Publicado: 29/08/2001|
SEÇÃO I -- A EXPERIÊNCIA DA RENOVAÇÃO: UM ADMIRÁVEL MUNDO NOVO? CAPÍTULO 2: A SUBCULTURA EVANGÉLICA de Robert M. Price
Qualquer sociedade deve ter um certo conjunto de regras e premissas básicas para que haja algum nível de coesão cultural ou ordem. Subculturas são grupos de pessoas que se afastam da corrente principal em algumas questões relevantes. Assim, uma subcultura pode abrigar minorias artísticas, políticas ou religiosas. Esta fato acaba criando uma "mentalidade de gueto", mesmo que os membros da subcultura vivam dispersos pela sociedade. Na cultura ou sociedade dominante, as crenças fundamentais de alguém são mantidas sem muita dificuldade. Uma pessoa é bem capaz de tomá-las por verdadeiras. Mas um membro de uma subcultura não tem tanta sorte. O grande número de pessoas que não lhe compartilham a maneira de pensar devem exercer uma forma de pressão sobre ele. Ele deve pensar duas vezes sobre seu ponto de vista. O seu próprio status de minoria deve desafiar a verdade de seu ponto de vista. O subculturalista deve tentar duas estratégias para para manter suas crenças aceitáveis. Ele deve limitar o contato com todos aquelas influências externas que provocam dúvidas e ser capaz de explicar em seus próprios termos as informações que ele recebe dos que estão de fora. Somente desta forma o seu ponto de vista minoritário mantém a aparente lógica de que precisa. Se bem-sucedido, o que o subculturalista terá feito será usar mecanismos sociais e psicológicos de defesa para fazer com que seus pontos de vista "pareçam" reais. Contudo ele não vai querer se dar conta disso. O reconhecimento de que a "aparência de realidade" da sua visão de mundo é gerada e mantida por tais artifícios minaria essa mesma "aparência de realidade". O subculturalista teria de encarar o fato de que seu ponto de vista não é uma verdade auto-evidente. Em outras palavras, quando reconhecidos, os próprios mecanismos elaborados para superar dúvidas acabam produzindo mais dúvidas. Não deve ser surpresa para a maioria que as marcas distintivas dos cristãos evangélicos se ajustam muito bem a uma explicação adequada como uma subcultura tal como foi descrito. De fato, o caráter subcultural do Evangelismo tem raízes no coração do Novo Testamento. O estudo contemporâneo do Novo Testamento freqüentemente fala da tensão "já-ainda não" dentro do seu texto. Isso porque os autores desses textos acreditavam que a Nova Era da Salvação já tinha chegado por meio da participação em sua comunidade cristã. O resto do mundo ainda jazia nas trevas do pecado pois a plena manifestação do Reino ainda não havia chegado. Mas os crentes já viviam no Reino de Deus, participando das "forças do mundo que háe vir" (Hebreus 6:5), viviam pelas regras do Reino que viria. Ele brilhavam como estrelas em meio à escuridão que os rodeava (Filipenses 2:15). Toda essa teologização reflete uma situação subcultural. Os cristãos neotestamentários, uma minoria no Império Romano, explicavam esse fato assim: o seu pequeno grupo formava uma ponta de lança da Nova Era no meio do paganismo. Voltando ao Cristianismo Evangélico de nossos dias, vejamos como ele se adequa ao padrão de uma subcultura. Poder-se-ia listar um grande número de valores, crenças e práticas que fundamentam o Evangelismo. Destacam-se:
"Se alguém está em Cristo, nova criatura é" (II Coríntios 5:17), escreveu Paulo. E o novo convertido ao Evangelismo provavelmente não pensará em separar Cristo do mundo evangélico. Esse novo mundo é constantemente reforçado por discursos de reforço tais como sermões, testemunhos dos companheiros de crença, hinos e jargões. A série de bordões e frases feitas funciona como senhas secretas. Incluem "Louvado seja o Senhor", "fratenidade", "Isso foi uma bênção", "testemunho", "mundano" e especialmente, no caso de pentecostais e carismáticos, glossolalia, o "falar em línguas". Tais jargões isolam os crentes dos que estão de fora, os "mundanos" e, por outro lado, identificam imediatamente aos olhos do crente os demais "irmãos e irmãs em Cristo". Nós temos aqui um exemplo de uma completa situação subcultural. Renascimento espiritual, infalibilidade bíblica, sinais e prodígios, doutrinação explícita e consciência do fim que se aproxima, combinam-se para construir ao redor do evangélico um círculo mítico invisível que o separa daqueles para quem essas coisas não têm significado. Aqui ele vive num mundo alternativo.2Pode-se então dizer que, a despeito da tendêcia universalizante implicada na ênfase evangélica na pregação, esta representação do mundo não pode existir sem uma severa dicotomia de "nós contra eles". É essencial para todo o processo cognitivo evangélico que os fiéis sejam uma minoria incompreendida e rejeitada. Ou ao menos assim deve parecer aos próprios fiéis. Por exemplo, a espantosa impressão dada pelos famosos livros do apologista Francis Schaeffer é a de que quase todas as pessoas fora do rebanho evangélico caíram vítimas de um secularismo agnóstico. O defensor cristão deve transmitir o evangelho numa "Era Pós-Cristã". Qualquer outro, olhando de relance em pesquisa recentes como a do Instituto Gallup,3 pensaria duas vezes antes de fazer tal diagnóstico do nível de interesse religioso na sociedade moderna. James Barr sugere que essa consciência de minoria é mantida mesmo onde os evangélicos não são uma minoria cognitiva, por exemplo, a América do Sul. "Parte da sua dinâmica de pregação vem da sugestão contínua de que sua visão é algo que nunca fora visto antes..."4 Ele aponta que mesmo em áreas de predominância religiosa evangélica muitas vezes não ocorre nenhuma revolucionária mudança social ou espiritual tal como se poderia esperar das promessas da propaganda evangélica. Este embaraçoso hiato é encoberto pela contínua retórica de que os evangélicos ainda são uma minoria em luta. Esta ilusão parece estar mais difícil de manter diante da recente exposição na mídia. É cada vez mais evidente que a fé evangéica de mais de 50 milhões de americanos em nada se provou incompatível com a crescente taxa de criminalidade e a decadência condenada pela retórica dos próprios evangélicos. Ironicamente, enquanto os Evangélicos dizem a si mesmos que são ignorados e desconhecidos, simultaneamente eles avisam uns aos outros a serem circunspectos já que os olhos céticos "do mundo" estão sobre eles o tempo todo! Frequentemente escuta-se avisos para ser "uma boa testemunha" já que a vida Cristã é vivida em "uma bacia de peixe dourado" antes dos descrentes. De