Luis Fernando Verissimo Publicado: 01/11/2001
Atualizado: 20/11/2001
BANQUETE COM OS DEUSES

de Luis Fernando Verissimo


Preparando seu livro sobre o imperador Adriano, Marguerite Yourcenar encontrou numa carta de Flaubert esta frase: "Quando os deuses tinham deixado de existir e o Cristo ainda não viera, houve um momento único na História, entre Cícero e Marco Aurélio, em que o homem ficou sozinho." Os deuses pagãos nunca deixaram de existir, mesmo com o triunfo cristão, e Roma não era o mundo, mas no breve momento de solidão flagrado por Flaubert o homem ocidental se viu livre da metafísica - e não gostou, claro. Quem quer ficar sozinho num mundo que não domina e mal compreende, sem o apoio e o consolo de uma teologia, qualquer teologia? O monoteísmo paternal substituiu as divindades convivais da antiguidade, em pouco tempo Constantino adotaria o cristianismo como a religião do império e o homem perdeu sua oportunidade de se emancipar dos deuses.

A ciência, pelo menos até Einstein, nunca pretendeu desafiar a metafísica dominante, mesmo quando desmentia seus dogmas. Copérnico cumpria seus deveres de cônego da catedral de Frauenburg enquanto bolava a heresia que destruiria mil anos de ensinamento da Igreja e seu tratado revolucionário sobre o Universo heliocêntrico foi dedicado, sem nenhuma ironia que se saiba, ao papa Paulo III. Galileu também foi inocentemente a Roma demonstrar na corte papal o telescópio com o qual confirmara a teoria explosiva de Copérnico, talvez o exemplo histórico mais acabado de falar em corda em casa de enforcado. Quando foi julgado pela Inquisição, concordou em renunciar à idéia maluca de que a Terra se movia em torno do Sol, para ficar vivo, e a frase famosa que teria dito baixinho - "E pur se muove" - só foi acrescentada ao relato do julgamento um século depois, provavelmente também originando a frase "se não é verdade é um bom achado".

Quando o astrônomo Joseph Halley, o do cometa, entusiasmado com a recém-publicada Principia de Isaac Newton, quis dar uma idéia da importância da teoria newtoniana da gravidade e do movimento dos astros, disse que, com ela "fomos admitidos aos banquetes dos deuses", pois até então a ciência só especulara sobre a geometria celestial - algo como o Woody Allen dizendo que fazer cinema sério, ao contrário de comédias, era sentar-se à mesa com os adultos. Com Newton passamos a conversar seriamente com os deuses. É curioso que Halley tenha preferido "deuses" a Deus, evocando o tempo pré-cristão em que as divindades andavam entre os homens e podiam até ser seus comensais. O trabalho de Newton fazia parte da "filosofia natural", o pseudônimo com que, na Europa do século 17, a ciência especulativa convivia com a teologia. Ir aos banquetes com os deuses não era exatamente um ato de rebeldia com a teologia, mas era uma maneira de trazer a metafísica de volta a um plano humano. A luta pela emancipação continua até hoje.

Comentários

Rálamo - ralamo@porncity.net - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 06/11/2001

"Em geral, a matemática e a filosofia se baseiam mais na análise do que na observação, mas também não chegam a ser independentes da observação, e cada uma possui suas próprias formas de experimentação e cada uma requer as mesmas demandas finais por confirmações examináveis, racionais e críticas. Por exemplo, muitos teoremas matemáticos começam a partir de um problema ou fenômeno observado ou são descobertos através de diagramas e outras ferramentas empíricas, e os teoremas devem ser observáveis e passíveis de repetição. E, apesar de "provas" matemáticas serem diferentes de teorias científicas no fato de serem provas genuínas com o objetivo de serem finais e absolutas, elas ainda podem apresentar erros e, conseqüentemente, se mantêm de certa forma experimentais. Em última análise, o empirismo matemático pode ser encontrado na sua heurística e nas suas aplicações, e não nas suas provas."

Richard Carrier em "Test your Scientific Literacy!"


