Publicado: 27/12/2001
de Hélio Schwartsman
São indicadores que impressionam. Um desavisado poderia acreditar que o brasileiro não faz outra coisa senão rezar o dia inteiro, interessado em afastar Exu e garantir para si um lugarzinho junto ao Criador. Não é bem assim. O país, apesar dos 99% de crentes, está longe de ser um convento, pelo menos sob o ponto de vista das religiões organizadas. Pessoalmente, só vejo vantagens no fato de não termos uma tradição religiosa muito, digamos, impetuosa. Para começar, nunca travamos guerras de religião. Tampouco temos o péssimo hábito de eliminar nossos vizinhos que rezam de um jeito diferente do nosso. Em termos de liberalidade de costumes, somos relativamente generosos. Não lapidamos adúlteros e toleramos bem as mulheres peladas. Este último ponto constitui inegável avanço rumo aos mais altos graus de civilização. Para não dizer que tudo são flores, somos até um pouco desleixados no plano ético. Um exemplo rápido e "light": aceitamos numa boa que políticos cometam pequenas impropriedades. Se um partido aceita doações ilegais para financiar campanhas, tendemos a perdoá-lo, afinal, todos fazem a mesmíssima coisa, calculamos. De certa forma, há um paradoxo no comportamento do brasileiro. Para a maior parte das religiões organizadas, a crença em Deus teve como corolário histórico uma boa dose de intolerância em relação a outros credos e mesmo em relação aos costumes e hábitos de outras pessoas do mesmo grupo. O brasileiro pode até acreditar em Deus, mas isso não o torna necessariamente um fiel exemplar. Tomemos o caso do sexo no catolicismo. A camisinha ou qualquer outro método contraceptivo é estritamente proibido. Relações extraconjugais, nem pensar. Numa interpretação mais estrita, o próprio sexo sem fins reprodutivos é errado. Uma trepada só é verdadeiramente católica quando se dá entre marido e mulher e com vistas a gerar um bebê. Se levarmos a doutrina às últimas consequências, um católico ou católica que se descobrissem inférteis deveriam renunciar para sempre ao sexo. Exigir do fiel sacrifícios pouco razoáveis não é exclusividade do catolicismo. Todas as religiões cobram um preço daqueles que nela crêem. Esse preço pode ser fixado em renúncia, como no caso do catolicismo, em dor física, como nos ritos iniciáticos de vários credos, ou em dinheiro mesmo, como se verifica em algumas denominações evangélicas. A religiosidade do brasileiro não é definitivamente "organizada". Cerca de 80% da população se declara católica, mas boa parte frequenta terreiros, crê em reencarnação e faz das suas no Carnaval (e em outras épocas do ano também), todos atos tecnicamente incompatíveis com a ortodoxia vaticana. A explicação "brasileira" para o fenômeno seria simplesmente afirmar que o brasileiro avacalha tudo em que mete a mão, até a religião. Essa interpretação pode até ter valor como piada, mas não explica nosso paradoxo. É só uma opinião, mas desconfio de que parte dos brasileiros esteja raciocinando como Pascal. Em seu magistral "Pensées" (Pensamentos), o filósofo francês coloca o célebre argumento da aposta, pelo qual _concluirá_ devemos acreditar no Deus cristão revelado. Como se trata de persuadir o fiel e não de demonstrar a existência de Deus (as provas da religião só servem para quem já crê), o argumento toma a forma de jogo. Vamos supor que sejam as mesmas as chances de a religião cristã ser a verdadeira e de não ser. Vamos também supor que eu aposte em que ela é falsa e, depois, em que é verdadeira. Vamos ver, como convém ao bom jogador, os ganhos e as perdas líquidas. Pela primeira hipótese, aquela em que aposto na falsidade da religião, eu devo levar uma vida concupiscente, sempre em busca do maior número possível de prazeres físicos. Se a religião é verdadeira e eu vivi como um devasso, terei problemas, pois estarei condenado à danação. Por outro lado, se a religião for falsa, terei apostado certo e vivido uma vida repleta de prazeres carnais. Pela segunda hipótese, eu aposto que a religião é verdadeira e levo uma vida regrada, segundo os bons preceitos cristãos. Sendo a religião falsa, terei renunciado a uma vida com mais prazeres carnais, mas, se ela for de fato a verdadeira, terei ganhado a salvação eterna. Evidentemente, este último é um prêmio que em muito supera a aposta certa na inexistência do Deus cristão revelado. Pascal conclui que é de nosso interesse, portanto, agir como se a religião cristã fosse verdadeira. Acho que, "mutatis mutandis", parte dos brasileiros fez uma aposta semelhante. É melhor crer em Deus. Se Ele não existir, não teremos perdido nada _ao sul do Equador as exigências da religião são bem mais brandas. Por outro lado, se Ele existir e tivermos acreditado nEle, reforçamos nossas chances de obter a salvação. Há um dado da pesquisa que corrobora essa minha hipótese pascaliana. Para 26% dos entrevistados, o que leva uma pessoa ao inferno é a falta de fé. Apenas 18% acham que são as más ações. Embora 53% acreditem que a danação eterna se dá por uma mistura de falta de fé com más ações, fica bastante claro que o brasileiro considera a fé ingrediente importante para a salvação. Não aceita tão tranquilamente a tese de que o paraíso estaria garantido para todos os homens de boa vontade. Se essas minhas elucubrações fazem algum sentido, o brasileiro segue sua própria teologia de resultados. Abranda um dogma aqui, aceita uma tese simpática ali, mesmo que venha de uma outra religião, incompatível com a sua original. Trata-se de uma teologia altamente pessoal. Também é forte a marca da incultura: o "fiel" mistura o que mais lhe convém, mesmo que isso implique solapar as bases do edifício teológico ortodoxo. Ele ignora, por exemplo, que um dogma não pode ser "negociado", que, para manter-se como dogma, precisa passar imune ao "jeitinho". Quanto a mim, que me conto entre o magro 1% que dispensa a hipótese divina, celebro os resultados da religiosidade brasileira. Nela há menos espaço para que se cometam crimes em nome de Deus.
O original foi publicado em 20/12/2001. Hélio Schwartsman é editorialista da Folha de São Paulo. Escreve para a Folha Online às quintas em http://www.uol.com.br/folha/pensata/schwartsman.shtml. Referências
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