fato, alguns deles até mesmo atribuem aos forasteiros os mais estritos funtamentos morais fundamentalistas! Não se pode tomar uma cerveja ou ir ao cinema; afinal, o que pensaria um não-Cristão se visse isso? Certamente ele sabe que tais coisas são incompatíveis com o verdadeiro comprometimento Cristão, e o Evangélico que bebe cerveja e vai ao cinema terá "seu testemunho maculado"! Aqui os fundamentos morais da visão do mundo dele são reforçados ao projetá-los àqueles de fora. O Evangélico de alguma forma imagina que o "não salvo" pensa nas mesmas categorias que ele mesmo. O Que Os Olhos Não Vêem, O Coração Não Sente Idealmente, um ponto de vista subcultural pode ser melhor preservado quando se consegue regular totalmente as informações e influências recebidas pelos membros. Esta era a meta da "novilíngua" em 1984, o famoso romance de George Orwell. A própria linguagem devia ser manipulada a fim de eliminar a possível infiltração de idéias "perigosas". Poucos desejariam ir tão longe na vida real, mas o motivo básico da proteção é freqüntemente o mesmo. Tradicionalmente, os evangélicos tentam evitar diversões "mundanas" incluindo aí teatros, filmes, danças etc. Esta ainda é a postura dos evangélicos fundamentalistas mais rigorosos. Ainda se ouvem tiradas cansativas contra ir ao cinema, mas a cruzada mais recente é contra o rock and roll. Esta discussão serve para ilustrar bem o nosso assunto. Os oponentes evangélicos desse tipo de múica são muito claros em sua percepção da "proteção ideológica". Bob Larson adverte.: Letras com conteúdo diretamente oposto aos padrõess bíblicos e ao comportamento cristão aceitável deve ser definitivamente evitada.Para Larson, a solução é clara: ...O tempo gasto diariamente ao se ouvir rock é. bem maior que o tempo semanal dedicado ao estudo da Bíblia, daí resultando um desequilíbrio moral. Uma mente que recebeu durante horas a infiltração da pornografia lírica durante toda a semana não pode ser facilmente remodelada com apenas umas poucas horas dedicadas à instrução cristã no domingo.5Frank Garlock, da Universidade [evangélica] Bob Jones, concorda. "A batida ruidosa e sensual e as letras voltadas para o prazer sufocam a voz de Deus e encolhem a vida espiritual."6 Recentemente, evangélicos mais moderados abriram espaço para um "rock cristão" que, naturalmente, tem letras evangélicas. Tal música "os mantém na fazenda após eles terem visto a cidade" tornando a fazenda mais parecida com a cidade! O mesmo está sendo feito com programas de entrevistas (Oral Roberts, Pat Robertson) e mesmo novelas [nos EUA]! Uma nova atitude entre os evangélicos é que se pode avaliar criticamente as artes (ou seja, em vez de se rejeitá-las a priori) com base na ideologia da doutrina evangélica. Por exemplo, Francis Schaeffer comenta: Até onde diz respeito a um cristão, a visão de mundo mostrada através de uma obra de arte deve ser vista de acordo com as Escrituras. A visão de mundo do artista não pode estar livre do julgamento de Deus.7Ler as críticas ideológicas da arte em livros como o How should We Then Live?, de Francis Schaeffer, pode ser uma experiência atordoante para um não-evangélico. Contudo, uma coisa se torna clara. A estrutura de crença evangélica está sendo protegida ou pelo fechamento de portas a certas artes e diversões, ou, pelo menos, pela exigência da senha correta. A mesma suspeita é perceptível em várias atitudes evangélicas para com a educação superior. Bill Gothard, influente professor do popular seminário "Institute in Basic Youth Conflicts" (Instituto em Conflitos Juvenis Básicos), adverte seus ouvintes para que mantenham distância das ciências sociais e da filosofia. Sugeriu-se que esta atitude reflete a experiência do próprio Gothard no programa de graduação em Psicologia da Nothwestern University. Ele acabou descobrindo que ou deveria pôr em risco sua fé (fundamentalista) ou abandonar o curso.8 De fato, ele vê seu próprio seminário, em certos aspectos, como uma resposta aos princípios seculares da educação. Mas os evangélicos vão mais longe. Muitas "Faculdades Cristãs de Artes Liberais", como Wheaton, Gordon, Westmont, Anderson e Lee, já foram fundadas. Para aqueles estudantes evangélicos corajosos o bastante para se aventurar no mundo da educação secular, existem grupos como a Inter Varsity Christian Fellowship. Tais organizações procuram formar uma colônia de estudantes evangélicos, um refúgio no meio do secularismo do campus. A própria organização age como um grupo de amigos alternativo, e também fornece literatura a fim de que o estudante evangélico possa se armar com contra-argumentos e respostas a perguntas das quais ele pode nem sequer saber que existem. A equipe da organização disponibiliza literatura apologética sobre tópicos como psicologia behaviorista, crítica bíblica, existencialismo e religião comparada. Naturalmente, tudo é escrito do ponto de vista religioso do próprio estudante e tende a veicular elementos ideologicamente discutíveis. O estudante é asism levado a acreditar que tem sorte de se rherdeiro da posição intelectual mais convincente, pouco importando se ele examinou seriamente outros pontos de vista ou não. Ele não precisa examiná-los. Outras pessoas já fizeram isso por ele, ou assim lhe parece. O mesmo fenômeno ocorre fora do mundo estudantil, no Evangelismo como um todo. Apesar de sua literatura já ter lidado predominatemente com temas religiosos, tem surgido um dilúvio de literatura popular sobre todos os assuntos imagináveis, complementada com provas textuais religiosas. Há livros de auto-ajuda sobre perder peso do modo "bíblico", manuais de sexo para os "renascidos", livros de culinária cristã etc. Os evangélicos não precisam recorrer ao "mundo" nem mesmo para superstições, especulação e fantasia. Pode-se facilmente achar livros falando da "posição bíblica" sobre os discos voadores ou o Triângulo das Bermudas, bem como uma extensa literatura sobre demonologia e ocultismo. O que virá a seguir? Voltando à defesa da fé evangélica no mundo da educação, podemos detectar um princípio subjazendo as mesmas preocupações em todo o movimento evangélico. Kenneth Howkins, num livro feito para preparar estudantes evangélicos para os estudos religiosos nas escolas seculares, escreve: O cristão [leia-se: "evangélico"] precisará pensar de um modo cristão sobre todas as coisas... É particularmente difícil já que uma grande parte das informações e opiniões que ele recebe são de um ponto de vista não-cristão. Ele precisará refletir