Herberti Vidor Pedroso - hvp@rima.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 01/11/2001

Preparando seu livro sobre o imperador Adriano, Marguerite Yourcenar encontrou numa carta de Flaubert esta frase: "Quando os deuses tinham deixado de existir e o Cristo ainda não viera, houve um momento único na História, entre Cícero e Marco Aurélio, em que o homem ficou sozinho." Os deuses pagãos nunca deixaram de existir, mesmo com o triunfo cristão, e Roma não era o mundo, mas no breve momento de solidão flagrado por Flaubert o homem ocidental se viu livre da metafísica - e não gostou, claro. Quem quer ficar sozinho num mundo que não domina e mal compreende, sem o apoio e o consolo de uma teologia, qualquer teologia? O monoteísmo paternal substituiu as divindades convivais da antiguidade, em pouco tempo Constantino adotaria o cristianismo como a religião do império e o homem perdeu sua oportunidade de se emancipar dos deuses. *Com todo o respeito a Flaubert e ao próprio Veríssimo , esta é uma colocação para lá de bitolada e estreita. Só porque o mundo greco-romano passou por uma profunda crise de valores, afirmar que o “homem ocidental” (leia-se raça humana) ficou sem Deus ou deuses é uma generalização muito imprudente. Foi exatamente no período que antecedeu a manifestação de Jesus de Nazaré que a Judéia experimentou um grande reavivamento religioso. E os povos do oriente e extremo oriente não deixaram de lado suas perspectivas religiosas. Em uma colocação, no entanto, Veríssimo está certo: o homem não conseguiu mesmo se emancipar dos deuses. Apenas que eles mudaram de residência. Antes habitavam o Olimpo, agora habitam ou cemitérios ou os famosos campus de algumas universidades. Os que dirigem a humanidade do túmulo são vários: Marx, Freud, Einstein, Darwin, Huxley, para ficar com os mais óbvios. Quanto aos vivos são outros tantos, inclusive alguns que contribuem para a STR.

A ciência, pelo menos até Einstein, nunca pretendeu desafiar a metafísica dominante, mesmo quando desmentia seus dogmas. Copérnico cumpria seus deveres de cônego da catedral de Frauenburg enquanto bolava a heresia que destruiria mil anos de ensinamento da Igreja e seu tratado revolucionário sobre o Universo heliocêntrico foi dedicado, sem nenhuma ironia que se saiba, ao papa Paulo III. Galileu também foi inocentemente a Roma demonstrar na corte papal o telescópio com o qual confirmara a teoria explosiva de Copérnico, talvez o exemplo histórico mais acabado de falar em corda em casa de enforcado. Quando foi julgado pela Inquisição, concordou em renunciar à idéia maluca de que a Terra se movia em torno do Sol, para ficar vivo, e a frase famosa que teria dito baixinho - "E pur se muove" - só foi acrescentada ao relato do julgamento um século depois, provavelmente também originando a frase "se não é verdade é um bom achado".
*Talvez esteja ai a razão de a ciência ter conseguido tanto no passado e agora, proporcionalmente, não faz mais descobertas grandiosas, como uma nova lei física fundamental. Aparentemente o que motivava os pesquisadores de outrora era a busca da verdade, pura e simplesmente. Hoje a verdade não é tão importante quanto demonstrar a tolice de se crer em uma divindade. A Ciência deixou de ser uma busca e se tornou uma persequição. Quanto às tolices cometidas pela igreja romana, antes, durante e depois da Idade Média, bem fariam os amigos da STR em olhar melhor as declarações, digamos “cosmológicas” da Bíblia para se assegurar de que, o quer que o papado romano tenha feito, o fez por sua própria conta, risco e estupidez.

Quando o astrônomo Joseph Halley, o do cometa, entusiasmado com a recém-publicada Principia de Isaac Newton, quis dar uma idéia da importância da teoria newtoniana da gravidade e do movimento dos astros, disse que, com ela "fomos admitidos aos banquetes dos deuses", pois até então a ciência só especulara sobre a geometria celestial - algo como o Woody Allen dizendo que fazer cinema sério, ao contrário de comédias, era sentar-se à mesa com os adultos. Com Newton passamos a conversar seriamente com os deuses. É curioso que Halley tenha preferido "deuses" a Deus, evocando o tempo pré-cristão em que as divindades andavam entre os homens e podiam até ser seus comensais. O trabalho de Newton fazia parte da "filosofia natural", o pseudônimo com que, na Europa do século 17, a ciência especulativa convivia com a teologia. Ir aos banquetes com os deuses não era exatamente um ato de rebeldia com a teologia, mas era uma maneira de trazer a metafísica de volta a um plano humano. A luta pela emancipação continua até hoje.
*Nada há, pelo menos na teologia cristã, que a torne incompatível com a ciência. Sendo ambas, áreas onde a razão trabalha, organizando, sistematizando, codificando, como pode haver mútua exclusão? O fato de a teologia não ser passível de experimentação empírica não é um argumento válido, pois desde modo, a maior parte das abstrações, que se produzem nos departamentos de matemática pura ao redor do mundo, também não deveriam ser consideradas conhecimento legítimo.

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.estado.com.br/editorias/2001/09/07/pol010.html
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