mas isso é uma ética falsa. Os humanistas pensam que nós deveríamos fazer o bem pelo amor do bem, não pela interesseira perspectiva de colher uma recompensa individual ou evitar a punição. Qualquer ideologia que faz sua moral através da ameaça é eticamente falida. (Os fornos de Hitler, pelo menos, eram relativamente rápidos. O tormento que Jesus prometeu é um fogo que "nunca será extinguido."). Qualquer um que acreditar em inferno não tem ética alguma. Se a única maneira que você pode ser forçado a ser gentil com os outros é através da ameaça do inferno, isso mostra como você pensa pequeno de você mesmo. Se a única maneira de fazer você ser gentil com os outros é a promessa do paraíso, isso mostra como você pensa pequeno dos outros. Muitos ateus dirão: "Seja bom, pelo amor do bem."
Dan Barker, um ex-pastor evangélico, é um membro da Fundação Livre da Religião.
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