cuidadosamente se a visão da história, da política ou da sociedade em que ele vive está realmente em pleno acordo com as crenças cristãs.Howkins então garante a seus leitores que ele podem praticar a virtude da abertura da mente sem abrir mão de uma perspectiva que obriga a uma censura rigorosa de toda a informação recebida! Não Seja Injustamente Oprimido Na seção anterior nós discutimos a dinâmica defensiva de filtragem e censura usada pelos evangélicos para proteger sua posição subcultural do pensamento e da cultura à sua volta. O mesmo ocorre num nível individual e interpessoal. De vários modos, o significativo contato com indivíduos de fora da subscultura de ser cuidadosamente regulada. Isto começa na conversão, quando se "nasce de novo". Os evangélicos freqüentemente aconselham o recém-convertido a evitar, pelo menos temporariamente, os seus antigos amigos para que não se sintam tentados a voltar aos seus caminhos mundanos. Uma estratégia alternativa é induzir o recém-converso a compartilhar imediatamente a sua nova fé com esses amigos [testemunhas para eles]. Isto servirá, senão para convertê-los, para isolá-lo deles (o que é provavelmente mais importante). Ele terá posto uma parede entre eles e si mesmo, sinalizando que de agora em diante só desejará relacionar-se com eles em seus novos termos religiosos. Eles agora o terão ao alcance da mão, mas agora o novo cristão renascido estará isolado da influência pessoal dos que estão de fora. Conseqüentemente, eles é cada vez mais empurrado para os braços de seu novo (e agora único remanescente) grupo de companheiros. O "testemunho" ou "evangelização pessoal" funciona da mesma maneira para aqueles que não são mais neófitos. A prática serve para manter os não-evangélicos à distância, onde sua influência sobre o evangélico pode ser mantida num mínimo seguro. Nas igrejas evangélicas e nos grupos universitários, a pessoa é constantemente estimulada a "testemunhar" para os seus conhecidos. Na verdade, é fácil deduzir-se que tais "amigos" são vistos primariamente como convertidos em potencial. É muitas vezes pressuposto e não raro afirmado que um cristão evangélico não pode ter um amigo não-evangélico realmente íntimo. O raciocínio por trás desse julgamento pode ser que os objetivos e propriedades de tal par seriam divergentes demais, a ponto de inibir a cumplicidade, a discussão e a simpatia que deve haver entre amigos. Isto também é dado como uma razão para a inflexível insistência evangélica para que um evangélico nunca case ou mesmo namore uma pessoa não-evangélica, os "mundanos". Tão legítima quanto esta preocupação pela compatibilidade possa ser, o motivo preponderante para essa segregação de amigos e cônjuges é a proteção da fé do fiel. Estando asism tão próximo, o amigo ou parceiro "mundano" ameaçaria e desafiaria seriamente a postura do evangélico. O testemunho tem ainda uma outra função. Ele não somente segrega o evangélico dos não-evangélicos, mas também reduz a ameaça que eles representam à sua visão de mundo. E positivamente reforça esta mesma visão de mundo de outras formas. Primeiro, há a estratégia da "verdade por maioria de votos". Teoricamente, tal noção é repudiada pelos evangélicos a fim de explicar o fato de que a maioria não aceita sua "verdade". Mas, psicologicamente, a conquista de mais e mais adeptos aumenta numericamente a base popular do sistema de crença. Quanto mais suas afirmações sobre a realidade deixam de ser desafiadas ou são aceitas, mais tranqüilamente se pode respirar. O psicólogo Leon Festinger bem diz: "...a dissonância pode ser reduzida. Se mais e mais pessoas podem ser persuadidas de que o sistema de crença é correto, entào ele deve, claramente, ser correto, afinal de contas."10 O testemunho reforça a estrutura de plausibilidade numa segunda maneira. Roger Ellwood explica que quando o evangélico desafia as pessoas à conversão, ele está "padronizando a realidade externa em outras pessoas com base na [sua] própria realidade íntima, ao invés de ser [ele mesmo] moldado pela realidade exterior."11 Portanto, mesmo se o potencial convertido recusar a decisão que lhe é exigida, ele está no mínimo agindo dentro das alternativas delineadas pelo evangélico. A realidade deste recebeu a dignidade de um reconhecimento. Mas, em terceiro lugar, mesmo a rejeição hostil ou a zombaria irão reforçar a crença do evangélico. Ela lhe "provará" que ele é realmente um membro dessa minoria perseguida, os "poucos fiéis". Assim cada experiência é interpretada de maneira positiva. Nada pode refutar seu ponto de vista. Não será surpresa ler em Doomsday Cult [Culto do Juízo Final], de John Lofland, que a mesma dinâmica age nos moonies [seguidores do Reverendo Moon] quando estão procurando adeptos. Por exemplo, já que vêem seus esforços como parte de uma batalha cósmica entre o bem e o mal, eles podem sempre atribuir um número medíocre de conversos à oposição de Satã. Mas Deus pode abençoá-los com novos prosélitos. "Em geral, [os moonies] não podem perder. Se as expectativas são atendidas, Deus estava mais ativo. Se não são, Satã é que estava mais ativo... Satã trabalhou duro contra [os evangelistas moonies] quando estavam realmente desferindo um golpe a favor de Deus. Logo, se parecesse que Satão estava mesmo os atacando -- e.g., se poucos interessando estavam aparecendo -- isso deve significar que eles estavam de algum modo muito próximos de uma vitória para Deus."12 Soa familiar? Tudo parece dar no mesmo, não importa qual a religião que se está tentando propagar. Por falar na Igreja da Unificação, pode ser instrutivo apontar outro paralelo entre ela e o movimento evangélico. Trata-se da prática do "logro celestial", i.e., ser menos que sincero com os de fora a fim de influencá-los mais efetivamente na direção da verdade. Quando eu ouvi das táticas obscuras dos moonies, minha indignação inicial foi modificada pela empatia. Eu lembrei nitidamente todas as inócuas "frentes" operadas por evangélicos para testemunhar para os pecadores, e.g., cafés, concertos, fóruns filosóficos, pesquisas religiosas. Nenhuma destas jamais foi repreeendida pelo que era. A idéia era atrair o pecador incauto e ganhar uma oportunidade de lhe pregar o evangelho. Táticas igualmente maquiavélicas governam vários contatos interpessoais. Um líder de agremiação ou estudante estrangeiro pode se ver objeto da atenção amigável de um evangélico, sem perceberem que foram escolhidos para a "evangelização amigável" por causa de sua posição potencialmente estratégica. Um astro do futebol, uma vez "salvo", poderá usar sua influência para converter muitos outros. O estudante estrangeiro pode se tornar um futuro líder em sua terra natal pagã. Que grande missionário ele seria se se convertesse! Qualquer não-evangélico lendo este texto pode se lembrar de ocasiões em que uma conversa com um evangélico inesperadamente se voltou para religião. Deixe-me assegurá-lo de que isso não foi por acaso. A maioria dos evangélicos são exortados a levar qualquer diálogo com um não-crente "na direção de coisas espirituais". À medida que a conversa prossegue e as diferenças de opinião vêm à tona, a pessoa "não-salva" pode notar que o evangélico na verdade não leva em consideração os pontos de vista dela. Já que o que está em jogo é a vida ou a morte eternas, e tudo depende da aceitação que se tem do cristianismo, o evangélico não abre espaço para reconhecer que mentes honestas podem pensar diferente. Não, se um não-evangélico não aceita a verdade absoluta do evangélico, deve ser porque Satã o está cegando, ou porque o descrente está deliberadamente se escondendo atrás de uma cortina de fumaça. Os evangélicos freqüentemente pressupõem que um descrente só está usando suas perguntas como um modo de se esquivar do arrependimento de seus pecados. A despeito da veracidade ou falsidade da crença evangélica, eu penso que o termo técnico para esse tipo de postura é o que chamamos de "mente estreita". Mas os evangélicos, como todo moderno respeitável, diriam que fogem da estreiteza mental. De qualquer forma, eles têm de encarar a pergunta: é a estreiteza mental em si que eles evitam? Ou será que eles se opõem apenas às pessoas que mantém a mente estreita abraçando opiniões não-evangélicas? Podemos notar o uso de dois pesos e duas medidas em ação aqui. O evangélico tentará derrubar as objeções de seus amigos à fé renovadora, pedindo ao potencial prosélito para "dar ouvidos à razão" e acreditar. Mas se uma questão realmente espinhosa é levantada, o evangélico acabará por admitir, "Veja, essa é uma boa pergunta. Eu não tenho a resposta, mas vou tentar descobri-la. Enquanto isso, você não gostaria de se converter assim mesmo?" Isso mostra que enquanto o evangélico apela ao descrente numa suposta base racional, ele mantém suas próprias crenças por pura força de vontade. Do contrário, como é que a falta de uma resposta a uma "boa (i.e., genuinamente problemática) pergunta" não consegue fazê-lo pensar duas vezes sobre a validade das crenças dele? Ainda direi um pouco mais sobre isso na segunda seção deste livro. Espelho, Espelho Meu, Quem É Mais Verdadeiro Do Que Eu? A propaganda é baseada na prática de fazer o público pensar que precisa daquilo que você tem. Os evangélicos usam uma tática parecida para legitimar, ou explicar em seus próprios termos, o fato de que, embora o mundo não a aceite, a fé evangélica é ainda assim verdadeira, e não, digamos, uma mera seita excêntrica. A idéia é a de que os de fora realmente querem aquilo que os evangélicos possuem. Estão mesmo gritando por isso, se ao menos eles soubessem...! Assim, o evangélico projeta sua avaliação da religião na ausência dessa fé no mundo exterior, e o resultado é uma carência imaginada pelas "respostas" do evangelismo. Desta forma ele imagina que todos aqueles sem sua fé devem se sentir assim. Na literatura evangélica, aliás, podemos encontrar um refrão interminável batendo nessa tecla. Por exemplo, Francis Schaeffer afirma: O cristianismo [leia-se: o evangelismo] tem a oportunidade...de falar claramente do fato de que sua resposta tem exatamente aquilo que o homem moderno tem buscado desesperadamente -- a unidade de pensamento. Ela provê uma resposta unificada para toda a vida.Schaeffer examina a arte, a poesia, o teatro, a filosofia, os filmes, a televisão, a pornografia e a música. de seu ponto de vista, as concepções seculares levam logicamente ao desespero, e assim ele passa a supor que os secularistas concordam com suas conclusões! "O sistema que nos cerca...é monolítico." "Estas pessoas estão num total desespero."13 James Sire, num livro comparando várias das grandes visões de mundo, diz logo no começo (!): "Sim, isso é exatamente o que aqueles que não têm fé num Senhor do Universo pessoal e infinito devem sentir -- alienação, solidão, até desespero."14 Os Guiness, num trabalho similar, examina as opções e "falsas" esperanças da cultura ocidental e chega a este terrível resultado: O Ocidente de hoje, com sua auto-confiança decaindo, sua vitalidade se esgotando, sua ordem erodida, conhece somente a introspecção, a letargia... Curvado de exaustão, presa de seus próprios temores, ele está em perigo de ser superado pela ansiedade, a apatia, e a raiva de uma humanidade estrangulada dentro dele.15Guiness consegue "documentar" este diagnóstico apocalíptico somente citando anunciadores pessimistas de catástrofes. Ele pega trechos de um secularista insatisfeito com cada opção em exame, dando a impressào de que todos os secularistas abandonaram qualquer esperança. E enfim ele oferece o evangelismo como uma brilhante alternativa. Ele sequer pensa em mencionar que a maioria dos secularistas deseperados que ele cita provavelmente já descartou seu ponto de vista religioso há muito tempo! Contudo, Guiness não é o único a fazer esse tipo de "documentação" do desespero da humanidade não-evangélica de hoje. Tudo isso é uma sofisticada tentativa de descartar os pontos de vista externos, ou refutá-los nos termos do próprio ponto de vista. E do ponto de vista evangélico, essas posturas seculares têm de terminar em desespero; pois então, tendo sido "demonstrado" que o ponto de vista evangélico é superior, ele deve ser verdadeiro! Schaeffer, Sire, Guiness e outros estào entre os mais sofisticados dentre os evangélicos. Outros são mais rústico em sua técnica. Alguns só precisam saber que uma outra perspectiva não é evangélica para atribuí-la a Satanás, um "pau-para-toda-obra" favorito no evangelismo popular. Walter Martin fala assim de "cultos" [em português, usa-se mais comumente "seitas"] tais como as Testemunhas de Jeová e os Mórmons, logo depois de deplorar a mente fechada que leva as Testemunhas a fazer a mesma coisa!16 James Bjonstad age de modo semelhante com Edgar Cayce.17 John Weldon e outros explicam os OVNIs como coisa diabólica.18 Finalmente, vamos dedicar um pouco de atenção à recente onda de "refutações" evangélicas à obra de Raymond Moody, Life after Life [Vida após a Vida]. Os evangélicos não conseguem conceber a existência de fenomenologia de tipo sobrenatural fora de suas próprias categorias. Tudo tem de ser explicado nos termos deles. "Um lugar para cada coisa, e cada coisa no seu lugar." Quando os evangélicos deixam de lado a discussão um tanto abstrata de outros pontos de vista, vão em frente para lidar com outros grupos religiosos concretos. Um mecanismo favorito para negar as idéias desses grupos é construir uma imagem deles totalmente baseada do testemunhos de ex-membros insatisfeitos. Deve ser óbvio que tal procedimento só pode dar numa representação distorcida do grupo. A organização é assim descrita como tão terrível e opressiva que se deduz que ninguém poderia permanecer como seu membro por livre e espontânea vontade. Ao invés disso, presume-se que somente a lavagem cerebral, o logro ou o medo poderiam manter as pessoas dentro desses grupos. Tal abordagem fornece aos fundamentalistas muito de sua munição contra o catolicismo. O mais veemente anticatólico é o ex-católico. Do mesmo modo, a literatura evangélica corrente sobre grupos como a Igreja da Unificação do Rev. Moon toma o testemunho de ex-membros como normativos. Afinal, pensa-se, quem melhor para nos falar sobre um grupo do que um antigo membro que teve de sair quando encarou as falhas desse grupo? Mas o testemunho de tais pessoas é freqüentemente longe de ser objetivo. O convertido (ou "desconvertido") deve legitimar sua mudança renegando sua antiga vida como má ou fruto de ignorância. O resultado é que o antigo grupo tem de ser ruim o bastante para dar à pessoa o mérito de tê-lo deixado. O testemunho de ex-membros insatisfeitos pode tomar a forma, então, de uma legitimação tendenciosa. Tal testemunho, por sua vez, é usado pelos evangélicos para provar suas teses. Preferem acreditar que os membros de outros grupos ou religiões não estão satisfeitos, já que isso confirma a realidade dos próprios evangélicos. Se, contudo, o evangélico é confrontado com o testemunho de um membro satisfeito de outra religião, é possível que ele rotule tal experiência como uma falsificação. E como uma farsa implica uma realidade a copiar, ora, a sua própria fé evangélica é confirmada outra vez! Na importa o que aconteça, ele sempre vence. A hipótese subjacente a tudo isso é que o ponto de vista de alguém, simplesmente porque é de alguém, é visto como qualitativamente diferente do miasma confuso das alternativas rivais. Elas são todas parecidas pois não são o meu ponto de vista, e isto basta para rejeitá-las. Reescrevendo A História Qualquer visão de mundo subcultural se completa com um passado e um futuro. "Ele localiza todos os eventos coletivos numa unidade coesa que inclui passado, presente e futuro" (Berger e Luckmann).19 O evangelismo usa a história de várias maneiras interessantes. Primeiro, a Bíblia e suas histórias formam uma categoria especial de história. Roger Ellwood descreve isso com sensibilidade: ...A Bíblia e seu tempo permanecem como um farol no meio da história. O tempo bíblico é especial; fica em igual relação como todos os outros pontos no tempo. O evangélico é sempre contemporâneo dele, particualrmente com o tempo de Cristo. Ele quer ignorar todo o tempo que se interpôe entre ele e o Novo Testamento.20Que esse "tempo bíblico" funciona assim fica evidente devido a vários fatos. Os evangélicos constantemente se comparam com a igreja primitiva dos Atos dos Apóstolos. Este retrato do passado paira como ideal onipresente. É esse tipo de retrato "canônico" do pasado que Robert L. Wilken descreve em The Myth of Christian Origins [O Mito das Origens Cristãs]. Outro fato que confirma a observação de Ellwood é a surpreendente ignorância da história da igreja por parte de muitos leigos evangélicos. Às vezes só Martinho Lutero é interposto entre o Apóstolo Paulo e Billy Graham. Um uso relacionado com esse do passado ocorre entre os evangélicos nas suas polêmicas acadêmicas. Os evangélicos dizem representar uma continuidade direta com a ortodoxia cristã histórica, particularmente com respeito a doutrinas como a inspiração da Bíblia. O objeto de tal polêmica é desacreditar os teólogos liberais como revisionistas. A mesma acusação tem sido feita contra os próprios evangélicos, e.g., por James Barr, Ernest Sandeen, e outros. De qualquer modo, a história é concebida pelos evangélicos como dando apoio às suas próprias alegações de continuidade do "passado canônico". Evangélicos pentecostais e carismáticos tem ainda uma outra variação do esquema do "passado canônico", chamado muitas vezes de o conceito da "chuva tardia". O pentecostalismo vem de uma reavivamento no início do século XX, quando as pessoas começaram a ter experiências extáticas e emocionais que elas interpretavam como idênticas aos "dons espirituais" ou carismas da igreja do Novo Testamento. Pois bem, era preciso dar conta dos muitos séculos de história eclesiástica entre a igreja primitiva e o reavivamento pentecostal quando poucas dessas experiências estavam em evidência. Então, alguém veio com a teoria da "chuva tardia". Parecia que, devido ao pecado, à letargia ou ainda à divina providência, os dons carismáticos foram retirados da igreja após os primeiros séculos da era cristã. A vitalidade espiritual só foi recuperada gradualmente, como, por exemplo, as doutrinas de justificação pela fé através de Lutero, a santificação através de Wesley, a democratização leiga através da Irmandade de Plymouth, e, enfim, os dons espirituais através do reavivamento pentencostal.21 Esta conceitualização é claramente concebida para servir às necessidades cognitivas dos protestantes sectários. Outro uso ideológico do passado já foi abordado anteriormente. Francis Schaeffer e outros tentam mostrar um triste retrocesso na história da cultura, longe de uma pureza cristã original. Schaeffer lembra com nostalgia dos dias da síntese medieval, quando a teologia era a rainha das ciências e controlava todas as investigações e teorias. Em um de seus últimos livros, How Should We Then Live? ["Como viveremos então?"], ele explicava o livro como uma "tentativa de apresentar o fluxo e o desenvolvimento que levaram ao pensamento do século vinte, e desta forma... mostrar as respostas essenciais."22 O recital resultante tomou a forma de um panorama grosseiro da arte, da filosofia, e outras disciplinas, mostrando como a cultura ocidental tornou-se melancólica e vazia quando se separou da Bíblia. Um exemplo particularmente impressionante da reconstrução evangélica da história é o fenômeno das brochuras apocalípticas. O livro The Late Great Planet Earth, de Hal Lindsey (bem como uma torrente de livros com o mesmo conteúdo), esboça para os leitores crédulos um guia para o futuro próximo, culminando no Armagedom. O retrato ali mostrado inclui a Terceira Guerra Mundial, o declínio da influência americana, a unificação da Europa Ocidental, e os desastres escatológicos costumeiros. Com um futuro desses em que se basear, o evangélico que acredita neste tipo de coisa (não são todos) pouco precisa se preocupar. Ele está isento de quaisquer responsabilidades sociais, já que o mundo só vai piorar até chegar o Fim. A corrida nuclear não é motivo de preocupação já que a Bíblia parece não incluir tal coisa nos seus prognósticos. De qualquer maneira, a história culminará na salvação e recompensa dos evangélicos (e mais ninguém). Esse esboço futurista coloca os coloca em segurança numa história que dá voltas em torno de si mesma, e que, em última análise, não lhe oferece temores. E quando o evangélico busca no jornal diário os supostos últimos cumprimentos de profecias bíblicas, como alguns fazem, tem-se uma gestalt interpretativa simples para todos os eventos. Por exemplo, ele não precisa se preocupar com direitos dos palestinos; tudo que ele tem de saber é que a Bíblia supostamente promete a Palestina aos judeus no Final dos Tempos. E se os acordos de paz falharem? Quanto mais cedo o Armagedom eclodir, melhor, pois os evangélicos serão "retirados" desse caos apocalíptico. Passando da escatologia para a protologia, não podemos ignorar o Criacionismo Científico, assunto muito vasto para que o tratemos em grandes detalhes aqui. Minha própria leitura me convenceu de que a coisa toda é um imenso exercício mental de descarte de toda a evidência em contrário. Com base numa exegese altamente duvidosa do capítulo 1 de Gênesis, os criacionistas rejeitam a Teoria da Evolução, ou "macro-evolução", como a chamam, implicando que aceitam alguma (micro-) evolução a fim de ganhar alguma respeitabilidade científica. Eles não toleram a noção de que toda as atuais formas de vida se desenvolveram a partir de ancestrais unicelulares ao longo de milhões de anos. Querem, portanto, preservar a noção de uma criação manual direta dos protótipos de todas as grandes espécies por Deus, em linhas gerais. Supõe-se que Ele tenha criado um "tipo canino" do qual todos os cães incluindo o chiuaua e o pit bull teriam se desenvolvido, querendo ou não. E todo o processo levou apenas seis dias. A famosa, ou infame, cronologia do Arcebispo Ussher é mantida intacta, num verdadeiro prodígio da era moderna. Conseqüentemente, a idade da Terra é de tão-somente seis mil anos. E aqui, talvez, achamos a apologética mais fraca e embaraçosa de todas, da qual eu e outros já tratamos detalhadamente noutra ocasião.23 Aqui me permitam apenas observar a relevância do criacionismo para a apreensão evangélica da história. Penso que não é por acaso que quando alguém adota tanto o criacionismo como a escatologia ao estilo de Lindsey, acaba-se moldando a história ao seu bel-prazer. Nem o passado nem o futuro duram muito tempo. A humanidade, portanto, parece ser o palco central da peça. Só que os fundamentalistas mais radicais e sectários ainda acreditam que a Terra gira ao redor do sol, mas esta abreviação da história nos dois extremos serve ao mesmo fim. As implicações da revolução de Copérnico pode ser ignorada com segurança: o homem está no centro de todas as coisas, afinal. Às vezes penso que muitos evangélicos prefeririam viver numa era pré-científica, apesar de aqueles engajados em organizações como a American Scientific Affiliation se esforcem corajosamente para fazer o melhor que podem na condição em que estão. Mas quanto mais o evangélico busca a Ciência pela ciência, e não para refutá-la ou explorá-la para fins apologéticos, mais difícil é manter o mesmo tipo de esquema que acabo de descrever aqui. Assim, por exemplo, quem tenha um exemplar de The Genesis Flood [O Dilúvio do Gênesis], de Henry Morris, terminará por jogá-lo no sótão ou na lata de lixo. Será substituído por The Christian View of Science and Scripture [A Visão Cristã da Ciência e da Escritura], de Bernard Ramm. A pessoa deixa para trás a linha dura religiosa para adotar uma postura mais suave, para usar a minha própria terminologia. Começa-se a brincar com acomodações como a "evolução teísta" e o "criacionismo progressivo" etc. O mundo se torna mais velho, e os colegas fundamentalistas passam a olhar de maneira desconfiada e a duvidar do seu comprometimento com a inerrância bíblica. Você pode ver o que está realmente em ação nessa abreviação do passado e do futuro dando uma olhada na visão de mundo de culturas que ainda vivem numa era pré-científica. O Antrpologista Jan Vansina diz, Nós podemos usar um reino como ilustração da magnificação do passado numa profundidade temporal muito rasa porque o indivíduo não consegue expressar grandes profundidades temporais. Os Tio, do Congo, reconhecem apenas duas gerações anteriores ao ego adulto... Para além disso, vai-se diretamente às origens, aos ancestrais míticos. Qualquer coisa anterior à profundidade temporal estrutural... é ignorada... ou magnificada para se encaixar na estrutura de tempo. Tempo e espaço se tornam congruentes com a sociedade.24Sugiro que os Evangélicos estão abreviando a história para encaixá-la à sua própria estrutura de tempo. Eles transitam numa história cômoda sem uma caminhada anterior muito longa e com muito pouco chão pela frente para que seu veículo seja ameaçado de um acidente ou de obsolescência. Uma Olhada Para Fora No capítulo anterior, eu explorei os mecanismos da consciência evangélica que permitem ao crente lidar com a experiência. No capítulo presente, explorei alguns desses mecanismos sutis pelos quais o sistema subcultural de consciência como um todo é mantido. Estes mecanismos são necessariamente discretos, pois, como já observamos, o próprio reconhecimento de sua existência minaria sua eficácia. O modo subcultural de ver as coisas devem parecer auto-evidentes para o crente. Somente assim todas as opções de fora podem parecer ipso facto erradas. Qualquer um que conheça um cristão evangélico sabe que ele parte do princípio de que sua religião é qualitativamente diferente e superior às outras, singularmente verdadeira e eficaz. Para ser mais específico, há um número de traços do Evangelismo que, do ponto de vista dos fiéis, são considerados sinais de sua verdade única. Um punhado dos componentes mais importantes da postura evangélica incluem (1) a idéia de autoridade bíblica e possivelmente a inerrância; (2) o dogma protestante histórico; (3) a experiência de conversão; (4) a promessa de poder para uma vida vitoriosa; (5) uma relação pessoal com Cristo; e (6) discipulado radical e ativismo social. (Embora este último tópico não seja comum a todos os evangélicos.) Juntos, estes seis traços não compõem uma expressão religiosa viável, até mesmo vibrante? Todos podem ver por que os evangélicos são seguros e orgulhosos de sua religião. Mas o Evangelismo é, na verdade, somente uma das várias opções religiosas viáveis nas quais os mesmos componentes religiosos aparecem. Algumas vezes eles aparecem em contextos doutrinários completamente diferentes, ou estão combinados de forma diferente. Por exemplo, é bem conhecido que (1) a autoridade bíblica e a inerrância são defendidas por várias seitas "heréticas", incluindo as Testemunhas de Jeová. É divertido notar, aliás, que as publicações da Sociedade Torre de Vigia chegam mesmo a citar favoravelmente o trabalho do evangélico F. F. Bruce sobre a confiabilidade dos evangelhos. Da mesma maneira, (2) a teologia protestante histórica é propriedade comum de muitas confissões protestantes não-evangélicas. Passando ao traços experienciais delineados acima, (3) a experiência de conversão (à qual a expressão Renascido se refere) é comum a quase todos os "cultos" modernos, como a Igreja da Unificação, e muitas terapias de massa, incluindo EST. (Sobre este ponto, veja o fascinante livro de Conway e Siegelman, Snapping: America's Epidemic of Sudden Personality Change.) Estas conversões não são menos "transformadoras de vidas" que aquelas experimentadas sob os auspícios evangélicos. A literatura devocional evangélica é recheada com promessas e técnicas para atingir o (4) "poder para uma vida vitoriosa". Pode ser surpreendente observar o quão proeminente o mesmo tema está presente na massa de literatura "inspiracional" ou de auto-ajuda, como a de Norman Vincent Peale [autor de O Poder do Pensamento Positivo], Henry C. Link, e outros, cujo ápice d epopularidade foi nos anos 50. Estes escritores recomendavam técnicas psicológico-religiosas diversas daquelas dos devotos evangélicos. Por exemplo, Bill Gothard ensina "a meditação das Escrituras"; Bill Bright advoga "respiração espiritual"; escritores de Inter Varsity inculcam o hábito de um "tempo tranqüilo diário". Os escritores de auto-ajuda prescrevem técnicas como "pensamento positivo", "oração científica", etc. O contexto teológico e o jargão são diferentes, mas as bênção prometidas são as mesmas: "poder para viver", orientação divina na tomada de decisões, segurança emocional, às vezes até mesmo a prosperidade material. A julgar pela imensa popularidade desses livros, deve-se supor que um bom número de pessoas realmente acharam o "poder para uma vida vitoriosa" nessa mesma alternativa não-evangélica. Uma análise importante e interessante do apelo e do caráter teológico dessa "literatura inspiracional" pode ser encontrada em Schneider e Dornbusch, Popular Religion: Inspirational Books in America, 1958. Um igualmente chocante paralelo à retórica evangélica ocorre na Renovação Carismática Católica. Lá encontramos (5) a experiência de uma "relação pessoal com Cristo". Por exemplo, o líder carismático católico Ralph Martin fala da necessidade das pessoas "pessoalmente entregarem suas vidas a Jesus, aceitando-o como... Salvador e Senhor".25 Muitos evangélicos compreensivelmente se rejubilam ao ouvirem tais palavras vindas de católicos, mas é imperativo não desprezar a diferença no contexto teológico aqui. Ao contrário dos evangélicos, os carismáticos católicos freqüentemente não igualam conversão/salvação com uma relação pessoal com Cristo. Ao contrário, todos os católicos se vêem como salvos em virtude de seu batismo infantil. A relação pessoal com Cristo é uma espécie de "cereja do bolo". Apesar de os evangélicos muitas vezes desprezarem esse detalhe, do ponto de vista da teologia evangélica, esta diferença realmente não pode ser subestimada. Além disso, muitos, senão a maioria, dos católicos carismáticos continuam a adotar a teologia católica, a eclesiologia, a mariologia etc. Finalmente, que dizer do (6) disciuplado radical, popularizado entre muitos fiéis mais jovens nos últimos anos através da circulação de publicações como The Other Side, Radix e Sojourners? O quão pouco esse retrato depende de um contexto evangélico fica claro numa rápida olhada em qualquer edição de Sojourners. Karl Barth, Daniel Berrigan, Thomas Merton e Walter Wink aparecem lado a lado com Clark Pinnock e Mark Hatfield. tem-se a impressão de que, embora essa revista seja o orgulho e a alegria de muitos evangélicos "progressistas", suas principais fontes de inspiração sequer evangélicas são! O resultado desta pesauisa é que esses traços, embora apareçam juntos no Evangelismo, não são necessariamente interdependentes em qualquer sistema religioso, muito menos o evangélico. Isso sugere, no mínimos para que está de fora, que o Evangelismo não é "a verdade", mas somente uma de várias opções religiosas viáveis e vitais no mundo, muitas das quais realmente oferecem os mesmos benefícios espirituais, cognitivos e experimentais em diferentes embalagens e combinações. E apesar de essa percepção não ser nenhuma novidade para os de fora, a maioria dos cristãos evangélicos não vêem as coisas dessa maneira. Em vez disso, tendem a ver a si próprios como os "verdadeiros cristãos", ao passo que os demais são apenas "cristãos nominais". Do contrário, como explicar o uso constante do adjetivo "cristão" com óbvia referência aos evangélicos somente? Ou a freqüente pergunta sobre estratégia de evangelismo pessoal, "Como devo abordar meu amigo católico que diz já acreditar que Cristo é o Filho de Deus, etc.?" Contudo, essa situação poderia mudar se os evangélicos reconhecessem as coisas que apontei neste capítulo. A verdade exclusiva de seu ponto de vista não mais pareceria tão auto-evidente. No nível da teologia acadêmica, mudanças significativas podem estar no horizonte. Está se tornando aparente que muitos pensadores evangélicos começam a despir essa visão essencialmente sectária. Tal pode ser observado ao se traçar a mudança nas atitudes evangélicas em relação ao "diálogo". Os primeiros fundamentalistas estigmatizavam o Liberalismo como uma religião (não-cristã) completamente diferente, o Catolicismo como a Prostituta de Babilônia, e o Protestantismo confessional como "formalismo morto". Não havia diálogo, só polêmica. Os "neo-evangélicos" mais recentes, como Carl F. H. Henry, Harold J. Ockenga, E. J. Carnell e Bernard Ramm chegaram a advogar o "diálogo", mas viam isso como uma apologia da doutrina fundamentalista. Recentemente, no entanto, os "Young Evangelicals" [Jovens Evangélicos] têm defendido e se comprometido com uma diálogo genuíno com outras tradições religiosas. Por exemplo, Lewis Smedes e Richard Mouw foram signatários do ecumênico "Hartford Appeal for Theological Affirmation" (cf. o ensaio de Mouw, "New Alignments: Hartford and the Future of Evangelicalism" in Berger and Neuhaus, Against the World, For the World). Marvin Wilson levou os evangélicos ao diálogo registrado em Evangelicals and Jews in Conversation [Evangélicos e Judeus em Diálogo]. Robert Webber (Common Roots), Donald Bloesch e alguns de seus colegas colaboradores do "The Chicago Call" e The Orthodox Evangelicals têm clamado explicitamente por um fim à mentalidade de gueto evangélica. Segundo eles, os evangélicos devem agora humildemente tomar o seu lugar num espectro de tradições cristãs legítimas, espectro esse largo o bastante para incluir o liberal Hans Küng e o místico teosófico Mestre Eckhart. Um último exemplo seria o apoio e a participação evangélica na "Conferência do Laicato" de 1978, que recebeu católicos romanos e liberais ecumênicos como legítimos "irmãos e irmãs no Senhor". Mas talvez ainda mais assombrosa seja a admissão de Clark Pinnock, David F. Wright e outros estudiosos de Teologia de que os liberais são cristãos genuínos afinal! Wright diz, "Ofensas desnecessárias foram claramente feitas por afirmações como 'Ele não é um cristão', quando o que se se quer dizer é 'Ele não é um (cristão) evangélico'... Somente Deus conhece os seus."26 Os liberais que desmitificam e desobrenaturalizam o crostianismo ainda podem ser teoricamente admitidos como tendo uma fé adequada ("salvadora")! Neste caso, a teologia obviamente foi radicalmente abalada. Se alguém desmitifica a Bíblia ou não é algo que fica reduzido ao mesmo tipo de diferença intestina quanto o número de dispensaçòes em que se deveria dividir a Bíblia. E isto constitui potencialmente uma grande virada, até uma revolução na auto-consciência evangélica. Para perceber as implicações deste fato, imagine como ele se traduzirá na prática e na percepção dos estudantes e leigos evangélicos. Se Pinnock, Webber, et al. forem levados a sério, deixa de ser óbvio que o cristão renovado do escritório deva testemunhas para seu colega fumante católico, ou que o membro da Assembléia de Deus deva orar pela conversão de seu companheiro de quarto presbiteriano liberal ou ministro de campus. Talvez eles já sejam realmente cristãos, afinal de contas. A dicotomia "nós-contra-eles", salvo/não-salvo, que tem sido tão crucial para moldar a vida religiosa evangélica, ficaria seriamente nebulosa, seja correta ou incorretamente. Minha sugestão é que esta não seria uma mudança desprezível na forma e no estilo da religião evangélica. Voltarei a esse assunto na seção final do livro.
"Beyond Born Again: Towards Evangelical Maturity" é copyright © 1993 de Robert M. Price. Todos os direitos reservados. A versão eletrônica é copyright ©1997 dos Internet Infidels com a permissão escrita de Robert M. Price. Traduzido e adaptado para o português segundo as regras sobre reprodução de textos do site dos Internet Infidels. Notas 1 - Veja Peter L. Berger e Thomas Luckmann, A Construção Social da Realidade (Garden City, NY: Doubleday & Co., 1967). - A edição brasileira é pela Editora Vozes. Voltar 2 - Robert S. Ellwood, One Way: The Jesus Movement and Its Meaning (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1973), p. 31. Voltar 3 - "Counting Souls," Time (October 4, 1976), p. 75. Voltar 4 - James Barr, Fundamentalism (London: SCM Press, 1977), p. 104. Voltar 5 - Bob Larson, Rock & Roll, the Devil's Diversion (McCook, NE: Bob Larson, 1970), pp. 159, 155, 159. Voltar 6 - Frank Garlock, The Big Beat, a Rock Blast (Greenville, SC: Bob Jones University Press, 1971), p. 26. Voltar 7 - Francis A. Schaeffer, Art & the Bible (Downers Grove, IL: IVP, 1977), p. 43. Voltar 9 - Kenneth G. Howkins, The Challenge of Religious Studies (Downers Grove, IL: IVP, 1973), pp. 3, 5. Voltar 10 - Leon Festinger, Henry W. Riecken, and Stanley Schachter, When Prophecy Fails (New York: Harper & Row, 1964), p. 28. Voltar 12 - John Lofland, Doomsday Cult, A Study of Conversion, Proselytization, and Maintenance of Faith (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1966), pp. 209, 208. Voltar 13 - Francis A. Schaeffer, Escape from Reason (Downers Grove, IL: IVP, 1977), pp. 82, 61, 66. Voltar 14 - James W. Sire, The Universe Next Door: A Basic Worldview Catalog (Downers Grove, IL: IVP, 1977), p. 14. Voltar 15 - Os Guiness, The Dust of Death (Downers Grove: IVP, 1973), p. 317. Voltar 16 - Walter R. Martin, The Kingdom of the Cults (Minneapolis: Bethany Fellowship, 1974), pp. 25-26. Voltar 17 - James Bjornstad, Twentieth Century Prophecy (New York: Pyramid Books, 1970), pp. 120, 256. Voltar 18 - John Weldon and Zola Levitt, UFO's, What on Earth is Happening? (New York: Bantam Books, 1976), p. 144. Voltar 19 - Berger and Luckmann, p. 103. Voltar 21 - Arthur Wallis, in Preface to Frank Bartleman, Another Wave Rolls In! (Northridge, CA: Voice Publications, 1970), p. 5. Voltar 22 - Francis A. Schaeffer, How Should We Then Live? (Old Tappan, NJ: Fleming H. Revell Co., 1976), p. 13. Voltar
23 - Robert M. Price, "The Return of the Navel: The 'Omphalos' Argument in Contemporary Creationism," Creation/Evolution, Fall, 1980; "Old-Time Religion and the New Physics," Creation/Evolution, Summer, 1982; "Scientific Creationism and the Science of Creative Intelligence," Creation/Evolution, Winter 1982; "Creationism and Fundamentalist Apologetics: Two Branches of the Same Tree," Creation/Evolution, Fall, 1984. Na verdade, qualquer edição deste jornal contém refutações abundantes e detalhadas da assim chamada Ciência Criacionista e suas afirmações fraudulentas. De fato, é como pescar um peixe num barril. Voltar
24 - Jan Vansina, Oral Tradition as History (Madison: University of Wisconsin Press, 1985), pp. 117-118. Voltar
25 - Ralph Martin, Unless the Lord Build the House: The Church and the New Pentecost (Notre Dame: Ave Maria Press, 1977), p. 11. Voltar
26 - David F. Wright, "James Barr on 'Fundamentalism'-- a Review Article," Themelios (Fall, 1978), p. 88. Voltar
|